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Análise: Cyber Shadow é um novo clássico no Nintendo Switch

O plataforma de ação 8-bit oferece uma fenomenal experiência retrô que vai muito além da nostalgia.


Cyber Shadow
provavelmente consegue conquistar a maioria dos jogadores a partir de sua premissa e nada mais. Shadow, um ninja ciborgue em um mundo cyberpunk pós-apocalíptico, parte em uma missão para vingar a destruição do seu clã e salvar os membros remanescentes. Em meio às ruínas da cidade fictícia de Mekacity, infestadas por uma série de misteriosas formas de vida sintéticas, apenas o herói robótico pode seguir em frente e fazer o que é certo, salvando o mundo e desvendando os segredos da queda dos outros ninjas pelo caminho.

Essa trama e ambientação poderiam facilmente pertencer a algum filme dos anos 80. Ou então, o que seria ainda mais apropriado, a um game de Nintendinho da mesma saudosa década oitentista. Imagine, por exemplo, os primeiros Mega Man, Double Dragon, Battletoads e, principalmente, Ninja Gaiden. Jogos limitados em aspectos como a capacidade gráfica, mas incrivelmente complexos e profundos em questões como a jogabilidade

Cyber Shadow é um fruto desse tempo passado dos videojogos. Um tempo em que dois botões, uma boa quantidade de criatividade e muitos reflexos já eram o bastante para encantar vários jogadores dispostos a encarar o desafio. O título, no entanto, não ignora o avanço dos tempos e trata de mesclar o novo e o antigo com vasta competência e maestria. O resultado é uma experiência retrô que não deixa nada a desejar em relação aos grandes indies modernos, enquanto até mesmo excede a pretensão de suas inspirações.

Pelas ruínas de Mekacity

A publicadora Yacht Club Games, famosa pelo fantástico indie retrô Shovel Knight, e o único desenvolvedor do game, Aarne “MekaSkull” Hunziker, sem dúvidas alcançaram o nível de polidez e qualidade do próprio “Cavaleiro da Pá” com Cyber Shadow. Fãs de jogos com uma pegada retrô 8-bit, indies inspirados ou simplesmente de games desafiadores de qualidade irão aproveitar bastante as quase 10 horas iniciais da aventura do ninja cibernético.

A questão do alto nível de desafio, porém, é definitivamente um ponto chave da capacidade de apreciação do título. Cyber Shadow, assim como os jogos de outrora que servem como seu material de referência, é bastante difícil do começo ao fim.


Tudo no game é resolvido com apenas dois botões do controle. O Y serve para atacar com a espada e o B para o pulo. Algumas habilidades especiais aparecem no decorrer da quase meia dúzia de capítulos da história, mas, no início, o cerne da jogabilidade é usar o pulo na hora certa, manter os reflexos aquecidos para os diversos projéteis e ataques inimigos e saber usar o simples golpe de espada de maneira eficiente.

O limitado começo do jogo poderia ser lento e desinteressante, no entanto esse passa longe de ser o caso. Cyber Shadow possui um ritmo impecável e sabe desenvolver as nuances do seu gameplay de uma forma gradual e bastante didática. Sem qualquer tipo de menu ou diálogo exclusivo para isso, o título sabe ensinar os seus caminhos da melhor forma possível: por meio do próprio jogo. Poder mergulhar fundo na jogatina e aprender com a própria experiência, sem tutoriais e outras distrações desnecessárias, é algo que faz bastante falta nos dias de hoje.


Em pouco tempo, o ninja Shadow adquire a habilidade de atirar shurikens, por exemplo, algo que pode ser ativado segurando para cima enquanto você pressiona o botão da espada. Logo em seguida, na próxima fase, você pode ter certeza que o único jeito de seguir em frente será usando essa habilidade de forma correta. Talvez exista um botão distante para ativar no meio do caminho, ou um inimigo voador impossível de alcançar com a espada, o importante é que será preciso aprender a utilizar tudo o que está a sua disposição para seguir adiante.

