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Análise: DC Super Hero Girls: Teen Power (Switch) acerta em alguns pontos, porém perde outras oportunidades

O jogo baseado no desenho homônimo até que surpreende, mas peca pela simplicidade.


Sendo provavelmente o jogo publicado pela Nintendo menos esperado de 2021, DC Super Hero Girls: Teen Power dificilmente irá chamar a atenção de muitos jogadores — ou, pelo menos, não muito do público mais velho.

Baseado no desenho de mesmo nome, o game acompanha as versões colegiais de algumas heroínas clássicas do universo DC, mais especificamente: Batgirl, Supergirl, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, Bumblebee e Zatanna. Além disso, o grupo de vilãs composto por Arlequina, Mulher Gato, Safira Estrela, Giganta, Hera Venenosa e Livewire também recebe bastante atenção durante a trama.

O título segue o formato clássico de jogo de super-herói de mundo aberto iniciado por Spider-Man 2 (GameCube) e que continua popular até hoje. O tom, no entanto, é bem diferente. DC Super Hero Girls é um game definitivamente voltado para crianças, mas ele não deixa de trazer uma experiência concisa para o jogador, inclusive surpreendendo em alguns pontos. Não se engane, a aventura não chega a ser profunda o suficiente para ser imperdível para qualquer um, apenas mantém um certo nível de qualidade para o seu público alvo.

Garotas adolescentes heroínas (e vilãs) da DC

Antes de começar a jogar DC Super Hero Girls, eu não tinha qualquer conhecimento sobre o desenho no qual o título é inspirado. Sinceramente, levando em consideração as cutscenes do próprio jogo, eu não esperava muita coisa. As personagens no game parecem um tanto plásticas e superficiais demais nos momentos mais focados na história. Tudo acontece muito rápido e as relações já começam totalmente estabelecidas, então é difícil realmente se conectar com as heroínas.

Após assistir três ou quatro dos curtos episódios disponíveis no Netflix, para a minha surpresa, achei a animação até que bem engraçada e divertida. Primeiramente, é muito mais fácil se importar com esses personagens quando você sabe como tudo começou. Barbara Gordon, a Batgirl, mais conhecida como Babs, se muda para Metrópolis e logo descobre um grupo de garotas com super poderes na sua escola. Então, a chegada da Mulher Maravilha, já experiente no combate ao crime, cria a oportunidade perfeita para que elas aprendam juntas como agir como heroínas de verdade.


As cinco personalidades bastante distintas das garotas criam situações inusitadas e estabelecem uma boa dinâmica entre o grupo que, apesar das diferenças, decide permanecer unido. Babs é a protagonista empolgada em ser uma grande super heroína, Mulher Maravilha é bastante séria e totalmente alheia ao mundo moderno, Supergirl é durona e um tanto ranzinza, a Lanterna Verde é tranquila, Bumblebee é medrosa e Zatanna é vaidosa. O maior ponto forte da série são esses personagens e suas interações, algo que infelizmente não é muito bem trabalhado na narrativa e no progresso do jogo.

A história segue uma trama bastante simples em que o vilão conhecido como Toyman solta uma enorme quantidade de brinquedos robóticos (e malignos) por toda cidade. A ameaça parece estar ligada ao plano de revitalização de uma área abandonada da cidade, Hob’s Bay, instaurado por Lex Luthor e sua grande corporação, a Lexcorp. Toda vez que um novo prédio está para ser inaugurado, os misteriosos brinquedos aparecem para causar o terror — o que logo chama a atenção não só das heroínas, mas também do grupo de vilãs.


É interessante poder jogar também com a equipe rival das protagonistas, porém o número final de personagens jogáveis deixa bastante a desejar. Embora esse seja um jogo das DC Super Hero Girls, apenas três membros do grupo principal podem ser controlados no game: Babs, Mulher Maravilha e Supergirl. De maneira similar, somente três vilãs estão disponíveis: Arlequina, Safira Estrela e Mulher Gato.

Levando em conta o sistema de combate estilo beat ‘em up simples e limitado do título, é triste pensar que metade do elenco de personagens foi cortado. Ao iniciar a história, a minha maior expectativa em relação ao game era justamente poder jogar com várias heroínas diferentes. Imagino que para a criançada isso seja ainda mais frustrante, já que geralmente o apego a um personagem específico é bem maior. Fãs da Lanterna Verde, Bumblebee e Zatanna, assim como de Livewire, Giganta e Hera Venenosa terão que se contentar em ver seus personagens favoritos apenas como um NPC.

Combates simples demais para uma super heroína

Inicialmente, parece que os confrontos possuem algumas camadas e um certo espaço para desafio e experimentação, mas esse não é bem o caso. Começando pela movimentação, personagens distintos possuem mecânicas diferentes. Supergirl, por exemplo, pode voar livremente pelo ar. Batgirl, por sua vez, pode planar e usar um wall jump, enquanto Mulher Maravilha não possui muita autonomia no ar, mas consegue pular bastante alto. É ótimo que cada heroína (e vilã também) tenha sua maneira única de se movimentar e lutar, no entanto o resultado final do gameplay não é dos melhores.

