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Análise: Persona 5 Strikers (Switch) vai além do crossover e prova ser uma ótima sequência

Muito mais do que apenas um musou de Persona 5, Strikers tem o que é preciso para ser considerado uma sequência de respeito.


Cinco anos depois de Persona 5 redefinir os JRPGs no seu lançamento original para o PS3/PS4, e um ano inteiro após Persona 5 Scramble: The Phantom Strikers ser lançado no Japão para o Switch, Persona 5, de uma forma ou de outra, finalmente marca sua presença em um console Nintendo no Ocidente. 

Sim, essa presença se trata de um crossover com o gênero musou desenvolvido pela Koei Tecmo, no mesmo estilo do último grande lançamento da série Zelda, Hyrule Warriors: Age of Calamity. No entanto, isso de nenhuma forma diminui os esforços ou limita as possibilidades de Persona 5 Strikers como um bom jogo da série Persona, um ótimo action RPG e uma verdadeira sequência para Persona 5.

Persona 5 Dois: Joker contra-ataca

É importante começar essa análise com um aviso sobre possíveis spoilers do Persona 5 original e sua versão posterior, Persona 5 Royal. Por mais que eu tente não discutir diretamente os eventos do primeiro jogo, é um fato inevitável que Persona 5 Strikers (P5 Strikers daqui em diante, para encurtar) é uma continuação direta em termos de narrativa.

Indo um pouco além, ainda é meio estranho — e triste, na verdade — que donos do Switch não tenham nenhuma forma de experienciar a história por completo, já que Persona 5 ainda é um exclusivo da Sony e do PlayStation. Esse é o primeiro ponto um tanto controverso de P5 Strikers. A apreciação do título não está limitada ao conhecimento prévio do jogador sobre Persona 5, seus personagens e a história original; porém, esse é um aspecto que trabalha bastante em favor do jogo. 


Basicamente, se você jogou Persona 5, existe uma grande probabilidade de você ter amado — afinal, o game é um dos maiores JRPGs de todos os tempos. No meu caso, além de ter jogado o P5 original na época do seu lançamento em 2016, eu terminei Persona 5 Royal (com 100 horas de jogo) literalmente um dia antes de começar minha aventura em P5 Strikers. Vindo diretamente do primeiro jogo, é difícil não se empolgar com a continuação já no começo. Poder passar mais tempo nesse mundo e, principalmente, acompanhar mais a vida desses personagens é um presente para qualquer fã.

Isso não quer dizer que o título não se esforce um pouco para explicar os acontecimentos anteriores. Existem sim momentos de exposição da história passada, sobre quem são esses personagens, como eles se conheceram e o que fizeram antes, só que eles se mostram bastante rasos e sutis quando aparecem espalhados ao longo das horas iniciais da aventura. O ponto é que é possível jogar P5 Strikers sem conhecer o seu antecessor; no entanto, essa passa longe de ser a situação ideal.

Psiência cognitiva

Um semestre após os eventos de Persona 5, Joker volta para Tóquio com seu "gato", Morgana, para rever o resto da gangue dos Phantom Thieves of Hearts (os "ladrões fantasmas de corações"), e curtir umas férias sem compromisso com seus amigos. Após o reencontro, não demora nem um pouco para que a garotada seja obrigada a botar a mão na massa para limpar a sujeira dos adultos novamente.

Primeiramente, acredito que é válido recapitular os pontos centrais da trama de Persona 5. É bastante difícil, afinal, falar diretamente da trama de P5 Strikers sem pincelar a base construída pelo jogo original, suas regras e o seu mundo tão peculiar.

Você, no controle de Joker, é acusado falsamente de agredir uma figura importante na sua cidade natal e termina sendo mandado para Tóquio para ficar no café/restaurante de curry de um conhecido da família. Carregando a grave mancha social de um antecedente criminal, principalmente no contexto da sociedade japonesa, Joker tem dificuldade de se relacionar sem antes ser julgado pelo seu passado.

