Blast from the Past

Especial Nintendo Switch Online + Expansion Pack: GoldenEye 007 (N64)

Depois de 25 anos, GoldenEye 007 finalmente retorna.



Baseado no filme homônimo de 1995, GoldenEye 007 coloca o jogador no papel do famoso agente de espionagem James Bond, conhecido também como 007. A trama começa com a descoberta de uma instalação secreta de armas químicas na barragem de Byelomorye e progride através de sete missões, distribuídas entre 18 estágios. (Ou nove missões, caso você consiga completar o jogo na dificuldade “Agent 00”).

Desenvolvido pela Rare e lançado originalmente para Nintendo 64 em agosto de 1997, este clássico fez em 2022 seu aniversário de 25 anos; para uma ocasião tão especial, nada melhor que finalmente poder jogá-lo em plataformas atuais.

O primeiro FPS de uma geração, superando todas as improbabilidades, está de volta

No passado, algumas tentativas de se remasterizar GoldenEye ou trazê-lo a consoles mais recentes foram feitas, porém nenhuma com sucesso. Portanto, o anúncio de que o jogo estaria disponível para a plataforma Nintendo Switch Online + Expansion Pack foi uma grande surpresa.




Este era considerado por muitos um título improvável de ser disponibilizado no serviço, devido à sua delicada situação de direitos autorais. Estão envolvidas figuras de peso como a Rare, desenvolvedora do jogo e atual propriedade da Microsoft; a MGM, responsável pela produção cinematográfica do filme em que o game é baseado; nossa conhecida Nintendo como distribuidora; e, claro, o personagem internacionalmente conhecido, James Bond.

A obra foi uma das primeiras do gênero first person shooter (FPS) nos consoles de mesa. Desde 1992, obras do estilo como Wolfenstein 3D, DOOM e Quake estavam presentes na vida de jogadores de computador, porém era raro de se ver novas entradas 3D de tiro em outras plataformas.




GoldenEye foi um dos grandes responsáveis por adaptar e popularizar o gênero para este novo mercado, tendo produzido fortes marcas na geração de jogadores dos anos 1990 e 2000 e sendo para muitos, seu primeiro contato com FPS.

Os filmes de James Bond estiveram constantemente presentes na vida das pessoas dessa geração, com 6 filmes entre a década de 90 até o final dos anos 2000. Como consequência, podemos supor que suas adaptações para videogames, que simularam com sucesso a emoção de se sentir como um agente de espionagem realizando missões secretas, atraíram um público ainda maior.

Por sua grande relevância histórica, GoldenEye 007 se tornou um clássico e até hoje possui um espaço reservado no coração de muitos jogadores. Será que você também não é um daqueles que passou horas tentando completar todos os objetivos das missões no modo single player ou lutava para juntar quatro controles de Nintendo 64 e jogar o modo multiplayer com seus amigos?

A experiência GoldenEye nos dias de hoje

Eu nunca fui uma jogadora muito assídua de FPS, porém me lembro de acompanhar em minha infância meus primos jogando o modo single player de GoldenEye, além de é claro, ter sido convocada a passar algumas tardes levando uma surra no modo multiplayer.
 



Portanto, apesar de não ter sido meu primeiro contato com a obra, essa foi minha primeira experiência jogando por conta própria o modo campanha do início ao fim. Apesar de não ter sido uma jornada completamente sem empecilhos e frustrações, posso dizer com confiança que me diverti bastante em minha aventura.

A primeira coisa que chama atenção é a apresentação dos menus: tudo é integrado com a temática de agente secreto. As missões são apresentadas através de pastas com uma breve descrição de seus objetivos e comentários da equipe do MI6. Além disso, o menu de pausa conta com o icônico relógio de Bond, impressionando até hoje em seu design imersivo, com direito até mesmo a pequenos efeitos de estática.

Grande parte da narrativa se passa na papelada antes das missões. Existem, é claro, alguns encontros com NPCs, mas estes são breves e não tão frequentes, o que não os impede de ser interessantes. Deixo um destaque em especial para os encontros com o programador Boris, sobre os quais digo apenas que foram bem curiosos, e convido vocês a rever suas cenas.



Sendo sincera, a narrativa de GoldenEye não é seu ponto forte, principalmente por sua trama ser bastante confusa àqueles que não estão familiarizados com a história dos personagens e filmes, pois quase toda a narrativa já supõe que você conhece o contexto e os personagens.

Ainda assim, ver tudo tematizado ao universo de James Bond foi algo bem agradável, e me fez um pouco feliz em me sentir uma verdadeira agente secreta abrindo documentos confidenciais, além dos comentários algumas vezes bem ácidos da equipe sobre o sucesso ou não de minhas missões ao decorrer da campanha serem interessantes.