Na batalha, cada personagem tem a sua própria habilidade auxiliar do botão X (geralmente algo simples como lançar um escudo ou agarrar um carro) e dois ataques especiais que carregam ao longo do tempo, vinculados aos botões R e ZR. A variedade dessas habilidades até que é grande, o problema é que nenhuma é realmente efetiva em combate, ou, pior ainda, acaba se tornando menos útil graças ao longo tempo de carregamento.


Tudo acaba se resumindo ao pressionar do botão Y, que é responsável pelo combo básico dos ataques físicos. Por mais que existam outras opções de combate, o jeito mais rápido de lidar com 95% das batalhas é simplesmente apertar o Y várias vezes seguidas. Durante o confronto, as “correntes de combos” aumentam gradualmente o dano causado nos inimigos, algo que realmente incentiva essa prática de usar os ataques básicos incessantemente.

O maior problema é que, no final das contas, os combates são basicamente essa mesma sequência de socos. Você nunca desbloqueia novos combos, por exemplo, ou consegue alterar de alguma forma o jeito que os ataques acontecem. Não há um segundo botão de ataque físico para variar as possibilidades, e os ataques especiais não conseguem integrar os combos de uma forma fluida e efetiva. Se pelo menos existisse a opção para trocar rapidamente de personagem durante a batalha, ou, ainda melhor, alguma forma de criar combos interativos entre as heroínas, a experiência certamente seria mais ativa e divertida.


Por fim, a última ação possível durante as batalhas é igualmente frustrante: a esquiva. O botão A é reservado para que as garotas esquivem dos ataques inimigos, que geralmente são telegrafados de alguma forma, porém a função também peca pela falta de fluidez. 

Embora o game peça que você ataque de forma constante, é impossível fazer isso e ainda conseguir esquivar rapidamente, como seria na maioria dos jogos de ação competentes. A esquiva pede por uma janela de “não-movimento” do seu personagem que acaba com o fluxo do combate. É preciso estar fora de uma animação de ataque para esquivar, e esse tempo de espera entre o fim de um ataque e o começo da animação de esquiva destrói completamente o ritmo da batalha. Ou melhor, você precisa parar de atacar conscientemente antes de pensar em esquivar.

A exploração e reconstrução de Metropolis

O verdadeiro trunfo de DC Super Hero Girls reside não nos pouco interativos momentos de batalha, mas sim na exploração da cidade de Metropolis. A trama do jogo em si é bastante curta e terminar a história é uma tarefa simples. No entanto, há uma impressionante quantidade de side quests e colecionáveis espalhados pelas duas grandes áreas totalmente abertas para exploração.

Grande parte do foco da jogabilidade é na câmera da sua personagem e no Instagram fake de cada heroína. É possível tirar selfies ou fotos de vários ângulos e com poses diferentes de qualquer canto da cidade para postar no Superstapost. Postar várias fotografias faz com que seu número de seguidores aumente, algo que gradualmente destrava uma série de side quests pela cidade. Assim como na vida real, prepare-se para receber notificações constantes do seu celular durante os segmentos de exploração do jogo — o que com certeza é um pouco irritante, mas que também pode ser desligado à vontade.


Tirar fotos de pontos de interesse aleatórios irá ajudá-lo a ganhar mais seguidores normalmente, mas se você quiser explodir em popularidade de forma rápida no Supersta o jeito é prestar atenção no que os habitantes da cidade estão falando. Essa é uma mecânica bem interessante que adiciona um certo grau de vida à cidade e ao mundo do jogo. Basicamente, de tempos em tempos as pessoas ao seu redor irão comentar o que está bombando em relação a temas fotográficos. Seja fotos de postes ou de caminhões, isso não importa, o importante é postar várias fotos e ver seu número de seguidores decolar.

A câmera também é a protagonista de uma das principais side quests do jogo: tirar fotos das logos das heroínas/vilãs grafitadas ao redor da cidade. A quantidade de logos para procurar é enorme e os locais onde elas estão conseguem ser bastante inusitados e criativos em alguns momentos. As logos aparecem em todos os tamanhos e em vários lugares. Vale procurar em todo lado, desde atrás de objetos até paredes ao longe que nem são normalmente acessíveis pelo seu personagem.


Explorar a cidade atrás desse tipo de coisa é de longe a melhor parte de DC Super Hero Girls. Além das logos, você sempre pode ir atrás dos vários hamsters normais e dourados espalhados por aí. Tarefa que não é nada simples de completar, principalmente em relação aos dourados. Após terminar o jogo e explorar, acredito eu, um bom pedaço do cenário, eu não achei nenhum hamster dourado. Encontrei vários hamsters normais nos cantinhos mais inusitados, mas nem ao menos um da versão de ouro. Imagino que eles estejam realmente muito bem escondidos — ou em lugares tão óbvios que acabam se mesclando ao ambiente.

