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Análise: Flatland Vol.2 (Switch) ensina resiliência com muito estilo

Um jogo de plataforma dificílimo, mas que não chega a ser injusto.



Nietzsche escreveu que enfrentar o sofrimento nos torna mais fortes. Enquanto existe uma tendência comum de fugir daquilo que nos desagrada, o filósofo alemão propunha que nos lançássemos para a vida sem medo da derrota ou da dor, por isso nos faria dar maior valor à existência, aproveitando o que ela tem de melhor. Os desenvolvedores de Flatland Vol. 2, publicado pela brasileira QUByte Interactive, parecem ser adeptos desses ensinamentos. Nesse jogo de plataforma com ritmo intenso e música marcante, perder, repetir, falhar e insistir são palavras comuns e necessárias. No entanto, eles conseguiram fazer tudo isso sem desestimular o jogador.

Corra, pule, fuja

Flatland Vol.2, como o próprio nome sugere, é a continuação de um game lançado em 2019. Mantendo a essência do predecessor, o novo título apresenta basicamente novos desafios e alguns modos específicos.

Talvez a referência mais óbvia para a maior parte das pessoas, especialmente aquelas familiarizadas com games de smartphone, seja Geometry Dash. No entanto, em que pese o fato deles serem realmente parecidos (inclusive visualmente), tendo testado os dois, sinto que Flatland Vol.2 tem vantagens bem interessantes.

O grande problema dos jogos de plataforma de ritmo é que boa parte deles constrói sua experiência na irritação do usuário. Quanto mais você se irrita e se sente injustiçado, parece que melhor ele é. Mas eu discordo dessa postura. Na minha forma de entender, um game que pressiona o jogador contra a parede para que ele fracasse não cumpre bem a tarefa essencial, que é divertir.




Entendendo isso, Flatland Vol.2 apresenta uma proposta realmente desafiante, mas não apelativa. Isso se repete nos quatro modos oferecidos: Flatland, Not him again (again), Faster than light e Tesseract Hunter. A experiência padrão consiste na tentativa de levar um quadrado do ponto A ao ponto B. No caminho, contudo, é possível encontrar espinhos, lava, itens cortantes que se movem etc. Evitando todos os empecilhos e chegando ao ponto final, passamos de fase.

Os controles são bem objetivos e responsivos, tanto no Pro Controller quanto no modo portátil. O direcional é utilizado para movimentação, B para pulo, ZR para correr e Y para dash. A esse sistema básico se juntam algumas técnicas que vamos descobrindo pelo caminho, como uso do wall jump, a possibilidade de recarregar o dash com a ajuda de um item no estágio ou o uso de plataformas móveis.

O processo de aprendizagem é bem gradual e agradável, tornando a experiência divertida e amigável, mesmo para quem sentir mais dificuldade com os desafios. Outro aspecto interessante é o uso da música, que pode ser trocada durante os estágios e compõe bem o clima em conjunto com os gráficos.



Mais desafio?

Como é fácil de imaginar, no decorrer dos estágios o nível de dificuldade vai crescendo. Não existe a opção de um modo fácil, o que pode desagradar parte do público. No entanto, o progresso é construído de forma tão gradual que realmente não acredito que seria o caso de oferecer uma experiência simplificada.

Por outro lado, o título oferece modos mais difíceis. Em Not him again (again), jogamos as mesmas fases, mas com a presença de um inimigo que nos persegue pelo caminho. Faster than light é o modo de speed run, em que é necessário concluir um estágio antes de o cronômetro finalizar. Por fim, Tesseract Hunter oferece a possibilidade de jogar apenas as fases bônus. Esses estágios podem ser acessados por meio do jogo base, coletando um item específico que aparece na tela. Depois de concluí-lo pela primeira vez ele fica jogável nesse ambiente especial.

Essas possibilidades expandem um pouco a longevidade de Flatland Vol. 2. No entanto, o jogo não deixa de ser repetitivo, sendo esse o maior problema. Mesmo com mecânicas novas e inteligentes que surgem durante o caminho, não é tão simples manter o interesse por muito tempo.



Difícil sim, injusto não

Flatland Vol.2 traz uma jogabilidade agradável através de desafios estimulantes. Ainda que faça o usuário sofrer, isso acontece dentro de um limite que força o aprendizado e ajuda no processo de adquirir as técnicas e recursos para ultrapassar os desafios. O maior mérito do game está na percepção de que o sofrimento por si só não é recompensa. No entanto, mesmo com essa vantagem, os estágios em pouco tempo se tornam repetitivos e com pouco fator de replay. Isso acaba sendo reforçado nos modos de jogo complementares, que são apenas variações da experiência padrão. No entanto, se a repetição não for o problema, o visual, as músicas e o level design desse título têm tudo para agradar até os mais exigentes. 

Prós

  • Gráficos, música e level design incríveis;
  • Curva de aprendizado suave e bem desenvolvida.

Contras

  • Experiência repetitiva;
  • Diferentes modos de jogo acrescentam pouco ao fator de replay.
Flatland Vol.2 — Switch/PC/XBOX/PS5 — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: João Gabriel Haddad
Análise produzida com cópia digital cedida pela QUByte Interactive

Pesquisador nas áreas de estética e cibercultura com Mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA) e Doutorado em Comunicação (UnB). Além de escrever sobre jogos, produz o Podcast Ficções e tem um blog sobre literatura, filosofia e cotidiano.


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