Blast from the Past

Conduit 2 (Wii) – 10 anos de um grande shooter

Um título construído com o feedback dos fãs.

Em 2009, o Nintendo Wii já estava há 3 anos no mercado, fazendo um sucesso mundial e com seus controles de movimento sendo citados nas mais diversas mídias (virando tema até episódio de South Park). Porém, ao mesmo tempo em que o console se tornou um fenômeno e ampliou o público que se interessa por games, ele também carregava um rótulo de vídeo game “casual”, com jogos mais infantis ou voltados para toda a família. Naquele ano, contudo, a Sega publicaria dois títulos que ignoraram completamente esse rótulo: Madworld e The Conduit.


Enquanto o primeiro título contava com o desenvolvimento da Platinum, o segundo foi desenvolvido pela High Voltage Software, que trabalhava com ports e adaptações para games de animações da Nickelodeon e dos primeiros filmes da Marvel. The Conduit seria então um grande passo para o estúdio: um FPS exclusivo, que provasse o valor do Wii Remote em um gênero considerado mais “adulto” e que exibisse gráficos dignos da ação proposta. Apesar da boa recepção, o resultado final acabou por pesar mais para o lado dos defeitos do que propriamente das consistências.

A High Voltage ouviu as críticas e retrabalhou o material, preparando uma sequência que prometia não apenas corrigir os erros, mas tornar-se o shooter definitivo do console. O título perdeu o artigo “The” e foi lançado como Conduit 2 em 19 de abril de 2011. Assim como seu antecessor, foi um exclusivo do Wii. E o estúdio de fato entregou um produto melhor, porém não livre de problemas.

O mundo de Conduit

O primeiro jogo se passava em um futuro não muito distante, no qual um vírus chamado “The Bug” assolou a capital dos Estados Unidos, Washington, DC. Os locais de alta segurança foram abandonados para evitar o contágio da doença, e então ocorreram ataques terroristas que vitimaram um dos candidatos à presidência.


A organização secreta Trust descobre que a capital está sendo atacada por uma raça alienígena conhecida como Drudge através do conduit, um portal usado para a invasão. O agente secreto Michael Ford é enviado para combater os invasores e descobre membros traidores dentro da Trust que apoiam essa tragédia.

Conduit 2 se inicia imediatamente após os eventos anteriores, com Ford despertando após ter escapado de uma explosão durante sua perseguição a John Adams, o grande vilão da trama. Ainda recuperando a consciência, Michael acaba caindo em uma emboscada, tendo de enfrentar novas criaturas e salvar a humanidade do ataque alienígena.

Há muito espaço para Michael Ford viajar, armamentos para descobrir e uma quantidade absurda de inimigos para derrotar. A ação começa em uma plataforma de petróleo no Triângulo das Bermudas, segue para instalações localizadas no fundo do oceano e, a partir daí, inicia-se uma turnê mundial que inclui passagens pela China, Sibéria e até a Amazônia.

O argumento passou por um tratamento que lhe conferiu uma cara de filme B de ficção científica. Isso significa que há muita ação, mas pontuada por alguns momentos de humor, parodiando algumas situações tipicamente clichês do gênero FPS.

O roteiro se propõe a não ser levado tão a sério. A história de fundo se utiliza de uma teoria da conspiração que acredita que os relatos de divindades antigas, como as sumérias, são na verdade prova de que extraterrestres estão no planeta há milênios, controlando e influenciando secretamente os governos. Toda essa mistura é difícil de acompanhar, mas apresenta bons momentos.

Uma sequência maior e melhor

O jogo usa o motor gráfico Quantum3, projetado pela High Voltage Software especificamente para o Wii durante a produção do primeiro título. Em Conduit 2, os desenvolvedores puderam se dedicar ao design, utilizando esta engine para a implementação de efeitos como mapeamento de relevo, reflexão e refração, e mapeamento de brilho. O esforço resultou em belos gráficos, que ainda contam com uma excelente direção de arte, capaz de convencer tanto com um horizonte congelado quanto com o interior de um monstrengo cibernético.

Além do visual, o jogo ganhou diversas melhorias. Agora é possível virar objetos como mesas, estantes de livros e máquinas de refrigerante para usar como cobertura e atirar em armaduras e capacetes inimigos para expor os pontos fracos. Um botão de sprint foi adicionado para permitir que os jogadores carreguem ou fujam dos oponentes.

O design dos estágios foi aprimorado, sendo menos baseado em "corredores" e com vários caminhos para explorar. A história agora se desdobra durante a campanha por meio de sequências em vez de caixas de texto como no anterior. Conduit 2 também aumentou sua campanha em relação ao primeiro game: pulou de 9 para 16 missões, com uma duração estimada de 6 a 8 horas.

A IA foi aprimorada; para que pareçam mais realistas, os inimigos conversam entre si quando não estão cientes da presença dos jogadores e possuem armas aleatórias, o que afeta seu comportamento. Por exemplo: um adversário com uma espingarda tentará correr até o jogador para atirar nele de perto, enquanto outro com um rifle ficará para trás e atirará de longe.

O comportamento também varia dependendo de qual arma o jogador está utilizando. Para citar outro exemplo, os inimigos tentam procurar jogadores que se disfarçaram com o rifle ARC Eclipse e mergulham para fora do caminho das granadas de fragmentação. Conduit 2 possui 23 tipos de oponentes, enquanto o primeiro jogo apresentava 14 variações.

No início dos níveis, os jogadores podem escolher seus carregamentos de armas e personalizar a aparência de seus personagens e upgrades de habilidade. É possível também andar em veículos e atirar com eles.

