Retrospectiva Nintendo: os altos e baixos da empresa na última década - Parte 1 (2010-2014)

Relembre os últimos daz anos da Big N nessa primeira parte da nossa retrospectiva.



Com o fim de 2019 e início de 2020, a chamada “passagem da década” atraiu certa controvérsia a respeito de sua verdadeira definição, visto que há aqueles que defendem que ela teve início em 2010 e encerrou-se agora nesse ano que se passou, enquanto outros defendem que seu marco inicial foi 2011 e só agora em 2020 que ela irá terminar.


Independentemente dessa discussão, os últimos dez anos foram cheios de altos e baixos para a Nintendo. Com os novos consoles das outras empresas já pedindo passagem e o mercado de games prestes a mudar mais uma vez, vamos, então, passar essa última década da empresa a limpo como uma forma de arrumar a casa para o futuro.

2010 

O primeiro ano da década foi responsável por anunciar ao mundo o sucessor do que foi um dos mais bem-sucedidos consoles da história e que revolucionou todo o mercado portátil de games. Substituindo o Nintendo DS, o Nintendo 3DS foi revelado oficialmente através de um discreto press release em março e trazia não apenas especificações que o tornava potente o suficiente para não ser considerado uma mera revisão de console, como era o caso Nintendo DSi XL (lançado nas Américas naquele mesmo mês do anúncio, inclusive), mas também o gimmick de reproduzir os jogos na tela superior com um efeito tridimensional que rodava sem óculos especiais.

Apesar de o impacto inicial da novidade ter se defasado ao longo do tempo, essa característica singular não tinha melhor timing para ser implementada nos videogames, dado o fato de que a repercussão avassaladora do filme Avatar, lançado no final de 2009 e, portanto, poucos meses antes do anúncio do 3DS, foi justamente por ser um dos principais filmes a utilizar o recurso 3D nos cinemas. 

O console só foi revelado em sua integridade durante a E3 2010, ao lado de vários jogos que integrariam sua encorpada line up nos primeiros anos de lançamento e serviam de exemplo de seu poderio, como Resident Evil Revelations, Super Street Fighter IV: 3D Edition, o remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time 3D, Star Fox 64 3D e Kid Icarus Uprising.



Enquanto o 3DS era uma promessa apenas para o ano seguinte, o Nintendo DS gozava de seu último ano como portátil dominante. Dentre seus principais títulos de destaque estavam algumas pérolas como Final Fantasy: The 4 Heroes of Light, Super Scribblenauts e Rune Factory 3. Nós também pudemos presenciar o lançamento ocidental de Pokémon HeartGold & SoulSilver no começo do ano, em março (aparentemente, foi um mês bem movimentado) enquanto os japoneses já colocavam as mãos em Pokémon Black & White em setembro. 

O Wii, console de mesa vigente da empresa, já apresentava alguns sinais de desgaste e estava perdendo o fôlego nas vendas. Ainda assim, recebeu uma quantidade considerável de games interessantes, como Sonic & Sega All-Star Racing, a versão ocidental de Tatsunoko Vs. Capcom: Ultimate All-Stars, No More Heroes 2: Desperate Struggle, Red Steel 2, Monster Hunter Tri, Donkey Kong Country Returns, Kirby Epic Yarn e o remake 007: Goldeneye
No Brasil: a Gaming do Brasil fazia a representação comercial da Nintendo e nos colocava dentro da rota internacional da empresa, por assim dizer. Assim, além de lançamentos oficiais (quase) simultâneos com os Estados Unidos, recebíamos alguns outros mimos, como foi a distribuição do Pokémon Jirachi em lojas selecionadas da rede Saraiva de São Paulo e do Rio de Janeiro. 

2011

O 3DS chega às lojas em fevereiro no Japão. Nos EUA, ele desembarca um mês depois, em março, pela quantia de U$ 249,99. Por conta desse valor considerado elevado, as vendas ficaram aquém do esperado e a Nintendo promoveu um corte de preço para U$ 169,99. Como uma forma de compensar aqueles que já tinham adquirido o aparelho pelo preço completo, ela instituiu o chamado Ambassador Program, que permitia que o proprietário baixasse, sem qualquer custo, dez de títulos de NES (que chegaram a ser disponibilizados oficialmente na loja oficial do aparelho), e dez de GBA (que nunca viram a luz do dia além daqui).



