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Análise: Manifold Garden (Switch) apresenta um jeito único de ver a realidade

Um ótimo puzzle com foco na descoberta e na experiência sensorial.


Manifold Garden é um jogo criado pelo artista William Chyr. Dizer que ele é produto de um artista já revela muito sobre a sua proposta: um puzzle que explora a física e a sensibilidade para oferecer uma experiência única e intrigante. Com uma jogabilidade intuitiva e visual belíssimo, Manifold Garden acerta em cheio em quase tudo que propõe.

Um corpo que cai

No filme “Vertigo” (“Um corpo que cai”, no Brasil), de 1958, Alfred Hitchcock utilizou um truque de câmera aparentemente simples para induzir no espectador a sensação de vertigem. A câmera se afastava do objeto ao mesmo tempo em que fazia um zoom, gerando o efeito almejado. Manifold Garden, ainda que tenha recursos bem distintos, utiliza também de soluções sutis para induzir a sensação de queda e deslocamento. O mais interessante, na minha experiência, é que eu não esperava que algo assim iria ocorrer, o que me fez ser realmente surpreendido pelas mudanças na câmera do jogo, especialmente nos momentos em que eu acreditava que estava caindo para a morte.


 Importante pontuar que Manifold Garden não faz nada que seja completamente novo. Quem já jogou Portal, por exemplo, já passou por momentos semelhantes e até com realizações mais impressionantes no que se refere ao uso da física. Mas isso, obviamente, não tira o mérito da realização de Chyr. Em relação à jornada proposta, o título não apresenta nenhum contexto inicial. Estamos em um mundo estranho e temos (sem saber o motivo) que resolver alguns enigmas para passar de uma sala a outra. Esses primeiros momentos são intuitivos e os puzzles são bem simples, envolvendo mecânicas muito utilizadas ao longo do game, como a mudança de visão conseguida quando nos movemos pelas paredes do ambiente. Para que isso fique mais claro, imagine a seguinte situação: você está em pé diante de uma parede e, ao colocar o pé nela, ela se torna o "novo chão" e todos os outros lados ficam em uma nova perspectiva. Os objetos, contudo, não caem ou se deslocam por conta dessas mudanças. Assim temos que apertar botões ou mover cubos para locais específicos que desbloqueiam novas salas e, depois, espaços mais amplos.

Construções impossíveis

Assim como nas ilustrações do holandês Maurits Cornelis Escher, em Manifold Garden nos deparamos com escadas que parecem nos levar para cima e para baixo ao mesmo tempo. Ou nos vemos caindo diante de prédios que funcionam tão bem de cabeça para baixo quanto em seu sentido original. Tudo isso cria uma dificuldade de locomoção. A partir do momento em que você sai das salas iniciais, é bem provável que você se perca sem saber para onde tem que ir. Pelo menos foi isso que aconteceu comigo. Primeiro tive a sensação de que tinha acessado algum lugar para onde não deveria ir. Depois imaginei que o jogo estava quebrado. Só então, meio sem querer, entendi para que lado devia olhar. E foi incrível conseguir ver o que já estava ali o tempo todo, sem que eu percebesse. Mas isso certamente pode ser um ponto de frustração para muitos jogadores. Afinal, ficar perdido durante minutos andando a esmo sem saber como agir não é algo que costuma ser visto como recompensador.



Em relação aos controles e à adaptação ao Switch (o jogo foi lançado em 2019 para PC e dispositivos móveis), o título funciona muito bem. Tanto no modo portátil quanto na televisão a jornada é agradável e fluída. Sem uma narrativa que motive o jogador a iniciar a jornada, todo o foco está na eficácia dos controles e na interação com o mundo, e o que Manifold Garden faz nesses aspectos é bem próximo da perfeição.

Saber para que lado olhar

Manifold Garden é uma experiência que mistura física com a solução de puzzles. Para quem se interessa pela ambientação absurda das ilustrações de Escher ou por arte surrealista, o game oferece uma sensação de proximidade. Mas essa ambientação às vezes é confusa (de propósito) e pode gerar algum desconforto. Eu mesmo senti vertigem em alguns pontos e tive que parar um pouco para recuperar o foco. Considerando que a escolha do desenvolvedor é por criar a possibilidade de que os jogadores se sintam perdidos e deslocados, o jogo cumpre bem o seu papel, nos forçando a reaprender como olhar o mundo ao nosso redor. Quem se entregar a essa nova perspectiva não vai sair desse mundo arrependido.

Prós

  • Experiência visual impressionante;
  • Bom uso da física e da perspectiva;
  • Puzzles elaborados e desafiadores.

Contras

  • Ausência de contexto pode deixar o jogador perdido;
  • Estrutura visual redundante causa impressão de repetição.
Manifold Garden — Switch/PC/PS4/IOS — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: José Carlos Alves
 Análise produzida com cópia digital cedida pela William Chyr Studio

Pesquisador nas áreas de estética e cibercultura com Mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA) e Doutorado em Comunicação (UnB). Além de escrever sobre jogos, produz o Podcast Ficções e tem um blog sobre literatura, filosofia e cotidiano.


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