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Análise: Little Bug (Switch) apresenta uma jornada sensível com recursos de jogabilidade inventivos

Enquanto retornava da escola, a jovem Nyah ficou presa em um mundo fantasioso e precisa de nossa ajuda para sair dessa.

Do início ao fim, Little Bug é um pequeno jogo de plataforma que manifesta muita personalidade. Dispondo de uma jogabilidade que não se resume a correr e saltar entre penhascos, a aventura conta com mecanismos únicos e integralmente funcionais, capazes de propiciar uma experiência agradável em múltiplos âmbitos. Dessa forma, é difícil não se encantar com a sensível história protagonizada pela pequena Nyah, mesmo com alguns problemas em seus entremeados.

Nyah, a aventureira

Assim como muitas garotas de oito anos de idade, Nyah é curiosa, inventiva e aventureira. Tanto que, nos primeiros momentos de Little Bug, somos apresentados a uma cena em que ela interage com um gato morto enquanto retornava de sua escola. Alguns momentos depois, eis que um espírito similar ao animal surge de forma abrupta, guiando Nyah até um mundo fantasioso completamente obscuro.

Nesta dimensão paralela, a protagonista recebe a visita inesperada de um espírito de luz, que a ajuda a se locomover entre a desconhecida localidade. Por um instante, Nyah acredita ter encontrado sua casa, mas é surpreendida por uma visão em que ela discute com sua mãe, sendo chamada de “Little Bug” (algo como “pestinha”, em português) por sua progenitora.

Essa cena distópica, que aparenta indicar que a protagonista anda sofrendo com problemas familiares, como o ciúmes que ela sente de sua irmã recém-nascida, acaba por empurrar Nyah de uma vez por todas para a dimensão sombria. Assustada, a criança entra em uma jornada para encontrar um caminho definitivo até sua casa. Para isso, ela poderá contar com os poderes do pequeno espírito, personagem que irá guiar, literalmente, muitos quesitos da inventiva jogabilidade do título. 

Uma experiência de controles singulares

De maneira bastante intrigante, Little Bug é um jogo de plataforma em que não há saltos, diferenciando-se da grande maioria de seu gênero. Acontece que, além de movimentarmos Nyah com o analógico esquerdo, não contamos com outros comandos de ação diretamente ligados à protagonista, uma vez que todo o resto da jogabilidade se relaciona com o espírito que se aventura conosco.

Este espectro deve ser movimentado de maneira independente com o analógico direito do Joy-Con. Com isso, ele precisa nos acompanhar pelos diferentes cenários, gerando uma espécie de gameplay paralelo com dois personagens distintos. Entre suas qualidades, o elemento conta com a capacidade de levantar Nyah por alguns instantes, entrelaçando a protagonista com raios de luz e impulsionando-a para o alto. Dessa forma, conseguimos subir em caixas, penhascos e demais relevos, o que substitui, portanto, a presença de um botão de salto.

É justamente através dessa característica que boa parte dos desafios de Little Bug são oferecidos: desviando de criaturas sombrias que povoam os cenários, como monstros esguios e sombras no formato de mãos e pés, os jogadores devem controlar Nyah e o espírito, subindo e descendo de plataformas que podem apresentar armadilhas e outros obstáculos. No meio de tudo isso, não há qualquer tipo de combate, apenas pequenos quebra-cabeças de movimentação, que envolvem calcular as físicas de propulsão dos elementos. 

No entanto, a ausência de embates não representa uma falta de intensidade, pois somos instigados a resolver situações com raciocínio rápido e muita precisão. Desse modo, a jogabilidade de Little Bug consegue ser simples e, ao mesmo tempo, desafiadora, responsiva e interessante, o que faz o jogo se destacar dentro do gênero. Neste quesito, a aventura me surpreendeu bastante, rendendo momentos altamente engenhosos — os quais, por sinal, também são agraciados por fatores complementares profundamente adoráveis.