A premissa da trama, desde o início, é desvendar o que há além das aparências e aceitar sua dor no processo de enxergar o seu verdadeiro eu. Retirar a máscara que você apresenta para a sociedade e, com ajuda das pessoas ao seu redor, compartilhar as dores e seguir em frente. Assim como a maioria dos animes e mangás voltados ao público jovem, o maior poder do indivíduo é a sua habilidade de se relacionar e fortalecer seus laços com outras pessoas. Para isso, entretanto, é preciso coragem.

A verdade é que o trauma só pode ser curado por meio do diálogo. É fácil alguém ferido se tornar ensimesmado e viver em um ciclo de dor e ressentimento. De repente, ao ver o mundo como o antagonista, essa pessoa acaba se tornando o próprio vilão. Mesmo que mascarada por elementos como poderes mágicos e demônios extradimensionais, a mensagem principal da série Persona é que todo mundo tem as suas dores, mas quando nos permitimos confiar nos outros, quando conversamos sobre nossos problemas de uma forma aberta e transparente, encontramos nos amigos o alívio para o nosso martírio e podemos ajudar as outras pessoas da mesma forma. 

Esse momento aparentemente aleatório de filosofia e introspecção pode parecer fora de contexto, mas ele é o ponto central de Persona como um todo. O processo de retirar a sua máscara, no entanto, vai além de uma simples expressão figurativa e passa diretamente para o plano literal.

Com acesso ao Metaverso, um espaço criado pela cognição coletiva ou por uma forte resolução/mágoa individual, perceber a sua máscara e, principalmente, ter a coragem de retirá-la, vai além do engrandecimento pessoal e imbui o indivíduo com a capacidade de utilizar sua Persona em combate para derrotar sombras errantes carregadas de energia negativa. A explicação para esses eventos se perde na ciência, passa pela psicologia e atravessa o campo do esoterismo, mas o próprio jogo tenta explicar o fenômeno por meio da pseudo-ciência fictícia conhecida como Cognitive Psience, a "psiência cognitiva".

Joker retira sua máscara primeiro e encontra em seu caminho uma série de amigos com o potencial para o mesmo. Aos poucos, você acompanha na história do primeiro jogo eventos diretamente ligados a esses indivíduos que muitas vezes afetam negativamente uma grande quantidade de pessoas. Acontece que, ao infiltrar um desses espaços criados por uma forte resolução individual, chamados de Palácios, é possível "roubar" o tesouro da percepção cognitiva desse indivíduo e, como consequência direta, ativar uma "mudança de coração" no mundo real. 

Sem nem ao menos saber o que acontece dentro dos seus Palácios, indivíduos que tiverem seu tesouro roubado se deparam com um nível extremo de remorso pelos seus feitos e colocam a sua redenção acima de qualquer coisa. O "roubo" de coração é algo mais próximo a uma mudança forçada de percepção, mas, graças aos seus métodos furtivos e evasivos, Joker e seus amigos adotam a alcunha de Phantom Thieves of Hearts, ou simplesmente Phantom Thieves. 


A questão do poder das relações e do fortalecimento de laços fica bem clara quando falamos do poder singular do protagonista. Joker, ao contrário de todos os seus amigos que também são usuários de Personas, possui a habilidade de utilizar diversas Personas simultaneamente. Além disso, são justamente as relações interpessoais que permitem que Joker aproveite o máximo do poder dessas Personas, além de influenciarem vários outros aspectos de combate.

É por isso que metade do gameplay de Persona 5 não tem nada a ver com batalhas ou exploração de dungeons e é focado apenas em andar por aí, falar com seus amigos e ver várias cutscenes. Algo que pode ser estranho para um título musou, mas que também é implementado de certa maneira em P5 Strikers — que, em geral, possui mais foco na história do que qualquer jogo do gênero já desenvolvido.