Do mesmo jeito, de forma bastante orgânica, todas as habilidades especiais que são destravadas durante o progresso pedem pelo mesmo tipo de aprendizado. Dominar skills especiais como o parry, o dash e a espadada aérea para baixo é 100% necessário para conseguir passar de fase. Além disso, a forma espaçada e gradual que você adquire novos poderes consegue manter o gameplay em constante renovação do começo ao fim.


Lá pelo capítulo nove, de repente, Shadow tem em suas mãos um vasto arsenal de habilidades que, juntas, alteram drasticamente a jogabilidade do início da aventura. Da mesma forma, inimigos, obstáculos e cenários mais específicos e complicados surgem no seu caminho para acompanhar os upgrades. Tudo acontece realmente de uma forma muito natural, e assim como cada monstro e pedacinho de cada estágio, tudo também parece ter sido lapidado com o máximo de calma e paciência. Cyber Shadow é um jogo feito com carinho e isso exala por todos os lados.

Ao contrário dos games mais antigos, que apelam um tanto no quesito da dificuldade de maneira similar, Shadow está livre das barreiras um tanto arcaicas do sistema de vidas. É impossível dizer que a dificuldade elevada é um ponto negativo em um jogo que não pune os seus erros de uma forma injusta ou exagerada. Você nunca precisará começar uma fase ou o jogo inteiro desde o começo por causa de alguma escolha equivocada ou um pressionar de botão indevido. A morte certamente será uma constante durante sua experiência com o título, mas, antes de tudo, ela é uma experiência de aprendizado e uma oportunidade para o aperfeiçoamento das suas habilidades.


Os estágios são longos. Provavelmente mais longos do que você imagina ou espera de um jogo do tipo, no entanto o objetivo de completá-los nunca fica chato ou cansativo. Em geral, a progressão ocorre por segmentos de fase, basicamente. É 100% possível você completar um estágio de uma vez só, mas na grande maioria das vezes você irá morrer em alguns momentos, voltando para o checkpoint mais próximo. Ao atingir o checkpoint seguinte, você então fica livre para morrer de novo quantas vezes quiser. Mesmo que algum inimigo ou momento específico de uma fase pareça impossível, você sempre poderá voltar ao checkpoint mais perto e tentar novamente quantas vezes e quando quiser.

O objetivo se mantém atingível de forma permanente graças a esse tipo de progressão dos estágios. É possível aprender certas mecânicas aos poucos, assim como o comportamento dos inimigos ou de algum obstáculo da fase. Assim como o treino do próprio ninja cibernético, o espaço para o seu desenvolvimento pessoal dentro do jogo também é entregue a você. Não é preciso ter pressa ou ansiedade durante os momentos mais cabeludos de Cyber Shadow. Respire fundo e analise bem a situação. De repente, você pode até colocar o Switch no sleep e fazer outra coisa, não importa. Aquele inimigo ou fase especialmente difícil estará lá esperando por você, tome o seu tempo.

Um clássico moderno

Mesmo com essa acessibilidade intuitiva na questão da dificuldade, Cyber Shadow com certeza ainda entrega uma experiência bem desafiadora. Vale a pena jogá-lo? Pode ter certeza que sim. O jogo impressiona e não deixa a desejar em todos os quesitos, seja nos gráficos, level design, trilha sonora ou controles.


Como foi citado anteriormente, a polidez do título impressiona do começo ao fim. A linda pixel art dos personagens, cenários e até das breves cutscenes nunca deixa de agradar. Tudo parece ter sido pensado pixel por pixel. A arte das cutscenes em especial, que tentam ilustrar um pouco mais da narrativa do jogo, é tão impressionante que tenho dificuldade de pensar em outros exemplos similares que atinjam o mesmo nível de maestria. A arte faz um fantástico trabalho em ilustrar uma história bastante simples, mas que é tão bem contada e caracterizada em seus singelos detalhes que acaba chamando atenção de uma forma muito positiva durante o gameplay.

