Jogamos

Análise: Spongebob Squarepants: Battle for Bikini Bottom — Rehydrated (Switch) é uma intrigante viagem ao passado

O remaster que ninguém esperava do clássico cult de Bob Esponja remete a tempos mais simples do gênero plataforma.



Para muitos, o título multiplataforma lançado em 2003 conhecido como SpongeBob SquarePants: Battle for Bikini Bottom provavelmente é apenas mais um jogo genérico do Bob Esponja feito para aproveitar o sucesso do personagem na época. Para vários outros, no entanto, esse jogo licenciado da esponja do mar amarela preferida de todo mundo representa muita coisa, desde uma linda lembrança da juventude até um forte senso de pertencimento e comunidade.

Sem dúvidas, os fortes sentimentos associados a esse verdadeiro clássico "do povo" — não muito apreciado pela crítica especializada desde o começo — permitiram a criação do remaster que ninguém achava que iria existir, mas que muita gente esperava com todo o coração. Eis que agora em 2020, 17 anos após o lançamento do original, a THQ Nordic se dispõe a recriar a estranha magia da equipe do estúdio Heavy Iron Studios em SpongeBob SquarePants: Battle for Bikini Bottom — Rehydrated.

Vocês estão prontas, crianças?

É possível que você já tenha ouvido falar em como esse simples jogo baseado em um desenho infantil recebeu uma imensa pós-vida graças à comunidade de speedruns. Contextualizando um pouco o termo, speedrun é o ato de acabar um jogo o mais rápido possível, geralmente separado em três categorias: any percent, em que o único objetivo é chegar ao final; 100 percent, no qual é preciso completar o jogo cem por cento; e TAS ou tool assisted speedrun, em que é permitido utilizar softwares externos para ajudar no processo.

A história de como o Battle for Bikini Bottom original se tornou um verdadeiro ícone da categoria any percent é incrivelmente rica e impressionante de um ponto de vista narrativo. Quem tiver um bom inglês pode preparar a pipoca e se deliciar com, sinceramente, um dos melhores vídeos que apareceu no YouTube nesses últimos anos: o documentário de duas partes de 1h30 sobre como a comunidade de speedrun de Battle for Bikini Bottom surgiu, se desenvolveu e se tornou o que é hoje em dia.



SHiFT, o detentor do recorde mundial da categoria — e o que seria mais próximo de um "líder" para a comunidade — montou, com a ajuda de vários colaboradores, uma verdadeira carta de amor ao jogo que ele dedicou a maior parte da sua vida. Para você ter uma ideia, ele nem ao menos é citado na primeira parte do documentário simplesmente porque o speedrun de Battle for Bikini Bottom teve até mesmo diferentes ondas de jogadores envolvidos. Existiu um movimento original, que deu uma chance ao jogo "genérico" do Bob Esponja, e uma renascença que resgatou o game das cinzas e alçou sua popularidade às alturas. É uma história cheia de novas técnicas, glitches, descobertas, conquistas e, principalmente, paixão e amor por um hobby bastante específico que pode não ser levado a sério pela maioria das pessoas.

No final das contas, eu acredito que todo amante de videogames consegue se identificar com a história de Battle for Bikini Bottom. De certa forma, ela é uma metáfora para falarmos da própria paixão pelo simples ato de jogar videogame e do crescimento da sua indústria nos últimos anos. Como "gamers", não podemos ignorar Battle for Bikini Bottom, porque sua jornada representa tudo aquilo que amamos: jogar, explorar e conquistar até chegar ao ponto de elevar um hobby específico dos anos 80 ao status de maior indústria de entretenimento do planeta. 



Battle for Bikini Bottom fez um trabalho tão bom em manter sua relevância durante esses 17 anos que o bonde do remake/remaster tinha que chegar até ele. Tirando a popularidade inegável ligada à questão dos speedruns, aparentemente muita gente cresceu jogando esse jogo no seu Gamecube, Xbox original ou PlayStation 2. Plataformers sem alma feitos apenas para estampar o nome de personagens populares (como o Bob Esponja) e vender algumas cópias para crianças desavisadas eram comuns na época, afinal.