Um jogo de ação em meio à uma trama densa

Na trama de Persona 5 Strikers, ao contrário do esperado, o acesso ao Metaverso está de volta, mas agora de forma consideravelmente diferente do primeiro game. Para balançar ainda mais a temática focada em psicologia e ciência, Strikers decide colocar tecnologia na fórmula da sua história, com um forte foco em inteligência artificial. Agora, a discussão é levada a um nível ainda mais profundo, questionando a natureza dos sentimentos, do bem e do mal, e os funcionamentos do coração (de forma figurativa) a partir do ponto de vista de uma "máquina" aparentemente sem acesso a emoções humanas.

EMMA, a nova sensação em assistente digitais no Japão no mesmo estilo da Siri ou Alexa, atua como uma misteriosa nova forma de acessar o metaverso. A diferença é que esse é apenas um aplicativo como qualquer outro, ao qual qualquer pessoa pode ter acesso. A função de entrar no Metaverso, no entanto, é utilizada apenas pelos Phantom Thieves, algo que é descoberto por acidente por Joker, Skull e Morgana.

Logo no começo do jogo, ao receber um pedido de amizade no aplicativo diretamente de uma famosa estrela pop chamada Alice, você é transportado para um tipo totalmente diferente de localidade dentro do Metaverso. Algo que vai além de um simples local isolado, como eram os antigos Palácios, e engloba um bairro ou cidade por completo — nesse caso, Shibuya, o famoso centro comercial de Tokyo.

Chegando nesse novo e misterioso ponto de acesso ao Metaverso, em pouco tempo uma garota/inteligência artificial chamada Sophia aparece em seu caminho. Sophia parece não lembrar nada sobre si mesma ou sobre a razão de estar ali. Sua única lembrança é a sua diretiva de vida: ser a companheira da humanidade. Sophia possui sua própria Persona e ajuda no combate desde o começo, mas quando Joker e Skull enfim conseguem voltar ao mundo real, a garota fica presa dentro do celular do protagonista.

Com uma forma totalmente diferente dentro e fora do Metaverso, Sophia funciona de maneira similar a Morgana no primeiro jogo, assumindo a função de companheira misteriosa de Joker, que não lembra nada sobre seu passado. Com uma inteligência e capacidade de aprendizado ainda maiores do que EMMA, Sophia atua como a grande quebra-galho dos Phantom Thieves', além de assumir o papel de novata em relação às funções do Metaverso (assim como o próprio jogador). A personagem se encaixa muito bem no grupo e protagoniza vários grandes momentos da trama, sempre questionando a intenção dos vilões, atitudes humanas e seus próprios sentimentos. 


O outro novo personagem central para a trama é o policial Zenkichi, que representa o lado mais "adulto" e as repercussões reais e políticas dos conflitos no Metaverso (que também estão bastante presentes no primeiro jogo), além de colocar os Phantom Thieves contra a parede em relação aos novos acontecimentos.

Estranhas mudanças de comportamento estão acontecendo por todo o Japão e, graças aos eventos do jogo anterior, é normal associar a ocasião aos Phantom Thieves. Para salvá-los de uma inevitável acusação e eventual condenação, Zenkichi promete ganhar tempo enquanto os jovens lidam com esses novos "super Palácios", os locais que ficam conhecidos como Jails, ou "prisões''.

Em relação aos velhos Palácios, as Jails possuem vários funcionamentos diferentes em sua estrutura. Não existem mais os tesouros, e sim "mini-tesouros" chamados de Cores, que geralmente dão acesso a outras áreas dentro da Jail e são representados por objetos relacionados à vida dos Monarcas (literalmente chamados de Monarchs). As Jails, no entanto, não estão ligadas diretamente aos seus Monarcas, mas existem como um ponto de coleta dos desejos roubados de outros indivíduos, algo que faz com que as pessoas percam sua individualidade e o controle sobre si mesmas. 


Adicionalmente, o último passo em qualquer dungeon de Persona 5 é voltar à realidade e mandar um Calling Card para o "dono" do Palácio, materializando o tesouro no processo da pessoa saber que ela irá ser roubada em breve. Esse processo continua em Strikers, mas agora há um passo adicional antes do Calling Card: voltar para a realidade, encontrar a Trauma Cell do Monarca e enfrentar um boss especialmente poderoso que guarda a entrada para o confronto com o chefe final da Jail. Esses momentos são especialmente sensíveis e emotivos, revelando que, dessa vez, os vilões atuam em um espaço muito mais ambíguo entre o bem e o mal, motivados por traumas pesados com razões bastante reais.

