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Análise: Relic Hunters Zero: Remix (Switch) é um divertido twin-stick shooter que falha ao agregar conteúdo

O twin-stick shooter foi produzido pelo estúdio brasileiro Akupara Games e agora chega ao Switch em sua versão Remix.

em 18/05/2020
No oceano de títulos indie lançados para Nintendo Switch, encontramos um mar daqueles que se classificam como twin-stick shooters. Alguns, porém, se destacam entre os demais, seja por seu estilo artístico diferenciado, sucesso em outras plataformas ou diferentes abordagens no gênero já tão desgastado.


Relic Hunters Zero: Remix é um deles. Desenvolvido pelo estúdio brasileiro Rogue Snail, este jogo traz alguns adicionais à versão free-to-play lançada originalmente para PC, Relic Hunters Zero. Apesar de herdar muito do que o fez um excelente título em seu lançamento original, essa versão Remix falhou em adaptar a experiência open-source para os consoles em aspectos como novas funcionalidades e adaptação dos controles.

Escavar em busca das relíquias

Caçadores de relíquias, todos a postos! Se você aguardava que mais um título carismático e cheio de novidades recebesse um port do PC para o Switch, chegou a sua hora. Relic Hunters Zero: Remix é mais uma das versões deluxe de jogos lançados anteriormente e traz alguns conceitos diferentes a um gênero já tão saturado.

Eliminar o conde Ducan é o objetivo dos protagonistas deste título.
O jogo brasileiro te faz atirar sem parar nos capangas do conde Ducan, um maligno pato gigante que está atrás de poderosas relíquias no asteroide Nemesis para adquirir o poder que elas podem fornecer. Seu papel é encontrar as peças preciosas e derrotar a malvada ave de tamanho desproporcional antes que tudo vá pelos ares.

Para isso, a mecânica é simples: um direcional analógico guia o personagem e o outro indica a direção de seu tiro: um twin-stick shooter. Diferentemente de muitos jogos conhecidos do gênero, aqui não há nada de bullet hell. Você poderá calcular suas ações e utilizar as coberturas que o cenário oferece para recarregar seus escudos, além de gerenciar os recursos disponíveis pela fase.

Mova-se com o analógico esquerdo e atire com o analógico direito.
Diferindo de outros grandes lançamentos do gênero, como Enter the Gungeon (Switch), este não limita o jogador a pequenas salas que abrem suas portas ao derrotar os monstros, pois o progresso é dividido em fases. Cada uma delas pode ser inteiramente explorada desde o início, estando repleta de recursos (armas, vida e escudo) que você pode não precisar de imediato. Por isso o uso da estratégia, medindo a sua capacidade de gerenciar a necessidade de cada recurso ao longo do progresso das fases. A munição, por exemplo, é escassa e fará você ponderar a necessidade de cada tiro.

Por falar em progresso, aí está mais um diferencial de Relic Hunters Zero: Remix: não há geração procedural dos cenários no modo história, o qual considero o principal da aventura. São grupos de três fases cada, intercalados por uma visita à loja, onde você pode comprar itens com suas estrelas — coletadas ao enfrentar os inimigos — ou melhorar sua arma no modo infinito com as engrenagens — obtidas ao reciclar aquelas que ficaram espalhadas pelo mapa.

Nada melhor que acabar com a raça do conde Ducan com uma bela pistola de plasma.
O jogo conta com alguns adicionais, como o modo infinito, o qual dá um upgrade nas doze fases finitas do modo história. Sem ele, posso considerar que a aventura tradicional seria curta demais para um título de Nintendo Switch, já que o boost dado ao coletar as três partes de cada relíquia vai tornando a aventura cada vez mais fácil, até o ponto dela ser resolvida “em um tapa”. Isso ocorre porque, mesmo dando um senso de progresso, a obtenção de uma relíquia dá efeitos permanentes para as próximas tentativas, como o dobro de vida.

A crise de identidade de um port e seus extras

Relic Hunters Zero: Remix coloca, frente a frente, duas faces de si mesmo: um modo história curto e bem pensado, que leva o jogador a refletir sobre suas estratégias e ponderar cada compra na loja, pensando nas próximas tentativas; e um modo infinito, estritamente baseado no modo história, que peca em acrescentar novos recursos e diverte pouco em suas repetições. E aqui, o jogo acaba sofrendo uma crise de identidade.