Iniciando a primeira missão, temos nosso choque com os gráficos. Obviamente, trata-se de um produto de sua época e isso é aparente em seus polígonos e texturas. Pessoalmente, achei um pouco engraçado ter fotos reais coladas no rosto dos personagens, e arrisco dizer que mesmo sendo bem caricato para os dias atuais, tem seu charme. Apesar de o 3D não ter envelhecido nem um pouco bem, GoldenEye merece valor neste quesito, considerando sua grande variedade de cenários totalmente diferentes entre si.



Passei por locais como portões militares, tubulações de ar, pistas de decolagem, navios, bases subterrâneas, laboratórios, cidades urbanas, banheiros, bases militares, campos congelantes, trens, pontes suspensas, selvas, armazéns, entre outros. A variedade de cenários é um grande feito para um produto restrito por 64 bits, e GoldenEye, apesar de suas limitações, se destaca até em comparação com jogos atuais.



É uma pena, entretanto, que a variedade de rostos de inimigos não tenha recebido o mesmo cuidado. Seria graças a uma escolha de priorizar os cenários devido à restrição de memória do cartucho de N64? De qualquer modo, na minha opinião, foi a escolha certa focar nos estágios.



Ainda no aspecto gráfico, uma nova opção de jogar o título em widescreen foi disponibilizada para a versão de Switch. É a primeira vez que noto uma opção do tipo nos jogos para Nintendo 64 do serviço e ela não deixa a desejar. Todo meu percurso na obra foi feito com essa configuração, o que tornou a gameplay bem mais agradável. É claro que jogadores que não são fãs do estilo low poly ainda se incomodarão bastante com os gráficos; porém, para os fãs do original, é um ótimo presente.




Minha impressão inicial dos controles foi de espanto. GoldenEye possui uma configuração extremamente simples: um botão para atirar ou ativar itens, um para recarregar sua arma, um para trocar de equipamento, um para interagir com o cenário, um para trazer um alvo em vermelho de mira, um botão de pausa que ativa o icônico menu relógio, uma combinação para se agachar e direcionais para dar passos para os lados ou olhar ao redor. É apenas com estes comandos que o jogo inteiro é feito.


Ajustar a câmera é algo extremamente restrito, com um movimento lento e desajeitado, sendo uma estratégia melhor em minha opinião manter ligadas as ferramentas que já vêm por padrão: o “auto-look” e o “auto-aim”.

Estranhamente, existe um modo de se jogar com dois controles para alterar o modo da câmera, porém me pergunto se a opção é realmente viável. Uma ou duas fases são necessárias para se acostumar com a jogabilidade diferente usando sua movimentação para também ajustar o ângulo da câmera, além de se habituar a atirar em direções que não fazem sentido imediatamente, porém que rapidamente são ajustadas pelo algoritmo para acertar o inimigo — Algo um pouco similar à mira de DOOM.



É claro, sempre há a opção de usar a mira específica com o botão R e o analógico, porém ela é difícil de controlar devido à sua tendência de retornar ao centro da tela. Ela é necessária em alguns momentos-chave, mas a não ser que você seja extremamente acostumado com seu sistema ou esteja mirando em uma parte específica do inimigo, é melhor usá-la somente quando preciso.

Existem cerca de três ou quatro fases em GoldenEye que me fizeram passar raiva devido a controles sem precisão ou à falta de um mapa, em especial o final da missão do trem, onde tenho um limite de tempo para fazer um corte preciso de laser, uma façanha que se torna extremamente enfurecedora, pois o controle da mira especial é mínimo.



Também senti que foi terrível passar dezenas e dezenas de minutos simplesmente tentando me localizar em alguns cenários específicos ultra labirínticos, com poucos pontos de referência para me orientar e sem ideia de onde estão meus objetivos.

Há ainda a infame NPC Natalya Simonova, refém que aparece recorrentemente ao longo da campanha. Natalya é conhecida por sua tendência de se meter no meio de tiroteios; lentidão para escapar de situações de perigo, como explosões prestes a acontecer; e má vontade de continuar a ajudar o jogador caso ele cometa, sem saber, algum erro que a desagradou. De um jeito ou de outro, é possível se adaptar às situações, mas com certeza não foi nada agradável ficar presa em certas missões por estes motivos.



 
Tirando esses pontos negativos, apesar de Bond não ter um comando para correr, seu movimento é bem rápido e passa uma dinâmica eletrizante. Assim, mesmo com uma jogabilidade simples, pude encarar missões cheias de ação em que eu ia de um local a outro de forma frenética abrindo portas e procurando por meu objetivo, o que achei extremamente divertido e recompensador.

Adicionando a tensão de sempre ter um inimigo à espreita, a experiência foi muito boa. Os objetivos das missões são bem diferenciados entre si, com desafios como destruir instalações, tomar posse de dados ou documentos, resgatar reféns, eliminar alvos, escapar de celas, fotografar imagens, encontrar com outros agentes, plantar escutas, entre outros.