A história faz um ótimo trabalho em criar uma relação de dualidade e compreensão entre os Monarcas e certos membros dos Phantom Thieves. Cada Monarca é análogo a algum dos personagens principais, e isso é bastante explicitado durante as interações. A lição moral aqui é que heróis podem facilmente se tornar vilões, porque tudo é uma questão de escolhas. Esse ponto volta para a importância da amizade e das relações na construção da sua personalidade. Os que optaram por ajudar e receber ajuda foram salvos, enquanto as pessoas que decidiram sucumbir aos pensamentos negativos em solidão eventualmente se tornaram seus próprios fantasmas. 


Temas pesados como esses certamente não são abordados em muitos jogos de ação frenética como Persona 5 Strikers, mas esse é um título da série Persona, afinal, e isso fica claro a todo momento. Se você espera por um musou tradicional com a típica porradaria ininterrupta é preciso pensar duas vezes antes de iniciar essa aventura. Em muitos momentos, é fácil confundir P5 Strikers com algo como um visual novel, assim como o primeiro Persona 5. O problema é que essa dualidade de gêneros é muito mais bizarra em um jogo de ação, ao contrário de um RPG, em que o foco muitas vezes está na própria história.

Eu adoro o sistema de combate por turnos de Persona e as várias micro-interações durante os momentos aparentemente banais de simulação de dia-a-dia, assim como muitos outros fãs, mas sem dúvidas o ponto alto da série está na força dos seus personagens. A história pode parecer previsível às vezes, e tanto Persona 5 quanto P5 Strikers seguem uma estrutura bastante formulaica, mas os Phantom Thieves e as interações do grupo sempre deixam você querendo mais. É como se, de uma forma metalinguística que veste perfeitamente a franquia, Persona estivesse contando a você sobre a importância de ter amigos enquanto transforma um bando de seres digitais em seus companheiros valiosos. 


Sem dúvida, esse efeito é muito mais poderoso em um RPG tão completo quanto o primeiro Persona 5. A liberdade de andar por aí já não é mais tão presente, o famoso sistema de tempo e o passar dos dias não é implementado de verdade e a quantidade de coisas para fazer fora das Jails é bastante limitada. No entanto, é bastante interessante presenciar um jogo de ação que se importa tanto com as pequenas coisas. Por isso que, muito antes de ser apenas mais um Dynasty Warriors da Koei Tecmo, Persona 5 Strikers é um novo Persona 5.

Até nas menores minúcias, o combate em Persona 5 Strikers é extremamente similar ao de Persona 5, exceto pelo grande fator que diferencia os dois: um é a base de turnos e o outro é livre e totalmente ativo, reminiscente dos jogos musou.

Combate e Gameplay

A base do combate de todos os jogos da franquia Persona é nocautear inimigos para desferir ataques gerais massivos que afetam uma grande área e, na maioria das vezes, acabam com o confronto. Existem algumas formas distintas para nocautear inimigos, como infringir algum status effect primeiro (shocked, frozen, forget, dizzy, entre vários outros) e depois acertar um ataque technical com golpes físicos, tiros ou magias dos elementos Nuke e Psi. A principal forma de derrubar seus oponentes, no entanto, é usar e abusar dos elementos.

Acertar um golpe certeiro do elemento da fraqueza do inimigo geralmente define se seu confronto irá durar cinco segundos ou cinco minutos, tanto em Persona 5 quanto em P5 Strikers. Porém, para isso é preciso uma quantidade saudável de SP, que funcionam como os "pontos de magia" da série Persona. Grande parte da estratégia de infiltração em dungeons no primeiro jogo tem a ver com a sua capacidade de administrar o seu SP, já que o nível de dificuldade das batalhas aumenta bastante se você não for capaz de atacar a fraqueza do oponente. 


