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Análise: A Short Hike (Switch) é um lindo jogo sobre uma breve jornada

Explore o adorável mundo aberto de Hawk Peak Island em uma curta, porém significativa caminhada até o topo da montanha.



Inspirado por suas caminhadas pela natureza quando criança, o desenvolvedor Adam Robinson-Yu idealizou um jogo que trouxesse à tona todas essas boas memórias de infância. Tempos de paz, descoberta e conexão, tanto consigo quanto com o ambiente ao redor e com as outras pessoas. Enfim, um game que pudesse trazer um momento descontraído de reflexão à vida das pessoas. Um respiro leve e um riso curioso, assim como uma bela lembrança de infância guardada no fundo do coração.

A ideia resultou em um projeto que reúne gráficos cheios de charme e um jeito nostálgico meio desajeitado embora bastante original em um cenário de panoramas vibrantes e habitado por personagens legitimamente adoráveis. Tudo isso embalado por uma trilha sonora primorosa e uma história que pode ser um tanto simples, mas que cumpre seu papel com maestria. Não é preciso passar passar muito tempo com A Short Hike para perceber que o game realiza o objetivo do seu criador sem grandes dificuldades.

Uma rápida trilha até o pico da montanha

Claire, uma passarinha da cidade grande, decide passar alguns dias com a sua tia no paradisíaco parque natural de Hawk Peak. Logo de ínicio, no entanto, há um impedimento que não deixa a jovem simplesmente relaxar e aproveitar a natureza exuberante do local. Existe algo deixando Claire um tanto apreensiva e ela precisa fazer uma ligação no celular para resolver de uma vez sua dúvida. O problema é que apenas um lugar possui um sinal forte o suficiente em toda a ilha: o pico da montanha.

Com a sugestão de sua tia May para finalmente subir até o topo da montanha, Claire segue sua jornada com o despretensioso objetivo de poder utilizar o seu celular. A premissa é muito simples e desde o primeiro instante o tom leve e despreocupado do jogo se torna bem claro.



Aparentemente, a jovem passarinha visita o local desde pequena e nunca caminhou até o ponto mais alto — nesse momento, a tia de Claire profere, de maneira realmente afável, uma das maiores questões existenciais dos tempos modernos: "Por que não fazer isso agora?".

O jeito gentil e carinhoso com o qual tia May sugere uma certa iniciativa pela parte de Claire introduz o tom de todos os excêntricos personagens que aparecem pelo seu caminho. Parece que todo o imaginário coletivo desse mundo maravilhoso é formado por compreensão, apoio incondicional e uma pitada de esquisitice. A Short Hike acontece em um espaço de empatia total onde todos estão dispostos a ouvir você de coração, aconselhá-lo sem julgamentos e compartilhar sem medo as suas próprias inseguranças.

Os habitantes de Hawk Peak muitas vezes se expressam através de uma sinceridade e abertura absoluta, mas com a ocasional e fina camada de uma leve "agressividade" ou sarcasmo "maroto". Basicamente, todos os animais antropomórficos são agradáveis e atenciosos, só que alguns deles também são um pouco "tsundere" — escondendo um coração de ouro por trás de um exterior comicamente agressivo. 



Falar com as pessoas ao seu redor é um elemento essencial da experiência de A Short Hike, inclusive em momentos distintos. Às vezes é preciso falar várias vezes com alguém para acessar alguma quest ou ganhar um item novo. Em outros momentos você tem que esperar um tempo para encontrar o NPC novamente ou procurá-lo em algum outro canto do mapa. Vários personagens mantêm o mundo bastante vivo apenas seguindo suas vidas, desde o pintor que busca inspiração em diferentes lugares até a dupla de escaladores que trata de subir o pico no seu próprio ritmo.

Naturalmente, há um bom número de reflexões interessantes durante todas essas interações com os personagens. Será que eu preciso da minha "faixa de cabelo da sorte" ou a "sorte" está comigo mesmo assim? Será que a recompensa realmente é necessária após completar uma longa missão? O momento que melhor exemplifica o espírito de A Short Hike, no entanto, é quando o pescador local ensina a você sobre a milenar arte da pesca. 

Sentado com toda parcimônia no mesmo local durante todo o jogo, o pescador, assim como todo o elenco de NPCs, não perde tempo em querer ensiná-lo sobre a pesca, inclusive "emprestando" permanentemente uma vara que tinha sobrando. Claire, claramente pouco habituada com atividades de um ritmo mais lento, não entende o porquê da demora e pergunta algumas vezes se está fazendo tudo certo e se deve mudar alguma coisa. O jogo mantém você sentado por um tempinho até que longo na vida real enquanto o pescador calmamente explica que é preciso paciência. O lugar que ela escolheu já estava ótimo de fato, só que às vezes é necessário respeitar o ritmo das coisas. 