É aí que está a chave do poder afetivo de Battle for Bikini Bottom: ao contrário dos outros títulos do gênero, havia algo a mais ali. A essência de Bob Esponja e o interessante mundo da Fenda do Biquini, desenho que se tornou um verdadeiro fenômeno da cultura pop nos anos 2000, certamente estava presente. Adicionalmente, graças ao suor e muito trabalho por parte da Heavy Iron Studios em criar algo diferente e que realmente tivesse personalidade, também foi criado um gameplay de qualidade e que venceria os vários testes do tempo.

Um clássico re-hidratado

Para facilitar as coisas, irei chamar a nova versão apenas de Rehydrated. Assim como todo remaster, o objetivo aqui — que com certeza é alcançado — é fazer com que o jogo pareça exatamente o que você lembra que ele era em 2003. Ou melhor, a ideia não é que o game tenha um aspecto incrível pelos padrões de 2020, e sim que ele consiga emular a memória do original de uma forma interessante. Rehydrated certamente cumpre essa proposta, trazendo de volta um visual totalmente 2003, mas sem os serrilhados e a falta de cor e calor na imagem. Sem falar que os modelos dos personagens e suas animações estão consideravelmente mais apresentáveis e cheios de vida.

A história sempre foi bem simples e continua assim. Ao mesmo tempo que os robôs malvados criados por Plankton perdem o controle e decidem aterrorizar o oceano, Bob Esponja usa a concha "mágica" do seu amigo estrela do mar para desejar que robôs se tornem realidade. Se sentindo culpados por trazerem a ameaça robótica para a Fenda do Biquini, Bob, Patrick e, por alguma razão, Sandy (a esquilo do Texas) arregaçam as mangas e se preparam para salvar o dia coletando muitas espátulas douradas, coisas coloridas e meias fedidas.



Essa maratona de colecionáveis, típica dos plataformas da época (os collectathons), acontece em vários mundos conectados através de uma área semi-aberta da Fenda do Biquini — que funciona como um hub world dividido em três partes. O número de espátulas douradas coletadas, o principal item colecionável da aventura, determina seu acesso a todas as áreas, inclusive as duas outras partes da área central. Dois chefões consideravelmente (e literalmente) mais "durões" protegem o acesso a essas áreas e precisam ser derrotados antes de você seguir em frente: versões robóticas gigantes de Sandy e Patrick.

A Fenda do Biquini até que é bastante rica e cheia de detalhes, incluindo elementos como espátulas escondidas, power ups permanentes de vida (cuecas douradas), NPCs e até as casas de alguns personagens principais. O problema, porém, é que a área também é de longe a mais afetada por problemas de performance. Além disso, o jeito que o game decide lidar com a área out of bounds (fora do seu alcance) é bem estranho e pouco intuito. É fácil olhar para a Fenda do Bikini é acreditar que o local funciona como um grande mundo aberto, mas é só você caminhar um pouco para fora das sutis linhas de limite que Bob Esponja começa a se arrastar no chão e logo é capturado por uma mão fotorrealista gigante e arrastado para uma tela de loading desnecessariamente longa.  

É péssimo que a primeira impressão do jogo para todo mundo sempre será uma área bastante confusa em seus limites e lotada de slowdowns bizarros graças a quedas de fps. Sinto que a galera da THQ Nordic certamente deveria ter se concentrado um pouco mais em deixar a performance da área principal um pouco mais lisa, mas eu não duvido que o problema seja pior na versão do Switch. Por sorte, logo ao entrar no primeiro mundo, os problemas relacionados à performance diminuem bastante e a interessante jogabilidade plataforma do título tem seu espaço para brilhar. 



