Jogamos

Análise: Destroy All Humans! (Switch) é uma carnificina alienígena divertida, mas datada

Remake do clássico de 2005 tem boa jogabilidade, mas parece congelado no tempo em termos de design.

Destroy All Humans! (Switch)

Junho de 2021 foi um mês agitado para os ufólogos de plantão. Finalmente, líderes mundiais confirmaram publicamente a existência de OVNIs — objetos voadores não identificados — em nossos céus. Embora as autoridades não tenham encontrado indícios de que esses veículos são fruto de atividades alienígenas, especulações sobre extraterrestres na Terra são inevitáveis. O que os ETs querem dos terráqueos?


Para Destroy All Humans!, a resposta é tão simples quanto o seu título: destruir e conquistar nosso planeta. O jogo, que é um remake do clássico de mesmo nome lançado em 2005 para PlayStation 2 e Xbox, chegou ao console da Nintendo também em junho, após ter sido disponibilizado nas demais plataformas em 2020.

A produção da publisher THQ Nordic e do estúdio Black Forest Games reintroduz a franquia de ação e aventura doze anos após seu último lançamento. Apesar de possuir gráficos renovados, melhorias em seu gameplay e conteúdo inédito, o game parece uma cápsula do tempo de meados dos anos 2000, com jogabilidade engajante e boas ideias, mas uma estrutura de jogo extremamente linear, truncada e por vezes repetitiva.

1950 em 2021

Filmes e séries de ficção científica norte-americanos dos anos 1950 são a principal inspiração de Destroy All Humans. Quem já assistiu a produções como Plano 9 do Espaço Sideral, Além da Imaginação e O Dia em que a Terra Parou! sabe que as representações de alienígenas daquela época eram acompanhadas de terror, surrealismo e uma dose cômica. Esse tom de suspense “terrir” é o que dita a apresentação aqui.

A sinopse do game já deixa isso claro. Na trama, Cryptosporidium 137, do planeta Furon, é encarregado por seu superior, Orthopox 13, de descer à Terra de 1959 para coletar troncos cerebrais dos humanos. Os terráqueos possuem traços antiquados de DNA extraterrestre devido a um antigo episódio amoroso com os Furon e essas sequências genéticas são essenciais aos aliens para que eles possam se clonar, única forma de se reproduzirem. No meio da missão, o alienígena se depara com a Majestic, uma misteriosa agência que controla a política e os militares norte-americanos, e cujo objetivo é exterminar os Furon.
Destroy All Humans! (Switch)
Um pouco do clássico humor dos Furon


Durante toda a aventura de cerca de sete horas de duração, é possível encontrar uma série de referências e paródias não só de filmes e músicas dos Estados Unidos, mas também de sua história relacionada a teorias da conspiração envolvendo possíveis visitantes do espaço.

No mundo do game, a base militar Área 51 — famosa por supostamente conter materiais alienígenas — torna-se Área 42. A cidade de Roswell, onde uma falsa nave espacial caiu, é representada pela fictícia Rockwell. A lenda urbana dos homens de preto e do comitê Majestic 12, que tentava abafar ações de ETs na Terra, está presente na forma dos vilões da Majestic. Detalhes como esses, sempre com um viés irônico, tornam o universo do título charmoso.

Os momentos mais divertidos do jogo vêm da relação de estranheza dos dois ETs com o estilo de vida dos humanos e, em contrapartida, da visão estadunidense em meio à Guerra Fria de que todos os ataques aliens têm a ver com alguma conspiração comunista. Enquanto Crypto e Pox consideram coisas como vacas, presidentes e carros inferiores ao modo Furon de viver (sempre acompanhados de uma atuação inspirada de seus dubladores), os militares insistem que as mortes, explosões e raios vindos de naves espaciais são fruto dos “vermelhos”. Os humanos são motivo de chacota pelo game, criando situações engraçadas.
Destroy All Humans! (Switch)
Crypto descobrindo rapidamente que os “bovinos lactantes” não são os líderes da Terra


Porém, nem todos os aspectos desse tom jocoso envelheceram bem. Assim como afirma a primeira tela que o jogador vê ao iniciar uma nova jornada, o roteiro do game se manteve praticamente idêntico ao do seu original de 2005. Portanto, há certas situações em que as piadas de 16 anos atrás não funcionam no contexto de 2021.