Além de alguns dos games já anunciados no ano anterior, como Ocarina of Time 3D, outros títulos de destaque que deram as caras no 3DS foram Tetris Axis, Sonic Generations, Mario Kart 7 e Super Mario 3D Land. Foi nessa então nova plataforma que também ocorreu o lançamento da Nintendo eShop, em junho. A loja virtual era o primeiro passo de um modelo online que seria implementado com maior propriedade nos anos seguintes.

Nesse meio tempo, a decadência do Wii se deu muito rápido. Apesar do sucesso meteórico e incontestável do aparelho, era notável que, em termos de indústria, ele acabava sendo prejudicado por conta de seu hardware limitado, o que levava as empresas a encará-lo como um videogame paralelo ao Xbox 360 e ao PlayStation 3. Sem os títulos mais badalados do momento, o próprio consumidor passava a estigmatizar o sensor de movimento. Foi quando começaram a circular boatos de um tal de Project Cafe, bem como a confirmação da própria Nintendo de que um sucessor seria lançado em 2012 e seria apresentado formalmente na E3 2011.

Pois bem. Chegada a apresentação no evento, o Wii U introduziu seu conceito de controle-tablet em uma experiência mais personalizada e alegadamente hardcore. Nenhum game da própria Nintendo chegou a ser anunciado com ele, embora uma tech demo inspirada em The Legend of Zelda: Twilight Princess (Wii/GC), disponível para ser jogada no evento, tenha feito sucesso. Além disso, naquele momento, uma quantidade considerável de thirds declararam seu apoio ao aparelho, cujo lançamento ocorreu no ano seguinte.



Enquanto o Wii não era substituído, ele recebeu alguns games que serviram para segurar as pontas, como Lost in Shadow, Conduit 2, Mario Sports Mix, Kirby's Return to Dream Land, Rayman Origins, e o aguardadíssimo The Legend of Zelda: Skyward Sword, cujo ciclo de desenvolvimento era para ter sido de três anos, em vez dos cinco que exigiu.

Ao menos, o jogo chegou a tempo de comemorar com muita pompa os vinte e cinco anos da franquia, sendo lançado bem próximo à enciclopédia Hyrule Historia, que, dentre várias informações, finalmente colocou um ponto final — por algum tempo — em toda a especulação dos fãs a respeito da cronologia do universo da IP.



O Nintendo DS também recebeu alguma atenção em 2011. Foi quando o ocidente teve o seu primeiro contato com uma versão oficial de Dragon Quest VI, através de seu remake para o console em questão. A quinta geração de Pokémon acabou chegando a esse lado do globo no final da vida útil do aparelho, com a Black/White. Okamiden, a discreta sequência do sucesso Okami (Wii/PS2), também marcou presença no DS.

Por fim, não vamos nos esquecer que foi em 2011 que nasceu o formato “Nintendo Direct”, quando a empresa passou a fazer seus anúncios diretamente para o seu público, o que virtualmente matou o conceito de furo jornalístico para a imprensa de games (ao menos se tratando da Nintendo) e revolucionando a comunicação entre consumidor e empresa.
No Brasil: a representação da Nintendo continuou. Dessa vez, além de lançamentos oficiais, houve também a distribuição do Pokémon Celebi nos mesmos moldes daquela que aconteceu em 2010 com o Jirachi.

2012

É o ano em que o Wii U finalmente chega até nós, mas não antes do Wii dar o seu canto do cisne com o sucesso da Operation Rainfall, que consistia em uma campanha surgida em 2011 com o objetivo de mobilizar a comunidade e convencer as empresas a trazer três RPGs distintos que até então estavam exclusivos ao Japão. Dessa forma, em 2012 houve o lançamento de Xenoblade Chronicles e o de The Last Story. O console também recebeu Mario Party 9, PokéPark 2: Wonders Beyond e o relançamento de Pikmin 2, com um novo esquema de controle adaptado ao sensor de movimento.



O Nintendo DS também conseguiu dar o seu último suspiro. Isso se deve por conta do anúncio e lançamento de Pokémon Black & White 2. Notoriamente, o jogo não vendeu tanto. Uma das principais causas foi provavelmente porque o Nintendo 3DS já estava no mercado, fazendo com que os jogadores não dessem mais tanta atenção ao seu antecessor e já estivessem na expectativa de um game da série para o novo aparelho.

Falando no 3DS, a safra continuava bem positiva com a primeira leva de anúncios ainda chegando ao mercado, como é o caso de Resident Evil: Revelations, Metal Gear Solid: Snake Eater 3D, Kid Icarus: Uprising e Kingdom Hearts 3D: Dream Drop Distance. Outros jogos de destaque foram New Super Mario Bros. 2, Cave Story, Paper Mario: Sticker Star e Epic Mickey: Power of Illusion, além dos lançamentos orientais de Fire Emblem: Awakening e Animal Crossing: New Leaf. Foi em 2012 também que o Nintendo 3DS XL chegou ao mercado. 