O argumento de que plataformas de qualidade não possuem pulo duplo certamente existe — é só você olhar para títulos como Super Mario 64 ou Banjo-Kazooie —, enquanto vários títulos mais genéricos do gênero usam e abusam da mecânica. O fato é que utilizar o pulo duplo acaba aliviando um pouco a carga de trabalho de outra parte essencial dos jogos do gênero: o level design. Não é preciso desenvolver estágios tão complexos no momento em que o seu personagem pode pular duas vezes e alcançar a maioria dos obstáculos sem tanto esforço. Talvez não por acaso o level design seja o ponto em que Rehydrated mais sofre.

No entanto, isso não quer dizer que graças ao pulo duplo a jogabilidade do título seja ruim. Pelo contrário: vários outros aspectos importantes entram em foco quando falamos de movimentação em plataformas, como o tempo de resposta dos pulos (e entre eles), lag de aterrissagem, fluidez do movimento aéreo, "peso" das ações e outras técnicas que podem influenciar o tempo no ar. Por mais que Rehydrated receba várias críticas em relação a bugs, problemas de performance e level design datado, é difícil reclamar muito da parte do gameplay em si. Em geral, o jogo oferece uma experiência bastante responsiva e agradável nesse quesito. 



São três personagens jogáveis: Bob Esponja a todo momento e Sandy ou Patrick dependendo da fase. Enquanto o protagonista foca mais em seus poderes de soprar bolhas de sabão, Patrick consegue carregar e lançar frutas e Sandy utiliza seu laço texano para atacar inimigos à distância e se balançar em locais específicos. Trocar entre os personagens acontece de forma fácil e rápida por meio de paradas de ônibus dentro das fases e, por mais que eles sejam parecidos, cada um claramente tem o seu próprio "tempero" e utilidade geral.

Bob e Patrick se mexem de forma parecida, mesmo com a clara diferença de peso. Ambos possuem um pulo duplo e podem estender um pouco o tempo de permanência no ar, a altura alcançada e/ou a distância percorrida utilizando o botão de ataque básico após os pulos. Embora não seja nenhum tipo de mecânica revolucionária, essa fórmula dos dois pulos + ataque básico funciona bem durante os momentos mais intensos de plataforma e nunca chega a ser frustrante.



Durante a parte de combate, a experiência fica um pouco mais complicada. O ataque básico de Bob Esponja, ao contrário de Patrick e Sandy, é um giro com seu soprador de bolhas em que o hitbox fica apenas no próprio soprador, e não no raio completo do seu giro. Usar o Bob durantes os confrontos acaba sendo bem menos preciso do que jogar com os outros personagens, além de ficar mais fácil ser atacado pelos robôs. Nesse caso, Sandy parece ser o pacote completo. Além da esquilo conseguir planar por um tempo durante os momentos de plataforma (sacrificando a mecânica de movimentação do ataque básico no ar), ela também pode atacar inimigos de longe e desferir precisos golpes de caratê que acertam bem em frente.

Adicionalmente, os três personagens participam de sessões de "escorregadas" ao longo das fases, algo como um snowboard/skate downhill — enquanto Sandy usa uma prancha normal, Patrick vai de costas mesmo e Bob Esponja usa a sua língua, lambendo todo o caminho constantemente. Esses segmentos lembram um pouco as fases de "corrida" dos Crash Bandicoot originais (com o ursinho ou o tigrinho) e, embora um pouco mais simples na maioria das vezes, são tão divertidos quanto.

Várias falhas, mas a diversão permanece

A maior questão de Rehydrated são os vários problemas que perseguem a experiência. Quanto ao level design, por exemplo, é… um tanto difícil de lidar. Cada mundo possui sua própria grande área dividida em outras subáreas e, no começo, explorar tudo isso é bem divertido, mas gradualmente o processo fica bem confuso. Vários itens precisam ser coletados sempre: espátulas douradas, meias do Patrick e objetos coloridos que funcionam como o "dinheiro" do jogo.

