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Análise: Miitopia (Switch) é um divertido passatempo com um tempero de RPG

Este híbrido de RPG com simulador peca na profundidade, mas oferece alguns momentos engraçados.


Mesmo que você ame ou odeie o conceito dos avatares personalizados da Nintendo, é impossível contestar o impacto cultural dos Miis. Em sua simplicidade e inegável carisma, os personagens ajudaram a moldar a era Wii desde o início e se mantiveram relevantes por um bom número de anos, marcando presença tanto no Wii U quanto no 3DS.

Após uma série de títulos focados em uma variedade de mini-games, como Wii Sports, Wii Sports Resort, Wii Party e até Wii Music, os Miis decidiram tomar outro rumo nos jogos de 3DS. Tomodachi Life e Miitopia, lançados respectivamente em 2013 e 2016, aproveitaram o aspecto social dos avatares da Nintendo e apostaram no gênero de simulação, focando mais na interação entre os personagens do que em qualquer outra coisa.

Enquanto Tomodachi Life levou a simulação ao extremo, Miitopia apareceu posteriormente para unir essa ideia inicial com elementos de um RPG. Além de colocar seus amigos e personagens favoritos para interagir, por que não fazer isso durante uma épica aventura? Agora, em 2021, a Nintendo escolheu Miitopia para ressuscitar o conceito dos Miis no imaginário popular e trazê-los com estilo ao Switch. Será que a tentativa deu certo?

A nova ferramenta de criação de Miis

Já de início, é fácil perceber que o maior apelo de Miitopia é a revitalizada que ele deu no já bastante arcaico sistema de criação de Miis. Escondido por trás de alguns menus do Switch, para quem não sabe ou não lembra, é possível encontrar o mesmo criador de Miis que teve início no Wii e que persiste até os dias de hoje. Essa ferramenta continua exatamente a mesma e ainda é utilizada como a “base” dos seus personagens, mas o jogo adicionou duas significativas camadas extras de possibilidades às suas criações: perucas e maquiagem.

As perucas aparecem em forma de madeixas opcionais muito mais modernas (e mais anime) do que os velhos cabelos dos Miis. Já as maquiagens, essas sim abrem um enorme mundo de possibilidades. O posicionamento estratégico das diversas formas em vários locais do rosto dos bonecos permite o surgimento de criações nunca antes vistas. Os Miis nunca foram tão bem-feitos assim, já que, com paciência o bastante, é possível desenhar praticamente o que você quiser no rosto dos avatares.


Além disso, nunca foi tão fácil compartilhar Miis com outras pessoas. Não só suas próprias criações, mas todos os Miis que você favoritar online irão aparecer na sua coleção de avatares, que é conectada a um número específico só seu. Da mesma forma, você pode acessar números de outras pessoas pelo menu do jogo e explorar infinitas galerias de Miis, ainda que os mais populares se repitam bastante entre os catálogos. 

Usar as novas ferramentas para inventar Miis ainda mais interessantes, buscar criações inusitadas pela internet e povoar o mundo de Miitopia com NPCs e protagonistas como Shrek, Brock, Sonic e Ronald McDonald é o âmago da experiência do game. É um tanto engraçado que, antes mesmo da aventura de fato começar, esse jogo seja tão importante e gratificante — além de ser, até certo ponto, de graça, devido à demo disponível na eShop. 


Chegamos então ao ponto mais curioso de Miitopia. A maioria das pessoas já entende que o primeiro passo, o da customização, é interessante o suficiente. No entanto, como será que o gameplay é sustentado quando vamos além dos rostos engraçados e inusitados dos personagens? O resultado é um mix até bastante criativo de simulador e RPG, que em muitos momentos se assemelha a um idle game.

Um RPG diferente

Miitopia justifica sua existência mais para um público casual que aprecia jogos como The Sims ou Animal Crossing do que para veteranos do gênero RPG. Claro que é totalmente possível que alguns jogadores se encaixem nos dois públicos, porém o lado RPG da experiência sempre será decepcionante para aqueles que esperam mais desafio e engajamento do gênero.

A verdade é que a jogabilidade em si é simples ao extremo, mas isso não quer dizer que o título não seja divertido ou que você não vai querer jogá-lo. O maior problema está na natureza indubitavelmente portátil do gameplay, feito para sessões rápidas e esporádicas de jogatina, no estilo pick up and play. O loop da jogabilidade é extremamente repetitivo e o jogo sabe perfeitamente disso, tanto que, mais ou menos a cada 20 minutos, o próprio game pergunta se você pretende continuar jogando.


Antes de falar mais desse loop, é importante ilustrar como funcionam a história e o mundo de Miitopia. Você, o protagonista, representado pelo seu Mii favorito, caminha sem rumo até uma pequena cidade. Chegando lá, e depois de você escolher o elenco de Miis para cada papel do vilarejo, um ser maligno conhecido apenas como Dark Lord (Senhor das Trevas) decide roubar os rostos de alguns dos habitantes do lugar.

