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A Hat in Time + Seal the Deal (Switch): é uma aventura carismática que sofre nas mãos de um péssimo port

Problemas na performance atrapalham o rendimento de um dos melhores jogos de plataforma 3D da década.

Não se deixe enganar! Nós não estamos mais nos anos 90. Por incrível que pareça, a moda de coletar estrelas, peças de quebra-cabeça, diamantes e afins realmente voltou com tudo na indústria dos videogames. Afinal, o saudoso gênero de 3D Platformers, que por muitos anos foi sustentado unicamente pela franquia de jogos 3D do Mario, passou a receber diversos títulos que tentam revitalizar o interesse dos jogadores nessa categoria que se perdeu no tempo. Entre todas as tentativas, o simpático indie A Hat in Time foi facilmente o que mais se destacou.


Dois anos depois do lançamento original para computadores, o indie desenvolvido pela Gears For Breakfast chega ao Nintendo Switch com a fama de ser um rival à altura do todo poderoso Super Mario Odyssey (Switch). A versão para o console híbrido também inclui a primeira DLC Seal the Deal no pacote, mas será que só isso compensou toda essa espera?


Coletando pra viver

A Hat in Time começa mostrando mais um dia normal na vida da Hat Kid, uma pequena garota que mora sozinha dentro de uma espaçonave que utiliza as Time Pieces, poderosas ampulhetas com o poder de voltar no tempo, como combustível.

Enquanto descansava a nave perto de um planeta, a Hat Kid é surpreendida por um mafioso caricato que veio cobrar pedágio pela passagem no território da máfia daquele planeta. O mafioso é cabeça dura e acaba quebrando o vidro da nave, fazendo com que todas as Time Pieces sejam sugadas pela pressão do espaço até o planeta mais próximo.

Graças ao incidente, nossa heroína embarca em uma aventura para reunir todas as Time Pieces perdidas. No total, são 4 mundos diferentes e um quinto incluso no DLC Seal the Deal, pelos quais o jogador deve realizar missões específicas para encontrar as peças e outros tesouros opcionais.

O acesso às áreas e mundos do jogo é feito por meio da espaçonave, que serve como um Hub compacto recheado de segredinhos. Os chapéus mágicos garantem poderes distintos e funcionam como a principal mecânica que rege a maioria dos desafios da aventura.


Possibilidades complexas, porém acessíveis

A movimentação simples e precisa é, de longe, o maior exponencial de A Hat in Time. Mesmo sem apresentar um terço da complexidade dos movimentos de Super Mario Odyssey ou Super Mario Sunshine (GC), os controles do jogo conseguem oferecer o mesmo nível de possibilidades e experimentação sem exigir um esforço estressante por parte do jogador.

O level design dos mundos é perfeitamente construído em torno das opções de movimento. Parece que todas as suas ideias se encaixam com a facilidade de um quebra-cabeça infantil, mas que recompensa o jogador com a sensação de completar um quebra-cabeça de 20 mil peças.

A jogabilidade é inteiramente sem complicações e direta ao ponto. Você sempre sabe se vai conseguir acertar o pulo ou não. É costumeiro “sentir” que os seus movimentos sempre irão sair como o esperado. Essa sensação de ter total controle sobre o personagem nunca havia sido tão bem aplicada antes em um jogo de plataforma 3D.

Apesar de representarem a principal temática do jogo, os poderes dos chapéus mágicos são os únicos elementos que destoam da eficiência do resto da jogabilidade. Metade deles são completamente gimmick e acabam só servindo para passar por obstáculos muito específicos. 


Tente não se apaixonar

Depois da jogabilidade, chegou a hora de falar da segunda maior qualidade de A Hat in Time: o carisma impressionante que permeia toda a aventura. Chega a ser bizarro como os personagens são tão expressivos, únicos, ridiculamente engraçados e desenvolvidos de maneiras surpreendentemente tocantes para uma história que foca a maior parte do tempo na comédia.

Agora que A Hat in Time já conta com legendas em português, não sobraram mais desculpas para não dar boas risadas. É praticamente impossível encontrar alguém que não chorou de rir com o humor bobo, mas extremamente bem pensado, das piadas do jogo. É um tipo de humor tão inocente e genial que faz o jogador se apaixonar por cada ser vivo daquele mundinho.

O trabalho de dublagem dos personagens é uma verdadeira obra-prima. Cada um deles conta com sotaques, manias, maneiras de falar e vozes tão cartunescas que se provam essenciais para o funcionamento do humor e da ironia da obra. O visual fofo e expressivo dos personagens só contribui ainda mais para o carisma da aventura.