As espátulas estão ligadas diretamente a missões e acaba sendo mais fácil se organizar ao redor delas (pelo menos mais para o início do jogo), e os objetos coloridos até mesmo aparecem de novo depois que você morre, então é possível coletá-los infinitamente sem grandes problemas. As meias do Patrick estão escondidas por todo o jogo e, enquanto as fases vão ficando cada vez mais complicadas e labirínticas, também fica mais difícil encontrá-las. Dez meias "compram" uma nova espátula dourada com Patrick na área central e, da mesma forma, objetos coloridos compram espátulas com o Seu Sirigueijo.



O difícil quando você está explorando cada mundo é a falta de uma lógica clara de caminho para a exploração. É difícil saber exatamente para onde ir e, às vezes, é preciso realmente se transportar para outra área pelo menu porque o jogo não consegue planejar uma rota agradável para os objetivos. Isso piora gradualmente durante o jogo e, durante os estágios finais, a simples tarefa de encontrar todas as missões de espátulas daquele mundo fica um tanto complicada.

Voltando ao problema das linhas de limite de áreas jogáveis ou não, isso é algo que confunde do início ao fim do game durante todas as fases. É impossível saber realmente onde pular nesse jogo. Muitas vezes é necessário fazer um pulo que parece não ser possível, só que essa é a única forma de avançar. Rehydrated mantém uma constante sensação de que você está "quebrando" o jogo graças aos seus caminhos confusos e pouco definidos.

Como já citado, estranhos slowdowns e longos loadings acontecem toda vez que você sai da área permitida ou morre, só que, além disso, alguns bugs também estão prontos para atrapalhar o seu progresso. Certa vez eu tentei chegar até uma área mais elevada no hub world e consegui pular normalmente até o topo. No entanto, uma força logo puxou Bob Esponja para uma tela de loading que iniciou uma sequência de teleportes out of bounds e outros carregamentos aleatórios.



Em algumas outras ocasiões, não era incomum cair durante a fase e reaparecer em uma área completamente nova que ainda faltava muito para alcançar. Sem falar que certas missões de espátulas parecem poder quebrar e nunca ativar por nenhuma razão aparente. Uma das primeiras missões do jogo, na casa do Lula Molusco, em que só é preciso pular algumas vezes para ganhar uma espátula, simplesmente nunca funcionou para mim — e olha que eu tentei diversas vezes.

Olhando além dessas questões, no entanto, Rehydrated pode ser um prato cheio para os fãs do gênero  plataforma que não se incomodam com uma pegada mais retrô. Na verdade, uma das coisas que fez o jogo original se tornar o que é foram os vários bugs e glitches, então talvez seja possível aceitá-los como parte da experiência. Sem falar de outros elementos do original e que continuam presentes como um gameplay sólido e divertido, o mundo engraçado e colorido de Bob Esponja e seus amigos, e um grande número de bugigangas para coleta.

De certa forma, esse estranho jogo licenciado do Bob Esponja é um pedacinho digno da história dos videogames e eu acredito que vale a pena dar uma chance se você gosta do gênero. Algumas novidades interessantes também dão as caras, como suporte para menus e legendas em Português do Brasil, e um modo multiplayer bem simples em que você e um amigo atacam ondas de inimigos em sequência. Battle for Bikini Bottom nunca foi um jogo perfeito — e certamente ainda não é o caso —, mas ele, no mínimo, continua com o seu charme único e jogabilidade marcante.

Prós

  • Remaster de um verdadeiro clássico cult do mundo dos videogames;
  • Gameplay sólido e interessante;
  • Uma aventura longa e cheia de colecionáveis.

Contras

  • Bugs, glitches e problemas de performance;
  • Level design um tanto datado e confuso;
  • Loadings longos demais.
SpongeBob SquarePants Battle for Bikini Bottom — Rehydrated - Switch/PC/PS4/XBO - Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão:  Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela THQ Nordic

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.


Disqus
Facebook
Google