Várias dessas conversas e momentos com os habitantes da ilha são memoráveis o bastante para justificar a existência do jogo por si só, mas por sorte esse não é o caso — a jogabilidade geral consegue ser tão leve e agradável quanto as palavras e intenções dos personagens. Claire, como o pássaro que é, possui a habilidade de voar… ou melhor dizendo, planar por toda a ilha (quase) livremente. Você pode planar como quiser enquanto cai aos poucos até o chão, mas será preciso coletar penas douradas para conseguir ganhar altitude ou até mesmo escalar qualquer superfície.

Nesse sentido, A Short Hike é praticamente um mini Breath of the Wild, porém consideravelmente mais fofo — algo como um híbrido entre o último Zelda e Animal Crossing. Você está totalmente livre para fazer o caminho que quiser pela ilha, no ritmo que bem entender e da forma que achar melhor. Você pode escalar, nadar, explorar, procurar dinheiro (para comprar itens como penas e chapéus colecionáveis), pescar, vender peixes e se preocupar com as side quests dos NPCs e os achievements do jogo.

Chegar até o topo não é muito difícil, apenas requer um pouco de estratégia e/ou uma coleta considerável de penas douradas, já que cada uma aumenta consideravelmente sua stamina para escalar e planar. O desafio aumenta um pouco na última área — a parte mais alta da montanha, onde há neve e gelo — porque suas penas congelam e você fica impossibilitado de usar sua energia até achar uma fonte de água quente. Mas não há muito mistério no processo, só é preciso pensar um pouquinho mais em vez de subir de qualquer jeito. 



Falando em áreas distintas dentro da ilha, é realmente sublime o jeito como o mapa foi desenvolvido, e como a trilha sonora está em perfeita harmonia com a transição entre as áreas. Em geral, a área total realmente não é tão grande, mas o jeito que pequenas subáreas se mesclam no cenário e, principalmente, a forma orgânica com a qual a música acompanha essas transições é excepcional. A trilha de Mark Sparling lembra um pouco aquela pegada tranquila e relaxante de jogos como Harvest Moon e Stardew Valley e agrada do começo ao fim.

O maior problema de A Short Hike é a sua duração. O jogo realmente é muito curto; você pode subir até o topo sem problemas em questão de uma hora, talvez duas sem se esforçar — e, mesmo completando tudo que pode ser feito, como achar todos os peixes e coletar todas as penas, é difícil se estender por muito tempo. A questão, entretanto, é que é impossível criticar o game por esse aspecto que faz parte inerente da sua proposta inicial.

É óbvio que "a short hike" será uma caminhada curta e o jogo é sobre isso de todas as formas possíveis, tanto objetiva quanto subjetivamente. Na verdade, o título alcança até mesmo certo nível de genialidade a partir de sua premissa tão bem executada. Foi criado aqui um mundo para ser explorado com toda calma e paciência do mundo, porém que, assim como uma lembrança nostálgica de verão, logo acaba e deixa um gostinho de quero mais. 



Acredito que até mesmo o visual do jogo, que se compromete com a versão mais "suja" possível de algum título esquecido da era 32/64 bits, segue essa linha justamente para reforçar ainda mais o sentimento de uma escapulida nostálgica para esse mundo — e o mesmo vale para os efeitos sonoros. Jogar A Short Hike é como tirar muito bem-vindas férias rápidas no seu console de infância e ainda aprender uma coisa ou outra sobre a vida sem nenhum tipo de pressão externa. Sinceramente, o sonho de todo jovem adulto.

É difícil alguém conseguir ter algum problema com A Short Hike e essa experiência tão genuína e agradável que o game proporciona. Um ponto negativo específico para nós brasileiros, no entanto, é que o nosso bom e velho Português não está disponível; sendo preciso ler um bocado para aproveitar boa parte do que o jogo tem a oferecer. 



Emprestando a expressão do Inglês, A Short Hike é short and sweet — pequeno e doce —, assim como uma diminuta barra de chocolate importada. Você sabe que cada mordida vai valer a pena, mas a experiência definitivamente dura pouco tempo. A lição fica pelos momentos vividos e sobre o que foi aproveitado, e não sobre o que poderia ter sido feito a mais. Indo além de um "mero" videojogo, A Short Hike lembra mais um poema ou uma obra de arte interativa em diversos momentos, ao tempo que ainda consegue ser um jogo legitimamente divertido no processo.

Prós

  • Lindos gráficos nostálgicos com pixels grandes e serrilhados em cenários cheios de vida e personalidade;
  • Rico elenco de personagens adoráveis;
  • A trilha sonora é um requinte só;
  • Toda a proposta de um jogo curto, porém profundo em vários sentidos mais abstratos é um tanto genial.

Contras

  • Curto demais, mesmo que essa seja a ideia;
  • Sem suporte para o nosso idioma Português.
A Short Hike - Switch/PC - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão:  Icaro Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida por Adam Robinson-Yu

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.


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