Graças ao seu humor irônico, A Hat in Time consegue adicionar elementos sérios na história ou quebrar expectativas sem parecer completamente destoante do resto do clima bobo do jogo. Às vezes, chega até a ser violento, mas violento de uma maneira tão “fofa” que fica hilário.


Qualidade mal otimizada

A Hat in Time também aproveita para fazer experimentações bem-vindas no gênero de Platformers 3D. As batalhas contra os chefes são mais desenvolvidas e longas. O foco das missões é dividido entre a linearidade e a exploração, de forma que uma jogatina longa não é cansativa. Antes mesmo de Mario Odyssey, a customização visual da Hat Kid já estava incentivando uma maior exploração em busca de segredos e coletáveis. Tudo isso são pequenos detalhes que adicionam mudanças refrescantes para o estilo.

As músicas e os efeitos sonoros são excepcionais e agradáveis de se ouvir, como é de se esperar de um jogo desenvolvido com muito carinho. Os gráficos não são tão bem trabalhados assim, mas a identidade visual é expressiva o suficiente para compensar esse problema sem muitas dificuldades.

No entanto, nem tudo são flores nesta jornada. Mesmo com o DLC Seal the Deal, A Hat in Time continua sendo um jogo consideravelmente pequeno. É possível jogar em modo cooperativo com um amigo localmente ou enfrentar um modo de desafios com alta dificuldade, mas só isso não basta.

Os mundos são pequenos e ficam muito repetitivos no momento que são revisitados pela segunda vez depois do término. O final do jogo é excelente, mas vem acompanhado com a sensação agridoce de que falta pelo menos uns dois ou três mundos grandes para que o aventura fique realmente completa.

Como se não bastasse, a performance do port para o Switch é extremamente problemática. Além de instável, o FPS é completamente nivelado para baixo mesmo se o console estiver acoplado no Dock. E olha que os gráficos do jogo sequer são tão complexos assim! A resolução da tela também não foi otimizada para ser jogada na televisão, ficando bastante desagradável fora do modo portátil.

E ainda tem mais. Há uma maior frequência de bugs gráficos e mecânicos, os loadings são bizarramente longos e o jogo costuma travar por 2 segundos sempre que muitos inimigos ou efeitos estão na tela. De todos os problemas que não existem na versão de PC, esse último foi o que mais atrapalhou a minha experiência. Perdi as contas de quantas vezes morri porque fui trocar de chapéu no meio do ar e tela travou aleatoriamente, me fazendo cair direto no abismo.


Uma volta ao passado

No auge dos anos 90, nenhum gamer em sã consciência tinha coragem suficiente para afirmar que o gênero de jogos de plataforma 3D teria um destino tão triste nas décadas seguintes. Era simplesmente impensável que o estilo de jogo mais popular da quinta geração de videogames seria esquecido pelos desenvolvedores em tão pouco tempo.

Foi justamente durante esse recesso escasso que A Hat in Time surgiu apostando na nostalgia dos jogadores que cresceram jogando Banjo & Kazooie (N64) ou Spyro the Dragon (PS1). Porém, muito mais do que isso, A Hat in Time foi um jogo que pegou a velha fórmula dos Collecthatons e resolveu experimentar ideias refrescantes junto com a presença de personagens hilários, controles precisos e muito, mas muito carisma.

Contudo, o port para o Nintendo Switch continua não sendo a melhor das maneiras de experimentar a aventura. A sofrível performance do jogo é um grande empecilho, ainda mais quando se joga na TV. Some isto ao fato de que o título tem uma pequena duração e é mais caro no Switch do que nos outros consoles. Desse jeito, fica bem difícil de recomendar a sua compra.

Caso você só tenha um Switch e não ligue tanto para esses problemas, saiba que a aventura ainda consegue te proporcionar muita diversão. Fora isso, é altamente preferível que você experimente A Hat in Time em algum outro lugar, pelo menos enquanto a Gears for Breakfast não revelar planos para melhorar a performance no Switch.



Prós:

  • Dublagem incrível;
  • Humor e carisma de outro mundo;
  • Jogabilidade acessível e funcional;
  • Trilhas e efeitos sonoros excelentes;
  • Personagens cativantes;
  • Missões criativas e bem desenvolvidas.

Contras:

  • Consideravelmente pequeno;
  • Sem um bom replay;
  • Performance horrível no Switch;
  • A versão mais cara e menos otimizada.
A Hat in Time + Seal the Deal - Switch - Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Humble Bundle

Estudante de jornalismo que não vê a hora de achar um estágio. Apaixonado por videogames e esperando o fim de Hunter x Hunter e Berserk desde que me entendo por gente.

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