Roubar rostos é uma mecânica que definitivamente combina bem com toda a premissa do jogo, já que a única parte que você realmente customiza de cada Mii é a face. Então, não só você poderá ver a cara do Obama no prefeito da cidade, por exemplo, como também eventualmente irá vê-la no rosto de algum monstro bizarro. 

Você logo parte em uma aventura para salvar os rostos capturados, que aumentam gradualmente em quantidade ao longo da campanha, e salvar o mundo das garras do Dark Lord. O método para resolver esse problema é derrotar os vários monstros espalhados por aí por meio de combates por turnos, como esperado de um RPG. Você escolhe entre uma das classes clássicas do gênero e algumas totalmente aleatórias, como Gato ou Pop Star, e aumenta de nível após cada batalha normalmente, aprendendo magias e comprando equipamentos de tempos em tempos. Talvez o maior auxílio durante os combates, no entanto, seja os benefícios passivos recebidos graças ao nível de afeto dos Miis. 

O grande diferencial de Miitopia é essa questão das relações entre os membros do grupo. Até três outros Miis escolhidos por você (e um cavalo) entram na sua equipe para ajudá-lo e desenvolvem uma amizade mútua aos poucos durante a árdua missão. De repente, é possível perceber que o foco de todo o jogo é gerenciar as interações entre os Miis de forma bastante passiva. As batalhas não são nada difíceis, e nunca serão.


Você controla apenas o seu personagem, ficando à mercê das escolhas questionáveis da IA em muitos momentos, mas não tem problema. Há uma grande quantidade de itens e magias de cura e, se a situação apertar em algum momento, é possível parar a confusão e tirar os Miis do combate para uma área segura, ou até curar o HP e o MP de todos eles à vontade usando Sprinkles (basicamente “saleiros” mágicos).

Também nunca será realmente necessário se preocupar com a quantidade total dos Sprinkles, ou com o gerenciamento do HP e MP dos personagens. Cada ponto no mapa representa um trecho em que seus Miis caminham automaticamente por um mesmo background em direção ao próximo ponto. Após duas ou três batalhas, e às vezes algum evento aleatório como um baú no caminho ou uma conversa sem noção dos personagens, eles sempre voltam diretamente para um Inn (ou Pousada) para descansar. 


Na verdade, grande parte do jogo acontece no Inn. É lá que você vai alimentar seus Miis para aumentar os atributos deles, como HP, MP, ataque e defesa. É possível ainda mandá-los comprar itens e assistir interações entre eles, além de levá-los a encontros bastante casuais em locais como cinema, karaokê e no parque, mesmo que você esteja no meio de uma dungeon isolada do mundo. Também é aqui que você pode jogar mini-games bem simples de roleta e pedra-papel-tesoura para tentar ganhar alguns itens. Por fim, acredite, você vai passar mais tempo nessa localidade do que em qualquer outro lugar — e, infelizmente, isso cansa após algum tempo.

Em jogatinas mais longas de Miitopia, você se vê diversas vezes no mesmo loop de fazer batalhas, voltar ao Inn e seguir em frente. Então, logo depois, mais algumas batalhas e mais um pouco de Inn... até que, de repente, o jogo irá perguntar se você quer continuar jogando e a pergunta parecerá muito válida. “Será que eu quero continuar jogando, afinal?”


No começo, sim, você provavelmente irá continuar jogando durante bastante tempo. O loop é viciante assim como o de um jogo mobile, em que você recebe pequenas recompensas em um ritmo constante; no caso, elementos como itens inéditos para seus Miis ou habilidades e feitiços novos. No entanto, a personalidade cativante de Miitopia faz a sua vontade de seguir em frente ir um pouco além do prazer imediato das recompensas.

O combate é fácil, porém visualmente interessante o bastante para manter sua atenção. As interações com os Miis são um tanto rasas e aleatórias, mas divertidas e inusitadas o suficiente para deixar um gostinho de “quero mais”. Então, de repente, você chega em um local inexplorado e é necessário escolher um novo elenco de Miis para cada morador maluco daquela cidade — e essa é a parte mais divertida do game, com toda certeza.


Chega um ponto em que sua equipe está poderosa demais e os confrontos ficam ainda mais fáceis, e é aqui que o gameplay começa a se desgastar com força. Uma solução, entretanto, aparece logo em seguida: o Dark Lord rouba seus aliados e retira sua classe e toda sua experiência de uma hora para a outra.

Isso acontece algumas vezes e é como se o game começasse do zero — algo que com certeza parece chato no papel, mas que aqui significa uma ótima oportunidade de experimentar novas classes, novas personalidades para os Miis e, bom… escolher novos Miis para o seu grupo. 