Toda essa lógica parece funcionar muito bem em um RPG por turnos — e de fato funciona —, mas como ela é aplicada em um jogo de ação de reflexos rápidos como P5 Strikers? Bom, quase que exatamente da mesma forma, mas com alguns adicionais. O sistema de combate aqui é literalmente uma fusão dos tradicionais combos de dois botões dos musou e das batalhas de turno de Persona, e o resultado é incrível.

Funciona assim: segurar o L abre o menu de Personas a qualquer momento, parando o tempo e deixando que você escolha sua habilidade com toda a calma do mundo. Se você tiver SP — ou HP, no caso das habilidades especiais físicas —, você pode usar esse recurso sem parar e terminar combates em um instante, exatamente como em Persona 5.

Se você não segurar o L, as possibilidades ainda são bastante vastas. Cada Phantom Thief possui uma série de combos e habilidades ativadas com combinações dos botões X e Y, além de poder mirar sua arma de fogo segurando o R. Outra opção disponível é utilização de um bom número de objetos espalhados pelo cenário para atacar inimigos com um golpe chamado Phantom Dash, que pode infringir dano de vários elementos. Aliás, todo personagem possui algum atalho para uma magia elemental simplesmente utilizando o combo de ataques de X e Y. Essa é uma ótima forma de acertar fraquezas de maneira rápida e por um custo baixo, mas a praticidade tem o lado negativo de não ser tão potente quanto um ataque do menu do L. 


Ao contrário do esperado de um título do gênero, o combate não segue a linha de Age of Calamity, por exemplo, com hordas infinitas de inimigos que seguem em sua direção quase a todo momento. Nesse sentido, P5 Strikers também empresta a natureza stealth do seu irmão mais velho. Sombras em um número singelo caminham pela dungeon procurando intrusos, e se uma delas avistar você, um grande número de inimigos aparece e o seu time inteiro começa o confronto já atordoado. O ideal é que você ande com calma e dê ambush nos inimigos calmamente, enfrentando essas hordas de demônios em uma área contida. O sistema realmente se aproxima mais a um action RPG do que um típico Dynasty Warriors.

Os ambientes mais confinados das batalhas não querem dizer que os combates não fiquem intensos e frenéticos de vez em quando. Por mais que a quantidade de inimigos seja limitada, muitas vezes é preciso ter alguma estratégia para matar até as criaturas mais simples da horda de monstros. Oponentes maiores e mais fortes, por sua vez, precisarão de uma boa quantidade de planejamento, pensamento crítico e agilidade nos dedos para ser derrotados.

Persona 5 Strikers pode ser bem difícil desde o começo, pedindo que você quebre o escudo de inimigos principais diversas vezes enquanto escapa de uma série de ataques rápidos, e muitas vezes mortais, vindo por todos os lados. O desafio é bem intenso mesmo na dificuldade normal, até para os maiores adeptos de jogos de ação, e é bastante plausível dizer que o combate é tão interessante e envolvente quanto as batalhas por turnos de Persona 5.

Dado o nível de desafio, você provavelmente acabará morrendo com frequência durante o caminho. Às vezes, a batalha mais simples pode resultar na morte de todos os membros da sua equipe por causa de alguns ataques mais fortes e esquivas erradas. Por sorte, você pode tentar qualquer batalha novamente logo após a derrota. Além disso, é possível usar itens de cura a qualquer hora, o que pode ajudar bastante para garantir que você não repita certos confrontos mais longos e intensos. De qualquer forma, mesmo que três personagens da sua party pereçam em combate (inclusive o Joker), se você estiver determinado é totalmente possível vencer apenas com um Phantom Thief sobrando, o que gera momentos bem épicos de tensão entre você e os seus reflexos. 