Nesses momentos, o humor do título se baseia em estereótipos: o caipira burro, a adolescente sexualizada, o soldado machão enrustido, a dona de casa que se entope de ansiolíticos e serve o marido... Claro que o game se passa no fim dos anos 1950, um momento em que discussões sociais atuais sobre esses modelos não tinham a força que têm hoje. O problema é que algumas piadas não ironizam os costumes da época e sim os reforçam. Nessas horas, sai o humor e entra o constrangimento.

Design com cara de antigo

A mesma sensação de “bom, mas datado” aparece no design geral de Destroy All Humans. Seguindo a linha de jogos de mundo aberto da primeira metade dos anos 2000, como Grand Theft Auto III (Multi),o título se baseia em cinco regiões que Crypto pode explorar livremente ao embarcar em missões. Porém, ao invés de um grande mapa em que todos os níveis podem ser iniciados sem descontinuidades, o progresso aqui é feito por um menu de seleção de fases.

Por um lado, esse resquício do jogo original é útil a quem busca uma experiência mais direta ao ponto, ótima para usuários do Switch em modo portátil; por outro, após anos de avanços tecnológicos que tornaram os mundos abertos cada vez mais imersivos, essa segmentação da aventura parece arcaica e não fluida. Isso é sentido principalmente quando múltiplos capítulos da campanha principal se passam no mesmo mapa. Crypto é sempre obrigado a voltar à nave-mãe ao final de cada missão, e o jogador, a perder tempo navegando menus para retornar ao mesmo local onde estava.

Felizmente, uma vez dentro dos estágios, o gameplay satisfaz. Nas missões, Crypto é encarregado de realizar tarefas que deixam os Furon cada vez mais perto de conquistar nosso planeta. Isso pode incluir matar humanos, desativar maquinários militares ou destruir vilarejos com a nave espacial. O ponto mais alto nesse momento são as diferentes mecânicas no arsenal de ações do alien e como elas se relacionam com os elementos dos mapas.

Há ocasiões em que a destruição pura e gratuita é a regra. Armas de raios elétricos, desintegradores corporais, sondas anais, explosão de mentes via telepatia, bombas antimatéria, arremesso via levitação... todas essas investidas, tanto a pé quanto na nave, são muito satisfatórias de usar. Em um sistema de skill tree simples, mas eficaz, é possível aprimorá-las em troca de DNA humano, transformando-as em ataques ainda mais poderosos que acabam se tornando úteis para sobreviver em níveis mais avançados.
Destroy All Humans! (Switch)
O Raio Desintegrador é aliado no momento de destruir os cidadãos


Existem, de fato, cenários em que duas ações distintas compartilham o mesmo botão, provocando frustrantes erros no combate com policiais e soldados. Felizmente, eles quase nunca causam a derrota em uma missão.

No entanto, a parte mais interessante da jogabilidade é quando Crypto deve se disfarçar de terráqueo por meio de habilidades holográficas. O extraterrestre pode assumir o corpo de qualquer NPC e usá-lo em desafios stealth ou para fugir das autoridades. Misturar-se na população e invadir áreas de segurança máxima, forçar cidadãos a dançar para despistar inimigos ou até mesmo causar o caos e depois se disfarçar de senhorinha, passando ileso pelos guardas confusos, realmente dá uma sensação de poder ao jogador. O único aspecto negativo é que, para manter o disfarce, é preciso ler constantemente as mentes dos humanos, e seus pensamentos, cheios de piadinhas, tornam-se repetitivos com o tempo.

Entretanto, essa diversão segue regras muito rigorosas. Cada desafio principal é bastante linear, com objetivos bem específicos e métodos para cumpri-los tão específicos quanto. Mesmo com um moveset tão diverso e cheio de potencial, o jogo não dá uma liberdade maior ao jogador para resolver os problemas como se fossem puzzles.