Contando histórias com muita sensibilidade

Conforme desbravamos os cenários bidimensionais de Little Bug, podemos encontrar diversos itens aleatórios, como utensílios domésticos, insetos e plantas. Embora eles também cumpram funções mais burocráticas, como a de contabilizar enquanto coletáveis, os materiais apresentam outro papel bastante interessante na trama: o de narrar histórias sobre os personagens a partir de suas descrições.

Por exemplo, quando coletamos uma flor da espécie Tremoceiro, Nyah relembra de quando foi acampar com sua mãe antes do nascimento de sua irmã, demonstrando a falta que sente dessa época. Da mesma forma, ao recolhermos minérios obsidianos, a protagonista menciona, nostalgicamente, que ela havia aprendido sobre este tipo de rocha vulcânica justamente em sua matéria escolar preferida. 

Ou seja, de vestígio em vestígio, a narrativa de Little Bug é devidamente apresentada, abordando fatores sensíveis que ajudam a criar uma história de temas reflexivos e situações relacionáveis. Assim, mesmo sem dispor de elementos de apresentação mais robustos, como cutscenes elaboradas, é deveras interessante acompanhar as memórias de Nyah através destes singelos objetos.

Isso nos permite afirmar que Little Bug é uma experiência altamente afável, algo que também é evidenciado a partir de sua charmosa estética. Em termos visuais, temos gráficos que fascinam com desenhos cartunescos simplesmente adoráveis. Do ponto de vista sonoro, a trilha é preenchida por temas delicados e efeitos espaciais, incrementando as sensações que são transmitidas entre as pacatas ambiências.

Severidades no caminho de volta para casa

Apesar de suas múltiplas qualidades, Little Bug conta com alguns problemas que, mesmo pequenos, podem ser um pouco incomodativos. Um deles envolve uma falha que fazia Nyah ficar presa entre pilares e plataformas do cenário, deixando a protagonista completamente imóvel. Para consertar esse "Little Bug" (com o perdão do trocadilho), era preciso resetar a jogatina, o que me permitia retornar para o último ponto de salvamento.

Por sinal, os checkpoints também podem gerar alguns problemas. Acontece que, nos momentos finais da campanha, temos algumas zonas de salvamento que são notavelmente mais cruéis e longas que as outras, exigindo uma precisão exagerada. Com desafios que eu considerei injustos, estas ocasiões infelizmente acabam por destoar do restante da aventura.

Entretanto, estes são problemas que não comprometem integralmente a atratividade de Little Bug, um jogo que pode ser completado em cerca de duas horas. Dessa forma, não hesito em dizer que tive momentos divertidos e duradouros na companhia do título, que se tornou envolvente e me motivou a reiniciar sua campanha principal, justamente para que eu pudesse conhecer mais sobre o adorável universo a partir dos coletáveis ainda não apanhados.

Jornada de amadurecimento

Ao longo da vida, crescer e amadurecer não é exatamente uma tarefa fácil, e Little Bug exemplifica isso muito bem, com uma jornada introspectiva de jogabilidade única. Desse modo, podemos recorrer a uma velha expressão e dizer que o título proporciona uma experiência de gente grande, muito embora tenha como protagonista a pequena Nyah e conte com inúmeros toques de infância em sua trama.

Prós

  • Jogabilidade de plataforma simples, singular e divertida;
  • Narrativa que aborda temas sensíveis;
  • Coletáveis cheios de personalidade;
  • Uma estética altamente adorável;
  • Boa quantidade de desafios.

Contras

  • Eventuais bugs que podem comprometer a movimentação;
  • Alguns checkpoints são severos e destoam dos demais. 
Little Bug — Switch/PC/XBO/XBX — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Cristiane Amarante
Análise produzida com cópia digital cedida pela RedDeerGames

Jornalista, redator no Nintendo Blast, mestre em Ciências da Comunicação e campeão em oito regiões do universo Pokémon.
Este texto não representa a opinião do Nintendo Blast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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