O mesmo vale para as fluidas animações e a movimentação de todos os personagens e objetos na tela, assim como seu posicionamento. Cyber Shadow alcança um nível artístico realmente primoroso para um sidescrolling de ação com as limitações 8-bit. Ao contrário de outros jogos que evocam o visual da época, o título não teve medo de ir um pouco além não só no quesito da jogabilidade, que é perfeitamente responsiva, mas também no visual. Essa é a melhor forma de homenagear estilos antigos, sabendo aproveitar o que ainda funciona bem sem medo de trazer certos aspectos para os dias atuais.


Um dos elementos mais interessantes (e igualmente irritantes) dos estágios de Cyber Shadow são seus inimigos. Todo inimigo representa uma ameaça considerável, do menor dos insetos robóticos ao maior chefão final. A movimentação dos monstrinhos me impressionou em vários momentos. Todo pequeno segmento em uma fase pede que você coloque certa atenção nos inimigos pelo caminho. Eles sempre irão pular alto demais, atacá-lo diretamente ou passar direto e atacá-lo por trás, entre vários outros comportamentos variados e realmente inteligentes. Cada oponente é uma peça perfeitamente colocada no grande quebra-cabeça da fase, e você precisa respeitá-lo para seguir em frente.

Os chefões não são assim tão difíceis quanto eu imaginei inicialmente, com exceção de alguns mais específicos, porém todos eles são visualmente interessantes e desafiadores o bastante para entreter. Todos os bosses possuem suas próprias mecânicas, formas e diferentes fraquezas, muitas vezes ligadas diretamente a alguma das suas habilidades especiais. Desvendar a melhor maneira para derrotá-los, que pode variar consideravelmente de jogador para jogador, é sempre bem intrigante e divertido.


Toda a ação é embalada ainda por ótimos efeitos sonoros e uma trilha que é grudenta do jeito certo. O quesito áudio definitivamente não ficou de fora desse perfeccionismo primoroso do resto do game. Desde o som de cada golpe de espada até as músicas das fases, ricas em agradáveis loops 8-bit, tudo se encaixa muito bem com o resto do pacote.

Esse pacote, por sinal, oferece bastante conteúdo para um jogo do tipo. Assim como em Shovel, uma longa lista de Feats, ou achievements, irá manter os jogadores mais aplicados ocupados por um bom tempo. Sem falar que a campanha normal pode variar entre umas saudáveis 7 a 10 horas dependendo do seu número de mortes em cada fase.


Meu único problema real com o jogo é mais relacionado ao Switch em si. Infelizmente, o direcional digital (D-pad), tanto dos Joy-Con quanto do Pro Controller, não é dos melhores. No começo preferi jogar Cyber Shadow usando o analógico mesmo, algo que na verdade me agradou bastante. O problema é quando você destrava as habilidades de contra-ataque e dash, que são ativadas pelo próprio direcional.

Com o analógico é bastante difícil usar essas skills de forma adequada, e com o D-pad dos controles oficiais da Nintendo a experiência geral do game só não é tão boa assim. Por sorte, é possível alterar os controles no menu do jogo, então talvez esse problema nem seja tão gritante. Eu percebi um pouco tarde demais que era possível essa troca e acabei utilizando os inputs padrões até o final, mas acredito que teria sido melhor trocar desde o início.


É fácil gostar de Cyber Shadow, assim como perceber que ele é um fruto de muito amor e trabalho duro. O título é sem sombra de dúvidas um dos lançamentos mais marcantes de 2021 e um indie que merece ser lembrado (e jogado) por muito tempo, especialmente no Switch. Poder experienciar a aventura de Shadow em qualquer lugar com o modo portátil do console é um verdadeiro privilégio. Este é um jogo bem feito como um todo, que sabe respeitar a nostalgia sem medo de tomar certas liberdades e acerta em cheio a questão da dificuldade mais elevada. Não deixe de dar uma chance a Cyber Shadow.

Prós

  • Alta dificuldade implementada da melhor forma;
  • Um show de game design em todos os seus aspectos;
  • Controles responsivos na medida certa;
  • Visual e som excelentes.

Contras

  • Configuração padrão do controle não ajuda muito os direcionais digitais do Switch.
Cyber Shadow - Nintendo Switch - Nota: 9.5
Revisão: Icaro Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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