A estrutura é quase de um manual de instruções: transforme-se neste humano, infiltre tal prédio, destrua esses tanques, leia as mentes de agentes e cientistas e por aí vai. Muitas vezes, esses mesmos objetivos se repetem em várias fases, tirando um pouco do frescor do gameplay.
Destroy All Humans! (Switch)
Crypto se fingindo de humano e lendo a mente das pessoas


Uma novidade neste remake são os desafios secundários nos níveis, que exigem que Crypto realize ações extras pré-estabelecidas em troca de DNA. Eles acrescentam uma fina camada de fator replay ao game, mas não trazem recompensas grandes ao serem 100% cumpridos. No fim das contas, a campanha principal é demasiadamente guiada, mais um sinal dos tempos passados.

Mundos abertos vazios

Por outro lado, quando Destroy All Humans resolve largar a mão do usuário e deixá-lo explorar os cenários, não há muito com que se divertir. 

Assim que os aliens se aventuram em uma região nova, esse lugar é desbloqueado para ser desbravado pelo protagonista. Nesse modo, os mapas viram uma espécie de sandbox, em que o jogador pode usar todas as suas habilidades aprendidas durante a história de maneira mais livre. O foco aqui é juntar DNA dos terráqueos, tanto extraindo-o de seus troncos cerebrais quanto encontrando contêineres alienígenas cheios de genes, que servem como colecionáveis.

Os mundos abertos também dão acesso a quatro minigames que testam a habilidade de Crypto em abdução, destruição e mobilidade. Essas atividades oferecem DNA como recompensa à performance do extraterrestre e podem ser bastante desafiadoras para conseguir pontuações dignas de três estrelas. Os upgrades das armas, habilidades e da nave espacial vêm a calhar aqui, facilitando um pouco as coisas.
Destroy All Humans! (Switch)
Um dos contêineres com DNA espalhados pelos mapas vazios


Porém, uma vez experimentado tudo isso, não há muito mais a fazer nos cenários. Em nenhum momento Destroy All Humans apresenta mecânicas novas que tornam a exploração cativante. Somente há um acréscimo de dificuldade nos minijogos e na sobrevivência geral no sandbox, o que realmente não é dizer muito, pois é relativamente fácil desviar dos tiros inimigos e manter-se vivo com escudos regenerativos. A inteligência artificial não é das mais complexas, até mesmo em níveis mais difíceis.

Alguns minutos no primeiro mapa já deixam evidente o que todos os outros quatro mundos abertos têm a mostrar. Nesse instante, o título se torna excruciante e a coleta de DNA fica maçante. É inegável que bate uma certa preguiça em reunir genes extras nesse modo, pois a campanha principal, por mais linear que seja, acaba fornecendo mais desses itens em uma experiência um pouco mais interessante.

Um port OK de um remake OK

É importante lembrar que a versão de Switch de Destroy All Humans tem que se provar duas vezes: uma como um bom remake do original de 2005 e outra como um bom port da edição para outras plataformas lançada em 2020. E, em ambas as situações, faz um trabalho regular.

A Black Forest Games teve o cuidado de modernizar alguns aspectos do título de 15 anos atrás. Cutscenes foram reformuladas para ser mais cinematográficas e utilizar motion capture; controles foram simplificados em relação ao PS2 e Xbox; a UI e o UX ficaram mais práticos, mostrando informações de maneira mais direta; uma nova missão, anteriormente cortada pela equipe de desenvolvimento original, foi inserida no jogo. Tais alterações, embora não saltem aos olhos de um novato na franquia como eu, podem ser significativas para fãs de longa data da série.

Em contrapartida essa nova versão peca em seus desbloqueáveis. Nos anos 2000, o game contava com interessantes conteúdos extras, como mini documentários de making of, materiais de marketing e, principalmente, filmes dos anos 1950 que inspiraram a produção. O título possuía até a íntegra da película Os Adolescentes do Espaço e trechos de Plano 9 do Espaço Sideral entre seus bônus.

