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Análise: Pillars of Eternity: Complete Edition – um grande jogo com grandes problemas no Switch

Mais um excelente título comprometido por bugs e problemas sérios de desempenho no console híbrido da Nintendo.


Pillars of Eternity é um robusto RPG criado pela Obsidian Entertainment nos mesmos moldes de clássicos como Baldur's Gate, Planescape: Torment e Icewind Dale. Ports para consoles sempre foram um enorme desafio para estes jogos tipicamente de computadores (geralmente gerando spin-offs), e como "Pillars" segue fielmente os passos destes titãs que o antecederam, essa tradução quase idêntica para o Nintendo Switch é um feito e tanto. Mas com algumas ressalvas pontuais e extremamente importantes.

Os pilares de um grande jogo

Hoje, a desenvolvedora Obsidian Entertainment (recém adquirida pela Microsoft) talvez seja mais conhecida por Fallout: New Vegas e pelo vindouro The Outer Worlds. Mas seu histórico também guarda algumas pérolas dos RPG's, como Neverwinter Nights 2 e Star Wars: Knights of the Old Republic II. Pillars of Eternity, por outro lado, é um dos produtos mais autorais do estúdio, fruto de uma das mais afortunadas campanhas de financiamento coletivo já vistas no mundo dos games.


Muito mais do que isso, o título lançado originalmente em 2015 é uma verdadeira carta de amor aos antigos RPG's dos PC's do final da década de 90, exatamente como prometido a todos os fãs que financiaram o projeto. E este fato não é à toa: o processo de criação de Pillars of Eternity surgiu por conta do histórico da própria Obsidian, um estúdio criado por ex-funcionários do já dissolvido Black Isle Studios, famoso por clássicos dos PC's como Fallout, Planescape: Torment e Icewind Dale — além de ter publicado o venerado Baldur's Gate, da Bioware.

Todos estes fantásticos títulos foram a inspiração — e o cartão de visitas — da Obsidian para angariar os fundos necessários para a produção de "Pillars". O produto final, definitivamente, não decepcionou: é um RPG complexo e de altíssima qualidade. A versão que chega ao Switch, porém, é uma faca de dois gumes. Quando funciona, o jogo brilha forte. Mas o port feito pela Versus Evil é recheado de bugs e de problemas sérios de desempenho que quase ofuscam esse brilho.

Almas, guerras e um reino dividido

Pillars of Eternity é uma fantasia medieval passada no mundo de Eora, em uma região onde uma guerra recente dividiu o povo e trouxe à tona discussões acaloradas que envolvem ciência, religião, política e preconceitos. Mesmo com claras influências de elementos consagrados por obras como O Senhor dos Anéis e Forgotten Realms (Dungeons & Dragons), há muita originalidade em seu excelente enredo.

Um exemplo disso é o tema principal do jogo: recentes descobertas científicas mostraram que almas são reais e podem ser usadas, transferidas, armazenadas, modificadas, etc. Entretanto, cada alma guarda as memórias de sua vida anterior, e muitas delas seguem perambulando pelo mundo. Neste cenário complexo surge o personagem sem nome controlado pelo jogador, um Watcher, pessoa com poderes sobrenaturais que é capaz de enxergar e interagir com estas almas, acessando suas memórias e descobrindo segredos terríveis sobre suas vidas e mortes.

Essa pesada temática sobre os aspectos éticos e morais do uso das almas é o pano de fundo para uma infinidade de conflitos que o jogo apresenta de forma orgânica durante a jornada. Cabe ao jogador, portanto, decidir cada situação com escolhas também baseadas em conceitos éticos, que acabam por determinar o desenrolar do enredo e o destino de todos que o cercam.

Cada escolha importa

Pillars of Eternity apresenta um sistema de tendências que é similar aos famosos alinhamentos presentes em D&D. O jogador cria sua reputação conforme suas escolhas, e cada decisão influencia seu alinhamento e sua relação com os personagens e facções presentes na aventura. Isso significa que toda decisão de ação ou diálogo tem um peso tremendo, influenciando quase tudo o que acontece a seguir e valorizando ainda mais a qualidade do conteúdo criado pela Obsidian.

Soma-se a isso o fato de que a história é complexa e rica em folclore. Toda classe, raça e região de origem dos personagens também tem influência em suas posturas e opiniões sobre absolutamente tudo. No final, temos um emaranhado de relacionamentos que deixam a jogatina constantemente interessante, agregando peso e importância para cada linha de diálogo.

Por falar em em diálogos, prepare-se para ler muito em Pillars of Eternity. O jogo é uma metralhadora de textos muitíssimo bem escritos, dos mais simples e diretos aos mais pomposos e recheados de detalhes. O port para o Switch reconhece a importância disso e apresenta blocos de texto enormes, que tomam quase toda a tela e evitam as letras pequenas, favorecendo uma leitura sempre agradável. Como nem tudo são flores, infelizmente não há qualquer tradução para o nosso idioma.

Uma infinidade de sistemas

De relance, a visão isométrica de Pillars of Eternity pode até lembrar o clássico Diablo, da Blizzard. Mas bastam alguns minutos com o controle na mão para perceber que a profundidade da história e das mecânicas do jogo da Obsidian vão muito, muito além. O gameplay segue o caminho dos supracitados clássicos Baldur's Gate e Neverwinter Nights, com uma infinidades de sistemas para aprender e, eventualmente, dominar.

Estatísticas básicas, redução de dano, fortitude, reflexos, concentração, deflexão, crafting, aflições, magias, vontade, talentos, habilidades, equipamentos, armas, pergaminhos... e a lista continua. As possibilidades de modificadores que influenciam cada simples (ou complexo) ato durante o jogo são tantas, que explicá-las uma a uma não caberia nos parágrafos deste limitado texto. É, ao mesmo tempo, intimidante e motivador.