Falando nos múltiplos personagens, outro elemento que retorna de Persona 5 e adiciona bastante dinamismo aos combates é o Baton Pass, a habilidade de trocar de personagem após algum ataque e criar combos para eventualmente desferir um All-Out Attack (um ataque conjunto com o time inteiro) e carregar a barra individual de Showtime (um ataque especial individual) de cada personagem. A habilidade de trocar de personagens na hora certa e abusar desses especiais é algo pode mudar a maré em seu favor durante qualquer batalha. 

O elenco de personagens jogáveis pode não ser tão grande quanto a maioria dos musou, mas a Omega Force, divisão da Koei Tecmo responsável pelos musou, acertou em cheio no kit de habilidades e na movimentação de cada Phantom Thief. Se você sempre quis controlar a Makoto e sair com sua Persona-moto atropelando todo mundo, ou se você prefere usar uma arma agressiva como o lança-mísseis de Haru, agora você pode realizar esses sonhos com estilo. É importante frisar também o quão parecidos são a performance e o desenvolvimento dos personagens em relação ao jogo anterior. Eles aprendem muito dos mesmos ataques e possuem as mesmas utilidades em batalha, mesmo em gêneros tão diferentes de combate.


Lutar é sem dúvidas o pilar central da existência de Persona 5 Strikers, e a experiência é sempre nada menos do que divertida, desafiadora e eletrizante. Os desenvolvedores, no entanto, não perderam a oportunidade de emular de alguma forma a seção de life sim do primeiro Persona 5. Dessa vez, embora esse aspecto seja definitivamente diminuto em escala, ainda há um número agradável de atividades para se fazer.

Quando Joker não está em uma Jail, P5 Strikers se comporta de forma praticamente idêntica ao Persona 5 original. Inclusive, no começo do jogo, muitos dos locais são os mesmos, como o café LeBlanc e as ruas de Shibuya. A questão é que a movimentação do seu personagem no overworld nunca é realmente incentivada, e muitas funções que obrigavam Joker a se mexer pela cidade são facilitadas ou eliminadas completamente.

O legal é que, depois da primeira Jail, a história leva Joker e os Phantom Thieves a várias outras cidades no Japão, e poder viajar por aí com esses personagens é uma das melhores partes do jogo. A movimentação limitada é contornada de uma forma interessante pela troca constante de localidades e explicada de um jeito consistente pelo fato de que muitas vezes você estará viajando pela estrada na van dos ladrões de coração.

Comprar itens, por exemplo, é feito de forma fácil e rápida pelo menu da loja online de Sophia diretamente do Hideout, o encontro no esconderijo que antecede as excursões para as Jails. Em Strikers, geralmente o local é a própria van, que também atua como o menu principal de sidequests (os requests) e o menu da "Cozinha do Joker", onde você pode preparar receitas especiais para os seus companheiros e ganhar alguns itens de recuperação no processo. 


Já no lugar das longas interações com seus amigos e as barras individuais de amizade com direito a vários perks específicos, agora existe o sistema de Bond, que basicamente reuniu tudo em um lugar só. Às vezes é estranho não poder chamar o Ryuji para comer um lamen ou não poder jogar videogames com a Futaba, mas o sistema funciona bem para a premissa mais dinâmica do jogo. 

Ainda é possível interagir especificamente com algumas pessoas e até passar por eventos de amizade, mas eles acontecem quase que 100% confinados em texto e voz. Sempre que você agradar alguém de alguma forma, seja o grupo inteiro ou apenas a Makoto, sua barra de Bond sobe um pouco e, quando ela chega até o final, você ganha alguns pontos para destravar uma série de habilidades passivas e melhorias para a sua equipe.

Como pode ser visto, embora não seja a aventura de mais de 100 horas que Persona 5 é, com suas inúmeras possibilidades, Persona 5 Strikers reúne facilmente umas 45 horas de conteúdo para você matar a saudades desses personagens — ou conhecê-los e poder enfim apreciar as constantes meta-referências de Futaba com videogames.

Persona 5 no Switch

Entrando na reta final dessa análise, eu gostaria de falar de alguns outros pontos positivos que ainda não foram citados, e depois citar certos problemas e escolhas equivocadas.