São 21 armas, com adições como o Aegis Device, que captura tiros disparados por oponentes e em seguida dispara a munição de volta para eles; uma torre móvel que pode ser recolhida e movida para diferentes partes de um nível e ativada remotamente por trás da cobertura; ou o Rifle de Fase, que é capaz de disparar através de paredes. Das várias armas e dispositivos do primeiro jogo que retornaram aprimorados, o principal é o Olho Que Tudo Vê (ou ASE), usado ​​para escanear objetos, realizar registros de dados, gerar campos de força e descobrir armadilhas ocultas e desbloqueáveis.

Com a faca e o queijo na mão

A proposta por trás do ASE (do inglês "All Seeing Eye") é interessante, conferindo uma variação de jogabilidade através da mecânica de puzzles. No entanto, a peça está longe de ser relevante. A sua utilização, que depende de apenas um botão, peca pela obviedade. Não é muito difícil deduzir onde estão as armadilhas, fazendo com que o Olho Que Tudo Vê tenha mais um efeito estético do que prático. A ideia de acrescentar uma dimensão de puzzle ao jogo, portanto, acabou falhando.

Um aspecto bem menos problemático é a jogabilidade. Afinal, todo o cuidado e apuro técnico que a High Voltage teve de nada valeriam se os controles fossem falhos. Conduit 2 utiliza o acessório Wii MotionPlus para oferecer uma melhor experiência e precisão nos movimentos. Apesar disso, ainda há uma certa instabilidade, fazendo com que os processos de pontaria, ataque e defesa e fuga não decorram de forma tão natural quanto seria de se esperar. De qualquer forma, jogadores que tiverem dificuldade de se adaptar a esta configuração contam com a alternativa mais tradicional, graças ao suporte tanto ao Classic Controller quanto ao Classic Controller Pro.

Em um cenário caótico abarrotado de títulos pouco responsivos, em que boa parte utiliza de forma dúbia as possibilidades do Wii, é realmente revigorante encontrar algo do naipe de Conduit 2. Entretanto, vale guardar as devidas proporções aqui. Embora funcione muito bem em sua proposta, a recriação da High Voltage Software não necessariamente acrescenta algo ao estilo FPS como um todo.

De fato, não há nada aqui que já não possa ser encontrado em outros jogos do gênero — Há, na verdade, uma profusão do que se poderia chamar de “clichês bem-construídos”. Menos divertido por isso? Não necessariamente.

Embora o resultado não propriamente surpreenda, é perfeitamente possível garantir algumas boas horas de diversão com o game, ainda mais com as diferentes opções de modos de jogo. Além da campanha single player, o título apresenta multiplayer em tela dividida para quatro jogadores com modos offline e online. O modo Bounty Hunter voltou do primeiro Conduit, assim como um novo co-op que apresenta o Modo Invasão, no qual os jogadores combatem ondas de inimigos no mesmo console em modo de tela dividida.

Conduit 2 permite que até 12 jogadores lutem online e foi um dos primeiros títulos do Wii a suportar o PDP Headbanger Headset, que permite bate-papo por voz entre os jogadores sem a necessidade de troca de Friend Codes. Ele também conta com um Rival System, no qual um jogador pode enviar solicitações a outros jogadores no lobby para adicionar à sua lista de rivais, podendo listar até 96 amigos. No total, o multiplayer possui 12 mapas e 14 modos de jogo.

Muitas das novidades e melhorias foram implementadas graças ao fato da High Voltage Software ter ouvido o feedback dos fãs sobre quais recursos eles queriam ver no jogo. Recursos como tela dividida, rifles de precisão e personagens femininos foram colocados a pedido dos fãs.

Em uma tentativa de melhorar a história, foram contratados os escritores Matt Forbeck,que tem uma carreira escrevendo campanhas de RPG, e Jason Blair, roteirista de Borderlands. A dublagem também sofreu alterações: o agente Michael Ford agora é dublado por Jon St. John, mais conhecido por ser a voz de Duke Nukem.

Os esforços empregados em Conduit 2 foram reconhecidos pelo público e pela crítica na época do seu lançamento. Com uma média de 64 pontos no Metacritic, os visuais e o esmero dos desenvolvedores são unanimidade enquanto pontos positivos. Por outro lado, a pouca originalidade puxou as notas para baixo. A crítica do site Joystiq, em especial, causou controvérsia.

O analista Michael T. Murdock deu nota 1/5 para o game, o que irritou a High Voltage. Um funcionário da empresa, Matt Corso, passou uma comunicação interna para o time incentivando que eles "retribuíssem o favor" e avaliassem o livro de Murdock que estava à venda na Amazon. Eric Nofsinger, chefe da desenvolvedora, teve que vir a público para se desculpar pelo ocorrido.

Conduit 2 talvez não seja o FPS mais surpreendente que você já viu, bem como também não traz a história mais original do gênero. Mesmo assim, não deixa de ser uma surpresa agradável quando se considera o pedregoso terreno dos títulos third party do Wii. Essa sequência é uma experiência significativamente melhorada perante o jogo anterior e, embora não apresente grandes novidades, é uma opção consistente e que garante um lugar ao lado de títulos como GoldenEye 007 (N64) ou Call of Duty (Multi).

Revisão: Davi Sousa

Nascido no mesmo dia que Manoel Bandeira (mas com alguns anos de distância), perdido em Angra dos Reis (dos pobres e dos bobos da corte também), sob a influência da MPB, do rock e de coisas esquisitas como a Björk. Professor de história, acostumado a estar à margem de tudo e de todos por ser fora de moda. Gamer velho de guerra, comecei no Atari e até hoje não largo os mascotes - antes rivais - Mario e Sonic.


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