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Análise: Dead or School (Multi) parece de mau gosto, mas é um raio luz nesses tempos difíceis

Indie do estúdio Nanafushi ainda exibe certas deficiências técnicas que o fazem se assemelhar a um jogo de Nintendo 64, mas 20 anos atrasado.


Em tempos tão obscuros quanto aos que passamos atualmente, o lançamento de narrativas que ilustram uma eventual ruína da sociedade fomentada por um vírus pode parecer algo insensível e de extremo mau gosto — até que olhamos para um passado bem próximo e lembramos que essa prática era extremamente recorrente e inofensiva. Dead or School (Multi), por sua vez, é apenas uma vítima no meio desse dilema (mesmo ele tendo sido lançado originalmente em setembro de 2019, antes de todo esse caos).


O indie desenvolvido pelo Studio Nanafushi é um pseudometroidvania em que a sociedade viu nos túneis do metrô o último refúgio contra a invasão dos zumbis mutantes que dominaram a superfície há setenta anos. Hisako nasceu e cresceu nesses abrigos subterrâneos e, certo dia, ela descobre a existência de um conceito chamado “escola”, um local onde os jovens se reuniam para aprender sobre a vida e fazer amizades.



Sua avó, que ainda guarda algumas poucas lembranças dos tempos pré-apocalípticos, decide dar à protagonista seu próprio uniforme escolar, que sobreviveu ao tempo, como uma forma de manter a esperança da garota viva. A menina decide ir além ao desbravar os túneis subterrâneos até a superfície, onde pretende estabelecer novamente o conceito de instituição educacional em sua própria utopia. A história se passa no mesmo universo de um doujin chamado Machine Doll Nanami-Chan, que entrou em hiato porque o autor, Mokuseizaiju, decidiu se concentrar na produção do jogo.

As primeiras impressões a respeito de Dead or School são péssimas. Tudo nele é extremamente datado, sendo que a narrativa galhofa e o fanservice de mau gosto não ajudam nem um pouco nesse primeiro baque. Quando finalmente assumimos o controle da heroína, a jogabilidade também se mostra dura, travada. Naquele momento, qualquer perspectiva já tinha ido bem rápido para o ralo.



Apesar disso, continuamos nos aventurando pelos mapas escuros e poligonais situados no metrô de Tóquio. Contra os inimigos espalhados pelos cenários, há três arquétipos de armas disponíveis: espada, fuzil e bazuca. As três podem ser utilizadas de forma alternada, a fim de encontrar a melhor estratégia para derrotar, com suas respectivas técnicas especiais, as diversas espécies de mutante. Aliás, há a possibilidade de aprimorá-las ou até substituí-las por exemplares melhores de cada tipo de equipamento.

Com o tempo, o sistema de jogo se revela como uma aplicação prática de uma jogabilidade com desenvolvimento progressivo. É um desses títulos quase injogáveis em seus primeiros momentos, mas cujo gameplay logo vai se aperfeiçoando de acordo com a evolução da personagem, que aqui pode subir de nível e ir adquirindo técnicas diferentes em três árvores de habilidades distintas. Ou seja, um sistema aparentemente falho em sua introdução que vai, aos poucos, se mostrando cada vez mais complexo e elaborado, além de continuar a exigir a capacidade técnica do jogador para ser dominado.

Independentemente, Dead or School continua sendo visualmente ultrapassado, com modelagem 3D poligonal e identidade visual que nos remete ao auge do Nintendo 64. Só que, da mesma maneira que conseguimos, até hoje, fazer vista grossa para os clássicos do console, também é possível se acostumar a todos os aspectos técnicos deficitários desse indie. A forma como passamos pelos corredores, saltamos pelas plataformas e derrotamos os inimigos evoca, principalmente aos veteranos do estilo, um verdadeiro Castlevania antigo, com similares prós e contras recorrentes da popular franquia da Konami.

Lembra-se daquela impressão negativa do início? Pois bem, ela foi embora antes mesmo de terminarmos o primeiro mapa, referente à estação de Shinjuku, para dar lugar a um gostoso e imersivo platformer com combates corpo a corpo e mecânicas de shooter twin-stick. Quando nos damos conta, estamos salvando sobreviventes, atirando nos zumbis, resolvendo alguns quebra-cabeças e coletando colecionáveis enquanto vamos descobrindo cada vez mais sobre aquele mundo pós-apocalíptico. A questão é que ele não é isento de alguns defeitos recorrentes de um metroidvania, como o backtracking e a necessidade de grinding contra os inimigos (que ressurgem no mapa) no intuito de conseguirmos enfrentar alguns dos chefes mais poderosos.



Dead or School é uma epítome de um jogo independente. Ele tem sérios problemas técnicos decorrentes de falta de verba ou incapacidade prática dos próprios desenvolvedores, embora seja perceptível, sem romantizar, que vontade e dedicação não faltaram aqui. Claro, diversos aspectos carecem de polimento, só que é possível relevar várias dessas falhas ao considerarmos o contexto de sua produção, que chegou a passar por dois financiamentos coletivos fracassados, mas que, ainda assim, conseguiu sair do papel. Condenável seria se um AAA apresentasse esses defeitos (algo mais comum do que parece, inclusive).

A verdade é que a aventura protagonizada por Hisako teria se tornado referência caso tivesse sido lançada há uns vinte anos. Infelizmente, esse não é o caso: as imperfeições técnicas às quais normalmente teríamos feito vista grossa por conta de uma inferior capacidade de hardware acabam sendo evidenciadas aqui por se tratar de um produto recente e que poderia ter se beneficiado do potencial das plataformas modernas.



Entretanto, tal como vários games daquela época ainda são revisitáveis nos dias de hoje, Dead or School consegue segurar o jogador com uma espécie bizarra de nostalgia não-intencional justamente por suas deficiências procedimentais. Ademais, há uma ironia dramática a se levar em conta: a ingênua heroína se apegar a uma ideia tão superficial, como ir à escola em tempos tão sombrios e sem esperança, seria considerado incrivelmente fútil, isto é, caso estivéssemos em uma situação menos calamitosa da nossa realidade.

Prós:

  • Jogabilidade que vai se desenvolvendo com a progressão da campanha;
  • Design de fases exemplar e que faz jus a um metroidvania;
  • Sistema de combate imersivo potencializado por uma árvore de habilidades de qualidade.

Contras:

  • Visual datado, digno do Nintendo 64;
  • Queda da taxa de quadros em determinadas situações;
  • Carece de polimento.
Dead or School — Switch/PS4 — Nota: 7.5 
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Felipe Fina Franco

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Gosta de usar conceitos acadêmicos para discutir sobre videogame. Se você gosta das groselhas que escreve, pode ler mais um pouco das suas asneiras em seu blog particular.


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