Blast from the Past

Academy of Champions: Soccer (Wii): O dia em que Pelé virou treinador de futebol

Em uma inusitada mistura do esporte com a saga do Harry Potter.

Em 2022, o ciclo da vida se fechou para alguns grandes nomes da cultura brasileira. Jô Soares, Gal Costa, Elza Soares e Erasmo Carlos são nomes que imediatamente me vêm à cabeça. Se, por um lado, gosto pode ser uma questão pessoal e discutível, por outro há uma figura que é inquestionável: Pelé.


Ainda que muitos de nós hoje não tenham visto Pelé jogar, seu nome e sua imagem são extremamente conhecidos. A comoção em torno de sua morte foi um exemplo de sua relevância para o futebol e para o mundo.

Para além dos campos e do tricampeonato mundial pela Seleção, o jogador também se fez presente em quadrinhos, música, cinema e, claro, no mundo dos games. Para celebrar a vida dessa pessoa tão importante para a história do nosso país, vamos relembrar um jogo que prestou reverência ao Rei do Futebol de uma maneira inusitada: Academy of Champions: Soccer (Wii).

Futebol ou Soccer?

Em 2009, o mundo já tinha se rendido ao Wii e seus controles de movimento. A Ubisoft aproveitou a tecnologia popularizada pelo console da Nintendo e lançou em novembro daquele ano a série Just Dance, que se tornou um fenômeno e ganhou vida em outros hardwares.

Alguns meses antes, porém, outro título da companhia chegava com exclusividade ao console de 7ª geração da Big N. Academy of Champions trazia na capa o maior nome do esporte de todos os tempos e também o maior nome do futebol feminino até aquele período: Mia Hamm, atacante dos Estados Unidos recém-aposentada na época.

Com estilo de arte cartunesco e dois grandes nomes licenciados, a Ubisoft procurava atingir um público mais jovem e amplo, fugindo de um problema linguístico. Enquanto no mercado norte-americano o subtítulo utilizado foi “Soccer”, nas outras regiões a preferência foi pelo “Football”, termo pelo qual o esporte é mais conhecido no mundo.

Outro movimento para atrair mais público foi uma clara inspiração em Harry Potter. Na época a saga do bruxo estava no auge do sucesso e a expectativa para o lançamento do capítulo final nos cinemas era grande. A companhia aproveitou o modelo de casas rivais e aplicou no jogo.

Quadribol… quer dizer, futebol

No início é preciso escolher entre um personagem masculino ou feminino, o que vai determinar se o seu treinador será Pelé ou Mia Hamm. Em seguida, você encontra o seu time, chamado Might Five (pois são partidas de cinco contra cinco), que pode mudar conforme se vão recrutando outros jogadores. E assim iniciam-se as aulas diárias do modo campanha, na Academia Brightfield, onde as crianças com grande potencial são treinadas.

A Academia Brightfield é equivalente à Hogwarts do mundo criado por J.K. Rowling, inclusive com jogadores correndo pelos quadros nas paredes. Seu time se comporta como os mocinhos da Grifinória, enquanto seus rivais, a Academia Scythemore, assume o papel de vilão, como a Sonserina faz na saga do bruxo.

Pelé, portanto, seria o Dumbledore da academia: o velho sábio e muito experiente que todos respeitam e param para ouvir. Mia Hamm seria o correspondente à professora McGonagall, também respeitada e experiente, além de responsável pela Casa da Grifinória.

Deixa de conversa e joga bola

Academy of Champions possui três eventos diários, envolvendo treinos e conversas com pessoas ao redor da escola, para comprar acessórios para o seu time e para usar em campo. O jogo busca, assim, prender a atenção do jogador com minigames e campos de futebol enfeitados e bem desenhados.

Os minigames são interessantes a princípio e aumentam de dificuldade progressivamente, melhorando a experiência e o desempenho de seu personagem em campo. Já as partidas de fato possuem um estilo único: o campo é levemente arredondado pela perspectiva e as paisagens são bem estranhas, mudando conforme o jogo avança.

A jogabilidade, por sua vez, apresenta alguns problemas. Por exemplo, ao alcançar o gol adversário, uma mira aparece para indicar o ângulo que a bola acertará. Para comandar essa mira, é preciso utilizar o mesmo controle analógico usado para controlar o personagem, o que é estranho e pouco intuitivo. Outro exemplo são os dribles, que funcionam como uma sequência de Quick Time Event, deixando a partida ainda mais lenta e truncada.

Apesar dos problemas, as disputas conseguem ser divertidas e envolventes. Fora do campo é que a coisa complica. O jogo foca no modo história, em que o jovem talento recém-chegado na Academia deve aprender sobre futebol, a importância da educação e do jogo limpo, com um calendário para cada semestre detalhando se você jogará uma partida, um jogo de treinamento ou será capaz de procurar novos talentos, melhorar as habilidades de seus jogadores ou simplesmente gastar dinheiro na loja.

Geralmente há algo diferente para fazer a cada dia, mas muito pouco disso é realmente jogar futebol. O enredo no fim é bastante raso, os exercícios que você faz nunca mudam e suas interações com os alunos permanecem as mesmas, com diálogos feitos com sons semelhantes a gemidos.

Ou seja, é dentro do campo que o game se sai melhor. E para melhorar, ainda conta com participações especialíssimas de personagens da Ubisoft, como os Rabbids (incluindo um vestido como a Jade de Beyond Good & Evil), Rayman, Sam Fisher (Splinter Cell), o Príncipe (Prince of Persia) e Altair (Assassin’s Creed).

Vida longa ao Rei

A recepção a Academy of Champions foi mediana, com críticas mistas e atingindo uma nota 64 no Metacritic. O jogo acabou muito focado no público infanto-juvenil e não despertou o interesse de um público mais amplo ou dedicado. Fica como curiosidade por ser uma inusitada mistura de futebol com Harry Potter, mas acima de tudo, por ser mais uma merecida reverência ao eterno Rei Pelé.

Revisão: Vitor Tibério


Nascido no mesmo dia que Manoel Bandeira (mas com alguns anos de distância), perdido em Angra dos Reis (dos pobres e dos bobos da corte também), sob a influência da MPB, do rock e de coisas esquisitas como a Björk. Professor de história, acostumado a estar à margem de tudo e de todos por ser fora de moda. Gamer velho de guerra, comecei no Atari e até hoje não largo os mascotes - antes rivais - Mario e Sonic.
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