O desgaste ainda existe e sempre será preferível curtir Miitopia em porções menores. No entanto, o game consegue encontrar um ritmo saudável para uma fórmula bastante limitada. Em pouco tempo, você sente que já viu a maior parte do que o jogo tem a oferecer, em questão de interações entre os Miis, mecânicas e coisas para fazer. Por sorte, isso nunca se concretiza 100% e é possível ser surpreendido por pequenas mudanças e variações na fórmula até o final da história — só tenha em mente que, em vários momentos, há sim bastante repetição.

Charmoso e peculiar, ainda que repetitivo

Basicamente, é cansativo jogar Miitopia por longos períodos; porém, esse é um mundo onde é muito divertido passar um tempo. Alguns diálogos e interações são realmente bem engraçados, principalmente vindo da boca de certos Miis específicos. Dependendo das suas escolhas, o game pode ser muito fofo ou muito estranho, mas é certo que ele sempre será leve e bem-humorado. 


De modo geral, a apresentação é fantástica. Acompanhando o humor dos Miis que habitam esse mundo, o jogo é cheio de cores em todos os seus aspectos. Visualmente, é fácil apreciar as belas ilustrações das telas de transição, assim como as exageradas animações e expressões dos personagens. Os menus e os cenários podem ser um tanto simples, mas isso parece colocar ainda mais ênfase no fato de que os Miis que são as estrelas e o foco constante de atenção. 

A parte sonora é especialmente interessante, tanto pela rica quantidade de músicas originais quanto pela alta qualidade dos efeitos sonoros. Enquanto os menus são um tanto insossos, todos os barulhos que os rodeiam compensam a falta de graça pelos seus tons tão únicos.

Cada barulhinho soa com muita personalidade, desde sons simples como confirmações de escolhas até efeitos sonoros mais complexos, como ataques, magias ou as reações dos Miis. A trilha sonora não é ruim, mas não consegue chamar tanta atenção quanto o mundo criado pelos barulhos da atmosfera do game.


Quanto ao conteúdo, mesmo com sua fórmula um tanto repetitiva, Miitopia pelo menos não deixa de oferecer bastante variedade ao jogador que quiser completar/coletar tudo que há no jogo. A quantidade de itens, separados em armas e armaduras para cada uma das classes, é exorbitante, por exemplo. Da mesma maneira, achievements em forma de medalhas alcançam as centenas em número. Rotas alternativas e sidequests também conseguirão manter a pessoa mais dedicada a atingir a completude do conteúdo bastante ocupada por um tempo.

Em relação às diferenças do título original de 3DS para essa nova versão, elas não são tantas ou tão significativas, porém oferecem uma quantidade agradável de variedade. Dentro da ferramenta de criação de Miis, como já foi citado antes, as maquiagens e perucas acrescentam uma enorme variedade à experiência como um todo. Já durante o gameplay, a adição mais significativa é o quinto membro permanente da sua party, o cavalo, que você também pode customizar à vontade. O bichinho é simpático e oferece algumas cenas exclusivas, além de ajudar no combate, mas nada muito além disso.


Tirando a diferença mais óbvia na nova versão do Switch, que é a habilidade de experimentar o game em HD e em uma televisão, outra adição significativa foram os Outings. Esses eventos são encontros, ou "dates", nos quais os Miis podem sair juntos e aumentar a força da sua relação mais rapidamente. Essa aceleração provocada pelos Outings acaba deixando o jogo ainda mais fácil, no entanto, já que os laços fortes entre os Miis oferecem uma série de benefícios passivos durante as batalhas, na forma de vários auxílios de ataque, defesa e suporte.

Concluindo o ponto da dificuldade, talvez esse seja o aspecto mais decepcionante do título. É compreensível que a parte RPG não seja realmente o foco, mas a falta de controle nas decisões da sua equipe e o baixo nível de desafio dos combates retiram muito do potencial do jogo de ser algo mais. Existe pouquíssima estratégia durante os confrontos e quase nada que você ativamente pode fazer ou decidir. A simples opção de controlar os seus parceiros, ou pelo menos decidir o padrão dos seus comportamentos, beneficiaria muito a experiência. 


Miitopia é certamente um jogo peculiar. A simplicidade dos seus sistemas e a constante repetição do seu gameplay poderiam facilmente fazer com que ele fosse apenas maçante e cansativo. No entanto, o carisma e o coração do game conseguem transformar essa fórmula em uma experiência por vezes viciante — se consumida com moderação, é claro. Se você esquecer um pouco o lado RPG e aceitar Miitopia como um passatempo de simulação mais lento e descomplicado, é fácil dar umas boas risadas e se divertir bastante.

Prós

  • Ótimo modo de criação de Miis;
  • Apresentação excelente;
  • Viciante quando jogado no ritmo certo;
  • Engraçado e divertido do começo ao fim.

Contras

  • Dificuldade particularmente baixa;
  • Sua fórmula repetitiva pode cansar rápido em sessões mais longas;
  • Elementos de RPG bastante simples e pouco aprofundados.
Miitopia - Nintendo Switch - Nota: 7.5
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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