Pokémon Blast

Galar: uma região onde o passado e presente colidem

Baseada no Reino Unido, a próxima aventura de Pokémon é inspirada em histórias e lendas que percorrem o imaginário britânico até os dias de hoje.


Na série de jogos Pokémon, cada região traz histórias e elementos que se inspiram no país ou cidade que fazem homenagem. As quatro primeiras gerações se passam em Kanto, Johto, Hoenn e Sinnoh que, por sua vez, representam as regiões japonesas de Kanto, Kansai, Kyūshū e Hokkaido, respectivamente. Já Unova é o primeiro jogo que se afasta dos ares nipônicos ao se basear em Nova York para construir a sua ambientação. Característica essa que se repete nos títulos seguintes, sendo Kalos inspirada na França e Alola no Havaí. Em Pokémon Sword/Shield isso não é diferente. Na próxima jornada os jogadores vão se aventurar por Galar, uma região baseada no Reino Unido, onde as paisagens idílicas e industriais se misturam.

Assim como os continentes anteriores, Galar apresenta características arquitetônicas similares com o lugar no qual se baseia. Tanto no mapa quanto nos trailers apresentados é possível notar pontos turísticos da Inglaterra, como o Big Ben, Olho de Londres e os edifícios da Universidade de Oxford. Além disso, com base no material anunciado, é possível construir uma série de analogias que a região de Galar tem com o Reino Unido, desde lendas que percorrem o imaginário britânico a temáticas presentes atualmente na sociedade inglesa.

Zacian e Zamazenta - a extinção dos lobos no Reino Unido

Com o anúncio dos jogos Pokémon Sword/Shield, a principal informação divulgada foi a dos lendários mascotes de cada versão, Zacian (Sword) e Zamazenta (Shield).  Caracterizados por carregar uma espada com a boca e um escudo no peito, os dois são Pokémon lobos que representam a nobreza de Galar.



É interessante que os Pokémon escolhidos para representarem os lendários da região sejam lobos, pois esse animal foi extinto no Reino Unido no século XVII. Por volta do ano 1000 d.C., os lobos passaram a ser considerados extremamente perigosos para as pessoas e para os rebanhos. A caça ao animal se tornou uma prática comum entre os servos dos reis para prestar homenagem ao monarca, podendo receber as terras onde os lobos foram mortos. A situação se agravou ainda mais quando o Rei Edward I ordenou, em 1281, o extermínio de toda a alcateia na Inglaterra. No final da Idade Média se tornou muito raro encontrar qualquer lobo no país, sendo extinto no século XV. No entanto, eles sobreviveram por mais dois séculos na Escócia e acredita-se que o último lobo escocês foi morto por Sir Ewen Cameron em 1680.

Galarian Ponyta – o mito do unicórnio

Exclusivo de Pokémon Shield, o galarian Ponyta deixa as labaredas características da espécie descoberta anteriormente por uma pelagem em tons de pastel, que representa o seu tipo psíquico. No entanto, o principal elemento que torna o Galarian Ponyta único é o chifre em sua testa, tornando-se um ser mítico e cultuado pela humanidade há milhares de anos, o unicórnio.

No site oficial da Pokémon Company é possível conhecer os Pokémon anunciados com um pouco mais de profundidade e segundo o que foi divulgado: “O Ponyta galariano foi encontrado em uma certa floresta da região de Galar desde os tempos antigos. Dizem que eles foram expostos à energia vital transbordante da floresta por muitas gerações, e é por isso que sua aparência se tornou única nessa região.”

O mito do unicórnio foi descrito pela primeira vez há mais de dois mil anos pelo médico grego Ctésias. Segundo ele, o animal seria como um asno selvagem com um chifre em forma de espiral saindo de sua testa, tendo como habitat natural a Índia. Por outro lado, a simbologia que esse ser representa até os dias de hoje é originada do folclore celta, em que os unicórnios são sinônimos de pureza, harmonia e poder. De acordo com a lenda, nenhum homem poderia capturá-los, a não ser pelas mulheres virgens cuja castidade se igualava ao do animal, que adormecia em seu colo. O folclore ainda diz que o chifre do unicórnio tem poderes curativos, assim como a capacidade de purificar as águas contaminadas.

Além da mitologia, a mística do unicórnio é apresentada em diversos produtos da cultura popular. Uma das presenças mais marcantes se encontra no livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, escrito por J.K.Rowling. Na história, o animal é descrito com uma pele de tom branco puro, tão brilhante que faz a neve recém-caída parecer cinzenta. Além disso, os unicórnios criados pela escritora possuem um sangue mágico que mantém viva uma pessoa à beira da morte.



