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Análise: Raging Loop (Switch): lobisomens, deuses antigos e um ciclo de morte e ressurreição

Visual novel de mistério com elementos de terror psicológico é um excelente exemplar do gênero.


Desenvolvida pela Kemco, Raging Loop é uma visual novel de mistério com algumas pitadas de terror psicológico. Traduzida pela Lemnisca e publicada pela PQube no Ocidente, ela conta a história de um jovem que vai parar em uma vila cercada por uma densa névoa onde assassinatos tem acontecido. Será ele capaz de sobreviver e escapar desse lugar?

Um loop de morte e ressurreição

Após um término complicado com sua namorada, o jovem Haruaki Fusaishi decide pegar sua moto e cair na estrada. No entanto, ele acaba se envolvendo em um acidente e indo parar em uma vila isolada e pouco receptiva. Graças à ajuda de Chiemi Serizawa, ele consegue se abrigar temporariamente até consertar sua moto.


No entanto, uma névoa misteriosa logo chega ao vilarejo. De acordo com as lendas locais, quando ela aparece, lobos antes venerados como guardiões da área voltam à vida e tomam o lugar dos humanos, assassinando um humano a cada noite. Para lidar com essa calamidade, os moradores precisam realizar um ritual antigo chamado “Feast of Yomi-Purge”, no qual eles escolhem uma pessoa para sacrificar na expectativa de que ela seja um dos lobos.

O protagonista logo morre e assim começa a jornada de Raging Loop. Ao invés de ser um jogo realmente baseado em escolhas, a visual novel funciona mais como um grande labirinto em que algumas portas estão trancadas e as chaves só podem ser conseguidas em seus becos sem saída. Em Raging Loop não é possível avançar sem morrer. Cada morte é uma chave para poder alcançar o final, pois de alguma forma Haruaki se lembra de suas escolhas e pode então tomar novas decisões.


Tendo em mente essa característica, a história é realmente intrigante. Confesso que achei o início bastante previsível e acho que há muitos momentos que são mais demorados do que deveriam, especialmente quando o protagonista decide analisar os eventos até aquele ponto em cada rota. Porém, mesmo com isso, me senti bastante envolvido com a trama, seus personagens e a busca por um final que desvendasse tudo. E chegar ao final é bastante gratificante, com reviravoltas interessantes.


Vale destacar que se guiar pela história também é bastante simples. Primeiramente, temos um flowchart detalhado que cobre toda a história e permite ao jogador a qualquer momento pular para um ponto desejado da história. Além disso, todo final oferece uma dica para que o jogador saiba como progredir, mesmo aqueles em que é óbvio como fazer isso.

Após terminar o jogo também é interessante voltar para cenas anteriores, graças ao “Revelation Mode”. Com ele ativado nas configurações, são liberados novos textos de como os personagens estavam pensando durante os eventos. Até mesmo cenas banais do início ganham novas camadas de significado, caso o jogador queira ver mais.

O contraste entre a tradição e o novo


Um dos aspectos que chamam a atenção no desenrolar da trama é a personalidade do protagonista. Quanto mais tempo temos de jogo, mais ele se prova fora da curva, alguém que não é preso a padrões de moralidade rígidos. Diante de uma vila muito tradicional, cujos costumes são uma camisa de força para muitos, é fácil perceber o contraste de perspectivas e formas de agir e pensar.

Ele é um dos elementos mais surpreendentes do jogo, tomando ações que às vezes são até chocantes. Boa parte do que torna o final interessante tem a ver com a forma ousada como ele decide lidar com a resolução dos problemas para tentar voltar à vida normal.


Também é interessante o visual dos personagens que tem uma aparência mais suja e velha do que o que se tornou padrão estético do gênero. Isso fortalece um senso de realismo em conhecê-los. Eles realmente passam a sensação de pessoas que vivem em uma vila rural afastada e pouco povoada. Os personagens mais velhos da vila, em especial, não só tem uma aparência bastante detalhada como a atuação de seus dubladores japoneses é bem convincente.

No fim das contas, mais do que a disputa entre “lobos” e “humanos”, o que é interessante no jogo é outra coisa. O que chama a atenção é sua abordagem temática da tradição, das lendas locais e da forma como a religião e a sociedade se misturam historicamente. Há muito mais escondido por trás do “Feast” do que possa parecer inicialmente.


De forma geral, Raging Loop é um excelente exemplar do gênero. Com seu protagonista moralmente ambíguo, visual atípico e história bem conduzida, o jogo tem a capacidade de envolver o jogador. Contanto que a pessoa não tenha medo de gastar muitas horas lendo, esse mistério é certamente recomendado para qualquer jogador.

Prós

  • Protagonista com personalidade forte e intrigante;
  • Visual de personagens diferente do padrão (mais sujo e velho, como a vila);
  • Escrita envolvente, com boa tradução em inglês;
  • Boas reviravoltas para a reta final;
  • Exploração de história via flowchart e dicas para cada final;
  • Modo revelação oferece mais detalhes de cada cena depois de obter o fim verdadeiro;

Contras

  • Se delonga demais nas explicações do “metajogo”
Raging Loop - Switch/PS4 - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão: Vinícius Fernandes
Análise produzida com cópia digital cedida pela PQube Games

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.

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