Duas coisas são impecáveis em Persona 5 (e na série Persona em geral nos últimos anos), e isso é transmitido em Strikers com maestria: o visual e a música. Lembro de não acreditar que um jogo pudesse ser tão cool quando eu joguei Persona 5 pela primeira vez em 2016, e não é à toa que seus menus de batalha extremamente descolados viraram até meme. Strikers obviamente continua essa tendência, mesmo sem tanto espaço para menus de batalha. O menu principal dentro do jogo, por exemplo, é tão vivo e cheio de animações sutis e interações entre os personagens que ele chega a ser uma atração por si só. 


A música provavelmente nem precisa de introduções. A trilha sonora, geralmente marcada por um alto valor de produção que inclui vocais e os mais diversos instrumentos, segue sendo um dos pontos altos de toda a franquia. Não é exagero falar que eu cantarolo para mim mesmo uma música de Persona 5 todos os dias há alguns meses, já que eu estava jogando Persona 5 Royal antes de começar o Strikers, e sinceramente, isso não é um problema.

Muitas músicas da trilha de Persona 5 e Royal voltam a dar as caras em Strikers, incluindo novas composições e até alguns remixes. A trilha sonora está sempre presente durante o jogo, seja nos momentos mais calmos com trilhas suaves e instrumentais ou durante combates frenéticos com vocais animados e um instrumental dançante. É impossível ignorar a parte musical de qualquer Persona, e P5 Strikers segue a mesma regra.

Ainda na parte sonora, se você está acostumado com a fantástica dublagem de Persona 5, seja em japonês ou em inglês, pode ficar tranquilo que todos os mesmos atores reprisaram os seus papéis e há realmente muito diálogo em P5 Strikers. Claro que um bom entendimento de inglês (ou japonês) é necessário para apreciar um game com tanta história e diálogo, mas se isso não for um problema, prepare-se para muita história. 


Se você também gosta das famosas cutscenes 100% animadas, que aconteciam em Persona 5 apenas em momentos-chave, pode comemorar, porque eu tenho a impressão que P5 Strikers possui até mais "cutscenes de anime" do que o primeiro Persona 5. Eu já citei um pouco essa questão mais acima, mas esse com certeza é um ponto estranho. Em alguns momentos, de repente, depois de uma série de batalhas frenéticas e intensas, você tem que alterar a chave do seu cérebro e se preparar para 45 minutos de história ininterrupta, algo que, por mais que combine com Persona, nunca vai encaixar tão bem em um jogo de ação.

Outro ponto nessa transição das convenções de Persona 5 entre os gêneros que ficou um pouco esquisito é todo o processo de sair do Metaverso e voltar para casa para recuperar SP. No primeiro jogo, graças à mecânica de passagem de tempo, existia uma penalidade clara quando você escolhia sair de um Palácio e voltar à realidade, que era a perda de um dia. Já que havia um dia limite para acabar a dungeon, assim como uma grande quantidade de atividades que pediam o seu tempo durante os momentos de life sim, perder mais um dia possuía um certo peso negativo na sua progressão.

Em Persona 5 Strikers, no entanto, visitar um checkpoint (que funciona como uma Safe Room do primeiro game) dentro de uma Jail, e escolher sair do Metaverso, recupera todo seu HP e SP sem nenhum tipo de penalidade. É perfeitamente possível voltar à realidade toda vez que você passar por um checkpoint, e sua única "penalidade" de fato serão algumas telas de carregamento durante o processo. Agora, o problema é que passar por mais telas de loading do que o necessário é, na realidade, até que uma penalidade grave para o seu tempo da vida real. Se é tão fácil sair do Metaverso e voltar à Jail para recuperar SP, por que não permitir que você recupere SP simplesmente interagindo com o checkpoint?


Falando em telas de carregamento, provavelmente você já espera por isso, mas, em geral, P5 Strikers pede que donos de Switch esperem um pouco mais do que as outras pessoas. Entretanto, não é nada extremamente exagerado e os momentos em que loadings longos acontecem são pontuais. Os carregamentos nunca atrapalham a ação de forma direta e são mais presentes durante transições de áreas, cenas e principalmente nos momentos em que você se move por locais fora do Metaverso.