Na Escócia a fantasia e realidade se misturam com a enorme importância que o unicórnio tem para o país, sendo considerado animal símbolo dos escoceses. A importância do ser mítico surge no século XV quando o Rei Jaime II busca relacionar a pureza do animal com a da nobreza da época. Com o passar dos anos, a imagem do unicórnio se tornou tão comum ao povo escocês que sua imagem está presente no Brasão Real, em gravuras, selos, moedas e tapeçarias. No entanto, em 1603 houve a chamada União das Coroas em que o Rei Jaime VI da Escócia se tornou soberano da Inglaterra e da Irlanda. Apesar do monarca não ter criado o reino da Grã-Bretanha – que só viria a acontecer com o Tratado de União de 1707 – houve uma fusão dos brasões da Escócia e Inglaterra, com um unicórnio na esquerda e um leão na direita. Uma referência interessante da combinação desses dois animais foi representada por Lewis Carroll no livro Alice Através do Espelho, onde o autor trouxe uma rivalidade entre os dois, indicando o conflito político que existe até hoje na Escócia e na Inglaterra.  



Sirfetch’d – os títulos de nobreza britânicos

Em contrapartida ao Galarian Ponyta, o Sirfetch’d é um Pokémon exclusivo da versão Sword. Ao evoluir, Farfetch’d deixa os tipos normal e voador para trás para se tornar um Pokémon lutador, caracterizado por empunhar uma longa espada, feita do seu antigo alho-poró, e um escudo. Além disso, Sirfetch’d ganha uma coloração branca com uma expressão mais confiante se comparada com a pré-evolução.

De acordo com o site da Pokémon Company, Sirfetch’d faz jus ao seu nome ao ser revelado como um Pokémon marcado por uma honra incorruptível: “O Farfetch'd da região de Galar pode evoluir para Sirfetch'd depois de muitas batalhas. Eles são calmos e tranquilos, e fazem questão de sempre lutar de forma justa. Eles são tão nobres na batalha que muitas vezes são escolhidos como motivo para as pinturas. É digno de nota uma pintura - famosa na região de Galar - que descreve um duelo entre um Sirfetch'd e um Escavalier.”



Um dos elementos mais interessantes no conceito trazido por Sirfetch’d é o título de Sir que está presente em seu nome que, por sua vez, é utilizado em diversos países europeus. Em Pokémon X/Y (jogos baseados na França) tivemos contato com as formas de nobreza no Battle Chateau, onde os jogadores devem derrotar uma série de treinadores para ascender na realeza (infelizmente na vida real não é tão simples assim). Com base nas condecorações do Reino Unido, existem seis títulos que uma pessoa pode alcançar: Sir/Dama, Barão/Baronesa, Visconde/Viscondessa, Conde/Condessa, Marquês/Marquesa e Duque/Duquesa. O título de nobreza mais raso é Sir/Dama que foi criado em 1917 pelo Rei George V com o objetivo de honrar civis que atingiram feitos extraordinários durante a guerra. Hoje, qualquer cidadão britânico que realize algo formidável em nome do Reino Unido pode obter esse grau de honraria.  Nomes populares alcançaram essa condecoração, se tornando membros da Ordem do Império Britânico como, por exemplo, Sir Paul McCartney e Miss Adele Adkins. (Qual terá sido o grande feito de Sirfetch’d para alcançar esse título?).


No Reino Unido, até hoje as condecorações superiores a Sir e Dama só podem ser obtidas por homens, sendo as mulheres reconhecidas apenas através do casamento. Em seguida temos Barão/Baronesa, termo que existe desde o período feudal para designar pessoas que juravam lealdade ao rei em troca de terras para poder governar e passar para os seus herdeiros.  Acima dos barões está Visconde/Viscondessa. Também conhecido como vice-conde, eles desempenham a função de substituto do seu superior quando este não pode exercer suas funções. O Conde/Condessa é, por sua vez, uma palavra latina que significa “aquele que acompanha”, pois moram com o monarca auxiliando nos assuntos pessoais e do cotidiano. O segundo maior grau de nobreza é Marquês/Marquesa, concedido a homens de total confiança do rei que recebiam terras não pacificadas para governar. Lá, o Marquês tinha o poder para comandar o território como bem entendesse. Por fim está Duque/Duquesa, o título mais alto da nobreza, abaixo apenas do rei. Um Duque era um comandante militar ou parente do monarca que recebia as maiores extensões de terra para governar.

