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Análise: Two Point Hospital — JUMBO Edition (Switch): a difícil e viciante tarefa de ser um gestor

Com muito conteúdo e experiência polida, esse é o game perfeito para você gastar horas e horas da sua vida.


 
Não é raro vermos críticas agudas ao desempenho dos gestores em relação aos investimentos na saúde. Principalmente agora, no meio de uma pandemia, percebemos como é importante saber empenhar o dinheiro da maneira correta, tomando as decisões que podem beneficiar a população. Two Point Hospital não é tenso como a vida real (ainda bem), mas mostra que encontrar soluções funcionais para o uso de recursos não é tão simples quanto parece.

Plantão Médico

A minha primeira experiência jogando por horas a fio diante do computador foi com um jogo chamado Theme Hospital. A ideia era gerenciar um hospital e tudo o que envolvia a sua manutenção, desde a contratação de funcionários até a compra de novos espaços para construir salas de exame e espaços de pesquisa.

Two Point Hospital possui em sua equipe alguns desenvolvedores que trabalharam no clássico título de 1997. Por isso, não é de se espantar que a sensação para quem jogou o game de PC seja de familiaridade imediata. A atual empreitada, que foi lançada originalmente em 2018 para computadores e em 2020 para os consoles, chega agora com uma nova versão recheada de conteúdo. E o que ele oferece é excelente para os fãs do gênero.

Two Point Hospital cresce lentamente. Sem uma história que ofereça um contexto significativo, o jogador é colocado em um ambiente no qual deve construir um hospital e atingir metas cada vez mais exigentes. A curva de aprendizagem é bem lenta e reconfortante. No início, todos os passos são guiados e o tutorial é repleto de interrupções para ensinar o que se deve fazer e como agir. Esse tipo de intervenção pode irritar jogadores mais experientes, mas não chega a ser um imbróglio difícil de aturar.
 
A jogabilidade foi bem adaptada aos controles. A substituição do mouse pelo analógico é bem-fluida e todo o processo de construir e selecionar itens se torna rapidamente intuitivo. O maior problema, no Switch, ocorre quando se opta por jogar no modo portátil. A tela é pequena demais para a quantidade de coisas que é necessário ver. As informações escritas, especialmente, ficam minúsculas.

No que se refere à construção, duas coisas servem de auxílio: um zoom poderoso, que permite vislumbrar qualquer detalhe do hospital, e a possibilidade de congelar as ações e construir enquanto tudo está parado. Mas talvez o principal problema esteja justamente aí: o desafio maior é gerenciar toda a dinâmica do hospital com as ações acontecendo em tempo real. Claro, não existe a obrigatoriedade de congelar o tempo para reorganizar coisas que estejam fora do lugar. Contudo, a presença dessa opção é tentadora demais para ser desconsiderada, o que acaba diminuindo muito o desafio geral, especialmente no começo.

O aprendiz

Cada fase de Two Point Hospital equivale ao gerenciamento de um hospital em uma localidade específica. Esses ambientes são tratados como empreendimentos, e cada meta colocada envolve necessariamente o aumento do lucro. É uma visão dura demais da saúde como um negócio, o que pode incomodar algumas pessoas, especialmente na circunstância atual.

Para avançar, é preciso conseguir um mínimo de estrelas em cada um desses empreendimentos. Mesmo depois de conseguir o pré-requisito, é possível continuar trabalhando naquele mesmo hospital, aprimorando-o e subindo ainda mais de nível. O importante, contudo, é aprender uma habilidade específica a cada estágio, pois elas se mostram necessárias nas fases seguintes.

Em um hospital universitário, por exemplo, é preciso construir salas de treinamento para aprimorar as qualificações dos funcionários. Já em outra localidade, ocorrem doenças específicas, cujo tratamento só poderá ser iniciado depois de se construir uma sala de pesquisa no recinto.






Sobre as doenças, aliás, vale uma informação importante: não se trata aqui de um jogo realista, com doenças e circunstâncias que conhecemos. As patologias que aparecem envolvem distúrbios de personalidade que fazem as pessoas se comportar como Fred Mercury ou como Nietzsche, cabeças inchadas com lâmpadas incandescentes, pessoas que ficam com doces no lugar dos olhos e coisas bizarras desse tipo.

É a leveza gerada pela quantidade de doenças inusitadas e pelos métodos nada convencionais de tratamento que oferece humor e encanto ao jogo. Ao mesmo tempo, é necessário ser extremamente pragmático para escolher os profissionais corretos, promovê-los no tempo certo, cuidar da limpeza do ambiente e atingir metas de produtividade que aparecem a cada instante, como ter 90 dias sem mortes ou impressionar alguma autoridade com a beleza do estabelecimento.

Os DLCs que acompanham essa versão ampliam ainda mais as possibilidades, inserindo novos ambientes e temáticas, como hospitais em ambientes extremamente gelados, templos antigos com hordas de pacientes e a presença de entidades alienígenas e pacientes abduzidos. Apesar da repetição dos procedimentos, a variedade de elementos e modos (incluindo um sandbox para a construção de seus próprios hospitais e um modo de desafios online) garante longevidade ao título.

Como se o tempo fosse infinito

Two Point Hospital traz para os consoles uma experiência eficiente de simulação e administração de recursos. Com muita variedade, humor e conteúdo, o título faz o que se propõe quase com perfeição.Para o Switch, especificamente, a quantidade de informações na tela atrapalha a visibilidade no modo portátil. Além disso, o pouco desafio nos primeiros estágios e a quantidade de informações de tutorial podem incomodar jogadores mais experientes.

Quem passar por esses primeiros momentos, contudo, vai encontrar não só uma grande quantidade e variedade de conteúdo, mas também desafio na medida certa. A única coisa que você deve se perguntar, nesse caso, é “tenho mesmo tanto tempo de sobra?”

Prós

  • Grande quantidade de conteúdo;
  • Humor e variedade de elementos;
  • Muitos modos de jogo e customizações.

Contras

  • Visibilidade prejudicada no modo portátil;
  • Tutoriais repetitivos e pouco desafio nos primeiros estágios.
Two Point Hospital — JUMBO Edition — Switch/PC/PS4/XBOX — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sega Europe 

Pesquisador nas áreas de estética e cibercultura com Mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA) e Doutorado em Comunicação (UnB). Além de escrever sobre jogos, produz o Podcast Ficções e tem um blog sobre literatura, filosofia e cotidiano.


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