Sendo o principal foco da apresentação da Nintendo na E3 2012, o Wii U finalmente chegou ao mercado no final do ano e em dois modelos: o branco, com apenas 8 GB de armazenamento, e o preto, deluxe, com 32 GB. A lineup de lançamento era bem sólida, com a presença de títulos thirds que o Wii original jamais teria a oportunidade (e capacidade) de rodar, como Assassin’s Creed III e Darksiders II. Alguns vieram em edições especiais exclusivas, como foi o caso de Batman: Arkham City Armored Edition e Mass Effect 3: Special Edition

Os fãs também provavelmente vão se lembrar que foi em 2012 que houve a confirmação de que Bayonetta 2 seria exclusivo para o aparelho, causando revolta dos fãs que queriam o jogo nos consoles da concorrência. 

Naquele ano também aconteceu a implementação do Nintendo Network, serviço que colocava sob uma única marca os recursos de rede tanto do 3DS quanto do Wii U. Com ele, veio o Miiverse, que agia como uma espécie de rede social própria dos usuários dos consoles da Nintendo cujas funções chegaram, inclusive, a ser incorporadas dentro de alguns títulos.

2013

O último jogo pendente da Operation Rainfall, Pandora’s Tower, chega ao Wii a tempo de ver o aparelho ser oficialmente descontinuado. Apesar disso, uma versão revisada e limitada chamada Wii Mini, lançada anteriormente apenas no Canadá, chegou aos EUA naquele ano. Com a morte do Wii, foi-se também o suporte ao WiiConnect 24, o sistema online do aparelho que trazia informações atualizadas para canais como o Forecast Channel, o News Channel, o Everybody Votes Channel, o Check Mii Out Channel e o Nintendo Channel.



No fim, esse fenômeno que rapidamente conquistou o mundo e acabou sendo responsável, para o bem e para o mal, a universalizar o conceito de “games casuais”, chegou a vender pouco mais de cem milhões de unidades, tornando-o, à época, o quinto console mais vendido da história — hoje é o sexto, ultrapassado recentemente pelo PlayStation 4.

O Nintendo DS original seguiu pelo mesmo caminho ao ter sua produção cessada. Ao final de sua vida, ele se tornou o segundo aparelho de videogame mais vendido de todos os tempos, com cento e cinquenta e quatro milhões de unidades, ficando atrás, por muito pouco, do PlayStation 2. 

Em termos de jogos, o 3DS começava a brilhar. Fire Emblem Awakening chegava ao ocidente e, ao contrário das tentativas anteriores de tentar emplacar um jogo da série deste lado do globo, foi um estrondoso sucesso de vendas e ajudou a consolidar o 3DS como plataforma, além de garantir a longevidade da série que estava em vias de ser descontinuada. A mesma recepção positiva surpresa se deu com o lançamento ocidental de Animal Crossing: New Leaf.



Outros jogos também se destacaram no portátil, como a pérola Project X Zone (um RPG tático que fazia um crossover entre as séries da Bandai Namco, Capcom e Sega), Shin Megami Tensei IV, Mario & Luigi: Dream Team e Phoenix Wright: Ace Attorney — Dual Destinies. Entretanto, os holofotes se voltaram, com toda certeza, para Pokémon X/Y, que, em detrimento do poderio gráfico e do gimmick central do console, abandonou de vez a estética dos sprites para dar espaço a modelos tridimensionais (que são usados até hoje). 

O aparelho portátil ainda não ficou apenas nisso. Em 2013 o Nintendo 2DS chegou ao mercado, uma vez que, naquela altura do campeonato, percebeu-se que o efeito 3D, no fim das contas, nunca foi um atrativo tão forte assim para o público.


O Wii U ainda recebia bastante material third party, como Fist of the North Star: Ken's Rage 2, Batman: Arkham Origins, Lego City Undercover, Injustice: Gods Among Us, Assassin’s Creed IV: Black Flag e Deus Ex: Human Revolution – Director’s Cut. Da própria Nintendo, o Wii U deu luz a Pikmin 3, The Wonderful 101, Wii Party U e o aclamado Super Mario 3D World.