Atirar com o "armão" também pode ser muito satisfatório.
Isso se deve à tentativa de migrar de um título free-to-play e de código aberto do universo dos PCs para o Nintendo Switch, fato que limitou a liberdade dada aos jogadores na criação de inúmeros mods. Ao amarrar o consumidor às limitações de um console, os desenvolvedores tentaram compensar essa falta com a adição desses novos modos.

Não que a adição não tenha sido bem-vinda, já que a mesma trouxe uma nova forma de desfrutar da aventura original, com contadores de pontuação e algumas das armas mais famosas propostas pela comunidade online. O problema é que, para os jogadores recém-chegados ao título, o game não se identifica apropriadamente e você acaba se perguntando se o modo história é o principal e, depois, o modo “infinito” e “diário” são apenas extras. Aqui, até o simples fato de a aventura infinita ser apresentada bloqueada, como o primeiro item do menu, ressalta ainda mais essa confusão.

O resultado, porém, é o que mais decepciona, já que o modo infinito se assemelha demasiadamente com a história, como uma rápida adição de conteúdo às tão bem desenvolvidas doze fases do modo principal.

Boas escolhas?

Mesmo sendo curto e facilmente finalizado, Relic Hunters Zero: Remix desenvolveu com esmero os quatro mundos de sua aventura principal. A variedade de inimigos e armas é adequada para a sua duração e a dificuldade cresce de forma acentuada, introduzindo o jogador em um início mais lento e escalando-a nos próximos três mundos.

Em determinado momento do progresso, você passa bruscamente de um caçador de relíquias amador para um profissional de elite. As primeiras tentativas na história não te levarão a muito mais do que o segundo mundo, mas, conforme você adquire armas e obtém as partes das relíquias, o jogo equilibra-se e chega até o ponto de ser fácil.

Mesmo tendo dito o contrário, este jogo pode se tornar um bullet hell se você avançar no modo infinito.
Cada um dos mundos é apresentado de forma concisa, em estilos artísticos únicos e de cores vibrantes, acompanhados de um conjunto de personagens e elementos da interface gráfica que combinam e trazem um conforto visual a quem joga. Em raros momentos, a câmera se perde com o direcionamento da mira e a presença de paredes, mas confesso que mortes não foram causadas por esse motivo.

Por fim, se este jogo sofre com as rápidas adições de conteúdo feitas, também há alguns problemas na adaptação dos controles para o console híbrido da Nintendo. O primeiro deles é a precisão da mira no analógico direito, que pode se tornar ainda mais frustrante nos pequenos direcionais dos Joy-Con. Aqui, funcionalidades como a mira assistida, presentes em títulos como o já citado Enter the Gungeon, tornariam a experiência mais amigável.

A falta da mira assistida é um dos principais pontos negativos da migração para o Switch.
Além disso, botões como o de esquivar estão mapeados para o “A” e, a não ser que você tenha um dedão longo e ágil, será difícil sair rapidamente das ações de mira para o dash. A solução mais simples, nesse caso, seria a possibilidade de remapear os controles, a qual não existe.

Por esses motivos, Relic Hunters Zero: Remix se mostra um título divertido em seu curto modo história e repetitivo nos modos adicionais, incapaz de agregar valor ao lançamento vindo do PC, mas triunfante em seu estilo artístico, trilha sonora e mecânicas. Se você gosta de experiências que fornecem certa quantidade de desafio por pontuações maiores em leaderboards e obtenção de conquistas, vale a pena investir na aventura.

Prós

  • Abordagem diferente aos twin-stick shooters, com pegada estratégica;
  • Estilo artístico conciso e agradável;
  • Adições dos itens mais conhecidos entre a comunidade.

Contras

  • Pouco valor agregado em relação à versão free-to-play do PC;
  • Ausência de mira assistida;
  • Impossibilidade de remapeamento dos controles originais.
Relic Hunters Zero: Remix — Switch — Nota: 6.5
Análise produzida com cópia digital cedida pela Akupara Games
Revisão: Davi Sousa


É diretor de redação do Nintendo Blast e fã de games desde pequeno, quando começou sua jornada com Mario e Zelda lá no SNES. É formado na área das engenharias e trabalha com desenvolvimento de software. Quando sobra um tempinho entre as jogatinas e o dia a dia, aparece lá no Twitter como @niccomch.
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