Além do que foi citado acima, andando pela cidade você sempre pode comprar novas roupas para heroínas, fazer uma das várias side quests de batalha, uma missão mais específica para ganhar alguma nova pose de fotografia ou até para ganhar alguns pontos para melhorar os seus personagens. Também é possível reconstruir parte da cidade aos poucos, gastando moedas para escolher entre uma lista de prédios destráveis, que podem ser tanto decorativos quanto funcionais, como uma nova loja de roupas. A variedade é boa para um jogo licenciado do tipo e vai ocupar bastante quem realmente quer acumular algumas horas no jogo. 

O único problema é que você é limitado a andar pela cidade com roupas "civis", sem nenhum acesso aos seus superpoderes ou habilidades especiais. Todos os segmentos de combate acontecem em uma "bolha" que esvazia a cidade de todos seus habitantes e, de repente, só existem os monstros e obstáculos. O resultado é uma movimentação limitada e um tanto sem graça enquanto você explora, mas bastante livre durante as batalhas. É possível literalmente voar com alguns personagens no meio de um combate, mas fora desses momentos é difícil até pular em uma caixa um pouco mais alta. Teria sido muito mais divertido poder usar e abusar dos seus poderes fora dos confrontos também.

Um jogo pouco memorável, mas competente o bastante

DC Super Hero Girls não é um jogo ruim como um todo. Visualmente ele é bastante agradável, com um cel shading vívido e bem similar ao visual do desenho original. Já na questão do som, o game não chama atenção nem positiva nem negativamente, o que na verdade pode ser considerado um ponto muito positivo. Quando falamos de jogos licenciados, se os sons e a trilha sonora não incomodam, isso já pode ser considerado uma vitória.

Definitivamente esse é um produto feito com um público alvo em mente, no caso, crianças. No entanto, acho difícil perdoar as falhas de um videogame apenas por causa desse fato. Afinal, o que é um jogo para crianças? A verdade é que vários dos melhores jogos de todos os tempos foram feitos exatamente com esse público alvo em mente. Essencialmente, 90% dos jogos de videogame são para crianças de uma forma ou de outra. O fator que pode limitar o potencial de DC Super Hero Girls é outro: a sua licença.


É uma prática normal da indústria se aproveitar de uma licença popular vendável, principalmente voltada para crianças, como um desenho animado, um filme ou uma história em quadrinhos e criar diversos produtos relacionados a isso. Jogos de videogame não ficam de fora dessa tendência que, infelizmente, na maioria das vezes tende a gerar produtos de qualidade questionável.

Eu já fui criança e quis jogar vários jogos aleatórios e malfeitos de desenhos que eu gostava. Naquela época, na falta de acesso à informação rápida nos idos anos 90, era consideravelmente mais difícil saber o que era bom ou ruim em relação a videogames. No entanto, é normal uma criança querer jogar um jogo estrelando personagens que ela gosta e se identifica. Isso aconteceu comigo e tenho certeza que acontece até os dias de hoje. Para muitas crianças fãs do desenho DC Super Hero Girls, jogar esse game no Switch vai parecer uma ideia fantástica.

Ao mesmo tempo que jogar o título tenha me lembrado de experiências em jogos mais genéricos da era do PlayStation, eu também fui surpreendido em alguns momentos. Acredito que, em certos aspectos, DC Super Hero Girls consegue sim ir além do estigma do jogo licenciado e mostra sua própria personalidade. Quem não gosta do desenho provavelmente não precisa dar uma chance ao game, mas se porventura você acabar jogando mesmo assim, talvez até seja divertido. 


DC Super Hero Girls: Teen Power é, antes de tudo, um subproduto do desenho que leva o mesmo nome. Se você ou o seu filho são super fãs do material original, não é difícil apreciar bastante o que foi feito aqui. Se esse não for o caso, não existe um bom motivo para você sair do seu caminho e jogar o game, mas jogá-lo também não seria tão ruim assim. Embora a história seja simples e o combate um pouco truncado, a exploração em mundo aberto da cidade e a quantidade de conteúdo adicional surpreendem e entretêm o bastante. Em geral, o título termina no meio do caminho, porém, para um jogo licenciado sem muitas expectativas, o resultado tende para o positivo.

Prós

  • Visual maneiro condizente com o desenho original;
  • Exploração em mundo aberto feita de forma competente;
  • Uma boa quantidade de side quests e colecionáveis.

Contras

  • Combate simples e um pouco travado;
  • História rasa que não aproveita bem o carisma e as interações dos personagens do desenho;
  • Pequena quantidade de personagens jogáveis.
  • Algumas escolhas equivocadas e oportunidades perdidas em relação ao game design.
DC Super Hero Girls: Teen Power - Nintendo Switch - Nota: 6.0
Revisão: Icaro Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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