Lembrando também que em 2013 foi comemorado o Ano do Luigi, com a empresa celebrando o personagem ao colocá-lo para estrelar uma série de jogos próprios, como Luigi’s Mansion: Dark Moon, no 3DS, e New Super Luigi U, no Wii U. A série Zelda também chegou marcando presença com os lançamentos do remake The Legend of Zelda: The Wind Waker HD, para o console, e da sequência direta de A Link to the Past (SNES), A Link Between the Worlds, para o portátil. 



Em tempo: foi na E3 2013 que a Nintendo decidiu, pela primeira vez, não promover uma conferência local, substituindo-a por um Nintendo Direct especial durante o período da feira. Os principais anúncios daquele ano foram Mario Kart 8, o tipo Fairy em Pokémon X/Y, Donkey Kong Country: Tropical Freeze e Super Smash Bros. for Wii U/3DS
No Brasil: O Wii U foi oficialmente lançado no país em um evento chamado Nintendo Showcase, que inclusive teve a presença ilustre de Charles Martinet, o dublador do Mario. Mais uma vez, houve distribuição local de Pokémon através do Mystery Gift. 

2014

2014 foi o primeiro dos anos mais complicados para o Wii U. Apesar de uma gama de lançamentos de respeito, como Donkey Kong Country: Tropical Freeze, Mario Kart 8, Hyrule Warriors, Captain Toad: Treasure Tracker e o aguardado Bayonetta 2, os novos PlayStation e Xbox estavam batendo na porta. Como eram consoles muito mais potentes e os novos games tinham seu desenvolvimento focado nessas novas plataformas, tornava-se muito mais complicado fazer o port para o aparelho da Nintendo, o que acabou escanteando-o para segundo plano.



O Super Smash Bros. for Wii U/3DS também veio em 2014 e em dose dupla, gerando alguma controvérsia. Isso se deve pelo fato de a versão do 3DS ter sido lançada meses antes da de Wii U. A questão é que essa distância entre as duas acabou prejudicando ambas as edições e tirando o impacto combinado que ambas poderiam causar. A de 3DS chegou ao mercado e, no gameplay prático prática, era obviamente inferior, além dos controles no portátil terem ficado bem aquém do que deveriam por conta da própria empunhadura do aparelho. No Wii U ele poderia ter sido um system seller, fazendo o console segurar um pouco mais as pontas naquele momento de crise — só que a existência de uma versão mais econômica e para um console que todo mundo tinha acabava tirando toda a atenção que essa mais encorpada poderia receber. 

Apesar do Smash, o 3DS já estava mais seguro em sua zona de conforto. Para ele foram lançados Bravely Default, Yoshi’s Island, Mario Golf: World Tour e os aguardados remakes Pokémon Omega Ruby/Alpha Sapphire, além de alguns outros thirds de menor expressão.



Em relação a serviços, foi em 2014 que se encerrou o Nintendo Wi-Fi Connection, sistema de rede que permitia o uso dos recursos online dos jogos de Wii e do Nintendo DS. Com ele, se foi também um dos últimos canais do Wii ainda em operação, o Mario Kart Wii Channel. Em contrapartida, o começo do ano presenciou a aguardada chegada do Pokémon Bank, serviço responsável por armazenar os monstrinhos em nuvem e facilitar a transferência deles entre os jogos da franquia. 

Na prática, é seguro afirmar que o ponto mais alto da Nintendo naquele ano foi sua apresentação da E3. Primeiramente por conta do formato, que decidiu ousar ao utilizar esquetes da popular animação Frango Robô. Em seguida, o trailer de Smash que anunciava os Miis como lutadores era incrível e nos propiciou uma encenação de combate em live action entre Iwata e Reggie.
Por fim, foi quando os Amiibos foram anunciados, claramente inspirados pelo sucesso de Disney Infinity e Skylanders. Chegando ao mercado, essas figures logo se tornaram um sucesso de vendas avassalador e um dos principais pilares da Nintendo para os anos seguintes.

De quebra, também foi divulgado primeiro trailer de The Legend of Zelda: Breath of the Wild, naquele momento ainda sem o subtítulo e produzido apenas para o Wii U, com lançamento previsto originalmente para 2015.



Na próxima parte da nossa retrospectiva, nós vamos passar a limpo os acontecimentos importantes para a Nintendo entre os anos de 2015 e 2019, como o lançamento do Switch e o falecimento do Iwata. Até lá! 

Revisão: André Carvalho

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Gosta de usar conceitos acadêmicos para discutir sobre videogame. Se você gosta das groselhas que escreve, pode ler mais um pouco das suas asneiras em seu blog particular (http://www.hornypony.wordpress.com).

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