Enquanto um jogador mais casual pode iniciar uma partida, baixar a dificuldade e imergir na história principal e missões secundárias do game, um jogador mais determinado pode criar uma party mortífera e se perder explorando as incontáveis possibilidades deste fantástico e profundo RPG. Em meu tempo com o título, tentei experimentar pelo menos superficialmente em cada ferramenta disponível, mas a quantidade de opções é tão maciça que até mesmo uma olhadela rápida exige tempo e incentiva mais dedicação.

Os botões ZL e ZR abrem as rodas de opções onde estão praticamente todas as ferramentas necessárias tanto para combate como para os menus de compêndios, inventário e interações entre personagens. Tudo funciona razoavelmente bem nos limitados controles do Switch, mesmo sem mouse ou uso da tela de toque. Para facilitar na hora dos conflitos, há uma opção de pause que é fundamental para deixar o jogador respirar e tomar decisões conscientes.

Já o combate em si segue a linha de outros jogos do mesmo estilo, numa mistura eficiente de ação e tática. Podemos escolher o alvo de cada personagem da party e sua função durante o engajamento, enquanto o resto é feito automaticamente pelo computador. E, como não poderia deixar de ser, cada classe tem suas vantagens e desvantagens no uso de armas, armaduras, magias, etc. Ao final das lutas, o XP é dividido entre os heróis de seu grupo, o que deixa a evolução mais lenta mas proporciona momentos ímpares de interações entre os personagens, dando outro sabor à aventura.

O fator tempo é importante durante toda a jogatina. Além da já citada opção de pausa, também podemos acelerar e diminuir a velocidade da partida conforme a necessidade. Toda e qualquer ação faz o tempo passar, incluindo dormir, viajar, batalhar, etc, o que influencia direta e indiretamente alguns elementos como quests e o dinheiro arrecadado na sua fortaleza — sim, você pode adquirir e administrar uma incrível fortaleza.

As vantagens e desvantagens da portabilidade

Apesar do enredo pesado e sombrio, Pillars of Eternity é um colírio para os olhos mesmo quase cinco anos após seu lançamento original. Na telinha do Switch, a direção de arte minuciosa fica ainda mais fantástica, e o fato de a câmara ser fixada num ângulo superior (apenas com a possibilidade de aproximar ou distanciar) ajuda a deixar o visual sempre atraente.

Fui constantemente seduzido pela riqueza de detalhes, acontecimentos e personagens interessantes que preenchem os belíssimos cenários do jogo. Somada a isso está uma trilha sonora potente, que aparece nos momentos mais oportunos para inserir uma camada extra de emoção ao game. Por fim, como se a campanha base não fosse enorme o suficiente, a edição que chega ao Switch também oferece o pacote de expansão The White March, que leva os heróis a outra região e apresenta uma nova campanha.

História cativante, visual atraente, músicas épicas e gameplay complexo. Parece o casamento perfeito para aproveitar no pequeno console da Nintendo, não é mesmo? E seria, de fato, não fossem alguns problemas seríssimos desempenho. Loadings eternos, constantes quedas no frame rate e glitches visuais extremamente irritantes atrapalham a diversão. A performance é perfeitamente satisfatória, até deixar de ser. 
Alguns glitches agressivos atrapalham a experiência
No início, o título até apresenta alguns pequenos bugs nos textos e algumas engasgadas em combates mais tumultuados, mas quanto mais avançamos na história, mais complicados ficam os problemas. Ao final de minha jogatina, com mais de 60 horas de progresso sendo guardadas nos arquivos de salvamento, sofri com crashes e glitches que me obrigaram a reiniciar o jogo diversas vezes. E isso acabou por manchar consideravelmente minha experiência, obrigando-me a tirar um ponto cheio da nota final deste excelente jogo nesta análise.

Um título brilhante com desempenho problemático

Uma história fascinante é apenas a ponta do gigantesco iceberg que é Pillars of Eternity. O sucesso da Obsidian chega ao Nintendo Switch num pacote generoso, que traz toda a complexidade de sistemas, combate desafiador e liberdade de escolhas que fizeram deste um dos melhores jogos de seu estilo. Mas se você pretende se aventurar pelo espetacular mundo de Eora no console da Nintendo, fique ligado: em sua versão preliminar, este port falho testa a paciência do jogador com bugs e problemas sérios de desempenho. Entretanto, com futuros patches e atualizações, o título tem tudo para ficar excelente como sempre foi.


Prós

  • Cada decisão tem peso e influencia o desenrolar do enredo e das interações entre personagens;
  • História fascinante e original, com uma densidade absurda de conteúdo para aprofundá-la;
  • Dezenas de possibilidades e mecânicas para serem exploradas e aprendidas;
  • Combate tático e extremamente desafiador;
  • Visual rico em detalhes, potencializado por uma trilha sonora belíssima.

Contras

  • A quantidade de leitura exigida pode ser uma barreira, especialmente por não contar com tradução para o português;
  • A quantidade absurda de mecânicas e comandos para aprender pode ser intimidante;
  • Loadings longos e constantes, além de muitos bugs que precisam ser consertados com urgência.
Pillars of Eternity: Complete Edition — Switch/PS4/XBO/PC — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela Versus Evil

No currículo tem publicidade e jornalismo, mas no coração tem games. É um entusiasta da história dessa indústria infame e um colecionador esporádico. Se quiser conversar sobre a guerra dos consoles e outros assuntos, pode mandar uma mensagem no Twitter para @carloscirne

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