Jogamos

Análise: Yono and the Celestial Elephants (Switch) é uma prematura jornada filosófica

Sob a simplicidade de seus gráficos e a leveza de seu gameplay, título camufla uma narrativa digna de Foucault.

Lançado já há algum tempo, Yono and the Celestial Elephants (Switch) é uma experiência visual que vai te prender até o final. Não temos aqui um jogo de ação no estilo esmaga botões, mas um jogo lento, tranquilo, daqueles para você encostar e aproveitar, jogando na TV ou no modo portátil.

Um elefante celestial

A cada milênio, um elefante é enviado do cosmo para o mundo inferior. Yono é o sétimo elefante e, ao chegar, encontra um reino dividido em três distintas raças. São elas: os Humanos, os Bonewights, um tipo de mortos-vivos, e os Mekanis, uma espécie robótica.

Não vou tratar muito sobre este assunto e espero de verdade que, se alguém que estiver lendo este texto for jogar esta obra, preste muita atenção nos diálogos dos personagens. Os NPCs revelam surpreendentes questões filosóficas sobre poder, existência e liberdade, que fizeram o jogo rapidamente escalar de um jogo estilo puzzle com estética infantil a um ensaio sobre amadurecimento, moral e empatia.

O jogo também questiona a necessidade da reafirmação das crenças. Há uma estátua de elefante no centro de uma das principais cidades do jogo (Ciudad Heráldica). Há também um templo dedicado a estes. Muitos Bonewights estão vivos há milênios e, por isso, já viram outros elefantes celestiais. Ainda assim, quando Yono chega, a existências destes é tratada com descrença por muitos e descobrimos isso bem no início do jogo, quando encontramos Kai, um jovem monge aprendiz que, ao ver o quadrúpede, exclama:
“Isto é incrível! A maioria das pessoas hoje em dia consideram que os Elefantes são criaturas mitológicas, e alguns sequer sabem o que são. Se passaram mais de mil anos desde a última vez que um Elefante visitou nosso mundo. As lembranças desta época se reduziram à lendas e contos de fadas”.
Yono tem a missão de resolver os problemas do mundo em suas costas, mas não sabe como concluir. As três grandes raças presentes no jogo têm seus próprios interesses e, diante de uma eminente guerra, o jovem elefante se vê na necessidade de fazer escolhas prezando o bem maior. Neste ponto a imersão na narrativa fica um pouco comprometida.

Existem algumas situações no jogo em que o pequeno paquiderme toma partido por uma ou outra causa, mas o jogador não tem o poder de decidir. Não há desdobramentos ou escolhas a serem feitas e a narrativa segue de maneira linear, sem outras possibilidades de ação.

Jogue como um elefante

Por mais que os trailers possam dar a impressão de que este jogo é um Zelda só que com um elefante, não é assim. Na verdade, de Zelda tem muito pouco. Yono and the Celestial Elephants é um jogo de puzzle, com algumas sessões de plataforma e uns rasos combates no qual a cabeçada é o principal ataque. Então, nada de combates por masmorras, exploração ou uso de diversos itens e magias, aqui somos só um elefante fazendo coisas que qualquer elefante faz por aí, como dar cabeçadas, cuspir água, soprar cataventos e atirar amendoins para estourar balões flutuantes.

Os primeiros minutos são monótonos. Os gráficos simplistas e a motivação inicial rasa não convencem o jogador de primeira. Mas logo o jogo começa a tornar-se interessante. Os puzzles são simples e objetivos, se você tem mais de 5 anos não deve ficar travado em nenhum deles.

As mecânicas são simples: apagar fogueiras usando água, empurrar caixas para ativar interruptores, derrubar chaves com cabeçadas na parede para abrir portas e baús, soprar grama ou destruir jarros para conseguir moedas ou uns losangos que fazem a vez dos heart pieces dos Zeldas. Inclusive a mecânica de encontrar quatro peças para aumentar a vida máxima está presente aqui.


Yono and the Celestial Elephants é um jogo fofinho do início ao fim. Seu nível de fofura está desde as animações de Yono, na maneira como anda ou suga a água com sua tromba, até no tom inocente de humor construído em personagens como Kai. Os gráficos são bem simplórios, poucos objetos decorativos, quase nada nos cenários tem vida, mas de um modo geral tudo se encaixa na proposta minimalista que se propõe.

Não encontrei bugs ou falhas técnicas que atrapalhassem a experiência, no máximo alguns saltos estranhos pelas escadas, que faz nosso protagonista avançar mais rápido do que a câmera consegue alcançar.

O jogo é bastante curto, podendo ser finalizado em uma noite e o fator replay é baixo, quase inexistente. Não há rotas ou finais alternativos a descobrir, e as poucas side quests podem ser feitas durante a campanha. A única coisa que o jogador tem para fazer após terminar o jogo é comprar todas as skins, que são bem caras e os inimigos dropam poucas moedas.

As skins podem ser compradas nas cidades e possuem variações muito bacanas, algumas fazendo referências a personagens como Link ou Darth Maul. À parte destas, o único colecionável que vale a pena são as palavras dispersas pelo mundo, as quais você entrega para um monge para completar a enciclopédia com a história de todos os elefantes. Gosto da maneira como os desenvolvedores criaram uma mitologia tão rica para este universo.
As skins são caras, mas já pararam pra pensar o trabalho que dá fazer roupas pra um elefante?
Quanto ao aspecto auditivo, o jogo se sai muito bem. Efeitos sonoros mais que graciosos, como o elefante usando a tromba, se mesclam perfeitamente ao som ambiente tranquilo. Não é uma trilha sonora que vá grudar na sua cabeça, ou que você colocaria como toque de celular, mas cumpre perfeitamente o papel de acompanhar durante a aventura.

Quase uma viagem espiritual

A maior qualidade desta obra está em sua filosofia. Yono é um jovem elefante, com muito o que aprender, muito o que viver. É esta a impressão que ficou deste jogo. O final do jogo só faltou me dizer “carpe diem”.

Ao mesmo tempo, a proposta parece um pouco desbalanceada. A simplicidade da estética, dos combates e dos puzzles o fazem parecer um jogo voltado para o público infantil, mas certamente os diálogos presentes estão mais perto do universo de um estudante universitário do que de uma criança. Sério, quantos jogos por aí você conhece em que os NPCs usam palavras como “status quo”? Recomendaria este jogo por suas mecânicas e seu visual, mas muito mais por sua narrativa.

Prós

  • História com temas complexos e questões filosóficas;
  • NPCs bem construídos com diálogos interesantes;
  •  Visuais cativantes e sem problemas técnicos.

Contras

  • Duração curta e fator replay quase inexistente;
  • Pouca variedade de inimigos e mecânicas.
Yono and the Celestial Elephants - Switch/PC - Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: João Gabriel Haddad
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo próprio redator

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.


Disqus
Facebook
Google