Os ginásios de Galar – a origem do futebol moderno

Após a ausência dos ginásios em Pokémon Sun/Moon, eles retornam para a região de Galar com um design diferente do modelo tradicional visto nos jogos anteriores. Em Pokémon Sword/Shield, as arenas de batalha vão contar com arquibancadas lotadas de pessoas torcendo, holofotes e um extenso gramado característico dos estádios de futebol. Faz sentido que a série Pokémon tenha escolhido esses jogos para relacionar esse esporte com os ginásios, pois a Inglaterra foi o berço do futebol moderno.



Os jogos com bola existem há séculos em diferentes sociedades ao redor do mundo (Grécia, Roma, China), mas o formato como conhecemos hoje veio da Inglaterra. Nos primeiros modelos de futebol inglês o jogo só tinha uma regra: levar a bola (feita da bexiga de um animal revestida em couro) até o objetivo (goal). Mas o esporte mais praticado do mundo se tornou o que conhecemos hoje somente na segunda metade do século XIX. Tudo começou quando os professores das escolas inglesas decidiram encontrar uma maneira de canalizar a violência de seus alunos para algo mais saudável do que destruir pubs e pôr fogo nas salas de aula.



A atividade física mais praticada pelos jovens da época era o futebol, no entanto, ainda não havia um regulamento para conter a agressividade dos estudantes. Então, aos poucos foram surgindo as primeiras regras do esporte, que variavam de uma instituição para outra. Na escola de Rugby era permitido chutar a canela do adversário e segurar a bola com a mão – que derivou outro esporte, o Rúgbi. Já na escola de Cambridge só era permitido jogar com os pés. Foi somente em 8 de dezembro de 1863 que o futebol ganhou uma padronização das regras, com a criação da Football Association. A partir do novo regulamento, foram criadas as traves do gol, assim como a proibição de carregar a bola com as mãos e chutar os adversários durante a partida.

Team Yell – o hooliganismo na Inglaterra

A equipe antagonista dos jogos Pokémon Sword/Shield é a Team Yell, um grupo de pessoas, aparentemente adeptos do movimento punk, que só tem um objetivo: fazer com que a treinadora Marnie (uma das rivais do protagonista na aventura) se torne campeã da região de Galar. Para fazer com que isso aconteça, eles vão fazer de tudo para impedir que os jogadores avancem na jornada, causando confusão nas entradas dos ginásios e transportes. Apesar da Team Yell fazer uma alusão evidente ao movimento punk, que se popularizou na Grã-Bretanha nos anos 70, a equipe antagonista está relacionada, principalmente, com os hooligans da Inglaterra.


Apesar de não se saber ao certo a origem da palavra hooligan, acredita-se que se deve graças ao sobrenome de uma família irlandesa fictícia, famosa no teatro popular da década de 1890 por sua personalidade violenta. Com o tempo, o termo hooligan passou a ser usado para caracterizar qualquer pessoa, ou grupo de pessoas, que agem de forma agressiva em lugares públicos.

Hoje em dia o hooliganismo é quase que sinônimo do futebol inglês e isso vem desde a década de 1950. Durante os jogos, o público mais jovem se localizava nos chamados ends (parte de trás do gol) para torcer, pois eram lugares mais baratos e perto o suficiente do estádio. Lá eles torciam de maneira fanática, usando músicas populares para provocar os jogadores e torcedores adversários. 

Durante as décadas de 1970 e 1980 essa “rivalidade” se tornou bem mais agressiva, com xingamentos e invasões ao campo. A situação se agravou, pois, a mídia britânica retratou os conflitos como algo bem mais perigoso do que realmente era, e isso acabou atraindo ainda mais os jovens para os estádios. Eles, no entanto, não iam aos jogos para torcer, mas para participar da violência que ocorria nas arquibancadas, porque a principal “brincadeira” era humilhar ao máximo o adversário. Apesar de existirem leis que proíbam qualquer conflito entre torcedores, o hooliganismo ainda é um problema social que persiste na Inglaterra.


Revisão: Vinícius Fernandes
Fontes: Pokémon.com, Polygon, Encyclopedia Britannica, BBC, Wolves, A Rainha de Chuteiras - Um Ano de Futebol na Inglaterra 

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