Já no remake, o cuidado com esses materiais adicionais não foi o mesmo. Eles se limitam a algumas peças de artes conceituais e a skins cosméticas para Crypto, sendo que somente três encontram-se bloqueadas de início. Quando anteriormente foi comentado que as recompensas de zerar as missões 100% não valiam tanto a pena assim, esse é o motivo. Há muito esforço para poucas coisas em troca.
Skins são alguns dos únicos bônus do game


Quanto à qualidade da versão de Switch, o port cumpre seu papel, mas não deixa de passar uma impressão de falta de polimento geral. Enquanto o software roda de maneira consistente, com quedas de fps quando a ação fica muito intensa, outros aspectos gráficos, como pop-ins e texturas que demoram muito para carregar, são gritantes aos olhos de quem joga. Obviamente, o game não consegue reproduzir os visuais do Xbox One ou do PlayStation 4, mas, sem uma adaptação mais caprichada para o console da Nintendo, personagens, espaços e objetos ficam simplesmente mais feios de se olhar.

Além disso, pequenos glitches podem ser encontrados durante toda a aventura. Falta de colisão em objetos, personagens que travam no T-pose e humanos que voam na direção contrária à qual foram lançados com telecinese são erros que tiram a imersão no título e, às vezes, influenciam no gameplay. Por exemplo: no último chefe, o jogo resolveu prendê-lo atrás de elementos do cenário, fazendo com que ele não conseguisse atacar, mas que levasse dano. Uma vitória fácil, mas injusta.
Destroy All Humans! (Switch)
Texturas que demoram para carregar são um dos problemas gráficos do título


Uma destruição para poucos

Destroy All Humans! encontra-se em uma posição peculiar no espectro de lançamentos de videogames. Sendo um remake de um jogo de praticamente três gerações atrás, ele entrega exatamente aquilo que promete: uma versão aprimorada, mas fiel do original. O problema surge quando se percebe que este relançamento, às vezes, é muito mais fiel do que deveria ser.

Há 15 anos, eles podem ter sido diferenciais, mas hoje o design de níveis segmentados, as missões muito lineares e os mundos abertos com poucos incentivos à exploração já mostram sua idade. Felizmente, o gameplay, mesmo que bastante guiado, engaja devido a sistemas de ataque e sobrevivência interessantes.

No Switch, o título sofre de um downgrade gráfico por vezes incômodo, com lentidão no carregamento de texturas, constantes pop-ins e bugs pequenos, mas notáveis. Pelo menos o game roda de maneira razoavelmente constante, nunca travando ou ficando excessivamente lento devido a quedas de quadros por segundo.

Caso você queira reviver ou conhecer um pedaço da história dos jogos eletrônicos de meados de 2000, essa é uma boa pedida. Só não espere que o jogo fale a língua dos tempos atuais.

Prós

  • Divertida história que remete a filmes sobre alienígenas e à história norte-americana com extraterrestres nos anos 1950;
  • Competente atualização do jogo original, com aprimoramentos em cutscenes, controle e UI/UX;
  • Divertido gameplay que ora incentiva a destruição, ora a discrição;
  • Sistema de aprimoramento de habilidades simples, mas que empodera cada vez mais o jogador.

Contras

  • Humor datado, às vezes baseado em estereótipos;
  • A campanha principal dividida em níveis selecionáveis por um menu faz com que o progresso seja lento e não fluido;
  • Missões negativamente lineares e guiadas, dando pouca liberdade na resolução de problemas;
  • Mundos abertos com pouco incentivo para exploração;
  • Bônus desbloqueáveis desinteressantes;
  • A inteligência artificial dos inimigos é pouco ameaçadora;
  • Problemas gráficos, como texturas que demoram a carregar, pop-ins e glitches.
Destroy All Humans! — Switch/PS4/XBO/PC/Stadia — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch

Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela THQ Nordic


Jornalista, analista de mídias e entusiasta de games desde que jogou Pokémon Azul no Game Boy Color nos anos 90. De lá para cá, tenta aproveitar ao máximo todos os consoles no pouco tempo que a vida adulta permite. Se não está escrevendo para o Blast ou demorando anos para zerar um jogo, está no Facebook e no Instagram (@daniel.skm)


Disqus
Facebook
Google