Aproveitando a deixa, é impossível não falar da performance do Switch nesse jogo, que está sendo lançado para consoles infinitamente mais poderosos, como o PlayStation 4. Pelo lado positivo, é um tanto miraculoso poder ver Joker andando por aí na pequena tela de um Nintendo Switch. Jogar com os Phantom Thieves em forma portátil é algo incrível por si só e fico legitimamente feliz que, dessa vez, a Atlus enfim pôde trazer Persona para o nosso console híbrido preferido.

O lado negativo, no entanto, pode incomodar algumas pessoas. Os musou da Koei Tecmo possuem certa fama de ter uma performance ruim de quadros por segundo no Switch, vide certos momentos do último grande lançamento da empresa, Hyrule Warriors: Age of Calamity. O problema definitivamente não é 100% resolvido em Persona 5 Strikers, mas pelo menos na minha experiência pessoal, a performance não apresentou tantos problemas quanto em Age of Calamity. 


Joguei a maioria das minhas 44 horas da campanha principal com o Switch na dock e não senti nenhum slowdown realmente perceptível até mais ou menos as últimas 10 horas de jogo. A partir desse ponto, as batalhas ficaram mais intensas, com mais inimigos e habilidades ao mesmo tempo na tela, e já deu para notar algumas graves quedas de fps em certos momentos. Quanto ao modo portátil, a verdade é mais amarga: slowdowns mais graves ocorrem e a performance, em geral, é bem mais truncada. Da mesma forma, a resolução em modo portátil sofre um pouco e todo o ambiente do game fica consideravelmente mais desagradável e serrilhado.

O ideal mesmo é jogar sempre em modo docked, ainda que a grande vantagem do Switch seja a portabilidade, o que acaba sendo um paradoxo. É 100% possível jogar em modo portátil, você só precisa relevar alguns pontos ainda mais do que na TV. A verdade é que problemas de performance e resolução ainda persistem mesmo na dock, principalmente se você comparar diretamente com a performance de outros consoles. Além disso, é impossível jogar o primeiro Persona 5 no Switch, então infelizmente não dá para dizer que esse é o console perfeito para o game. 


Persona 5 Strikers, assim como Persona 5, é um ótimo jogo. Se você jogou e gostou de P5, poder revisitar esses personagens e acompanhar a trama de Strikers será como um lindo presente. Indo além disso, é incrível poder jogar Persona com um sistema de combate de ação e ver como tudo funciona tão bem.

Fãs de musou e pessoas que não conhecem Persona talvez precisem se adaptar um pouco para realmente entender Strikers e devem estar abertos a muitos momentos em que a ação para por completo, mas acredito que é impossível não apreciar uma obra que acerta em tantos pontos como Persona 5 Strikers. O Switch provavelmente não é a plataforma ideal para você viver essa aventura, mas na verdade ele também cumpre bem o seu trabalho. Seja onde for, jogue Strikers e Persona 5, e me acompanhe na esperança de notícias por um Persona 6 ou até mesmo um P5 Strikers 2, o mais rápido possível. 

Prós

  • História fantástica com diálogos e atuações incríveis;
  • Visual surpreendente, menus estilosos e artes fantásticas;
  • Trilha sonora impecável;
  • Bastante conteúdo para ser explorado;
  • Um mix surpreendente entre o combate dos musou e da série Persona;
  • Persona está oficialmente no Switch e esperamos que seja só o começo.

Contras

  • Problemas de performance no Switch, principalmente em modo portátil, como queda de fps e loadings um tanto longos;
  • O equilíbrio entre os momentos de ação frenética e a grande quantidade de narrativa não é ideal e pode afastar algumas pessoas;
  • Há muita leitura a ser feita, principalmente para um jogo de ação, algo que pede um certo nível do idioma inglês.
Persona 5 Strikers - Switch/PC/PS4 - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Atlus

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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