 
A diversidade de objetivos é outro ponto que merece ser exaltado, estando em sintonia com a natureza dos filmes e livros de James Bond e até hoje sendo uma ótima referência para outros jogos. A jogabilidade é simples e um pouco desajeitada atualmente, mas sabendo como se jogar, se torna divertida, e pude me acostumar a seu jeitinho, tirando algumas ressalvas.

Jogando com amigos no multiplayer local e modo online

Para alguns, a cereja do bolo. GoldenEye é muito lembrado por seu multiplayer local rápido, caótico e cheio de adrenalina com até quatro jogadores simultâneos em uma mesma tela. O modo também possui liberado diversas armas por padrão, como lança-foguetes, granadas, klobbs, lasers, bombas de controle remoto e a famosa Golden Gun, que é capaz de tirar toda a vida do oponente com apenas um tiro.

Alguns mapas são menos confusos que outros, mas jogar com apenas dois jogadores pode ser particularmente complicado devido ao grande número de portas e salas em certos mapas, sendo possível se perder neles. Mas é claro, tenho certeza de que este ponto é minimizado para jogadores mais experientes com os mapas ou simplesmente tendo mais pessoas na partida.

Este multiplayer é uma experiência bastante diferente do que encontramos hoje em dia. Compartilhando uma tela dividida entre dois, três ou quatro jogadores, temos a possibilidade de olhar para a tela de nossos adversários, assim como eles também têm de olhar o nosso. Portanto, temos que estar sempre alertas à localização deles, além de prestar atenção às armas e coletes que conseguiram adquirir.

Espiar a tela de outro jogador pode ser considerado uma “trapaça”, porém não há como evitar que isso aconteça, o que não é de todo um mal.  É bem divertido se adaptar ao estilo, sendo necessário decorar caminhos no mapa, e uma tensão a mais na jogatina que algum rival possa lhe dar um tiro pelas costas. Só cuidado para não brigar na vida real, ok?



Com o Nintendo Switch Online + Expansion Pack, agora é possível jogar online com seus amigos. Infelizmente não tive a oportunidade de experimentar o modo online com quatro pessoas, devido à necessidade de que os quatro outros amigos possuam o pacote de expansão do serviço online.

Pude, entretanto, jogá-lo no modo dois jogadores online. Meu Switch é da versão OLED, que possui a dock com conexão direta a cabo ethernet, e minha internet é de fibra a 300 Mbps. A experiência no online com dois jogadores rodou impecavelmente para mim, não tive nenhum glitch sonoro, queda de conexão ou algo do tipo.



Apenas percebi um pequeno input lag nos primeiros 10 segundos no menu, mas que logo sumiu quando um jogador entrou em minha sala. Eu realmente gostaria de ter tentado jogar online com mais três pessoas, porém não foi possível.

Se você possui amigos que tenham o pacote de expansão do Nintendo Switch Online, recomendo fortemente tirar uma tarde para se divertir com os personagens. Seja localmente dividindo os Joy-Con e Pro Controllers ou online, no conforto de sua própria casa, garanto que trará muitas risadas.

A trilha sonora e a passagem do tempo em um título histórico

A trilha sonora de GoldenEye foi composta por Graeme Norgate, Grant Kirkhope e Robin Beanland, e contém mais de 50 músicas incluindo suas versões remixadas no multiplayer, com temas que grudam em sua cabeça e muito bem pensados para fazer o jogador sentir tensão, suspense, urgência, temor, alívio, bravura e tenacidade. A música é  outro ponto que combina perfeitamente com os demais elementos e é possível ouvir por horas as faixas sem enjoar.
GoldenEye 007 é um jogo difícil de se julgar hoje em dia. Ele certamente possui méritos que até mesmo eu, uma jogadora que não costuma adentrar no território de FPS, pude me divertir bastante e reconhecê-los. Porém, a passagem do tempo não foi muito gentil com ele, principalmente na questão de controles, gráficos e design confuso de alguns mapas.




Ele permanece uma ótima pedida àqueles que possuem carinho com a série ou até mesmo aos que querem descobrir uma obra historicamente muito importante para o gênero, conhecida por trazer uma variedade a um estilo que, em consoles, era majoritariamente restrito a jogos no estilo de DOOM — que são também incríveis, porém mais variedade sempre é bom, e em grande parte GoldenEye 007 foi um de seus responsáveis por essa façanha.


Se você tiver disposição para ser um pouco paciente com as marcas do tempo que o jogo sofreu, que tal experimentá-lo? Garanto que terá uma surpresa no final.

Revisão: Davi Sousa

Fascinada pela cultura japonesa dos anos '80, '90 e '00. Ama livros, mangás, sua gata maluca, mahou shoujo e jogos. Em especial Dragon Quest, Fire Emblem, Famicom Detective Club, Okami, JRPGs, retrô, Bishoujo & Otome games. Sempre em busca de jogos estranhos ou com propostas inusitadas. Estuda japonês nas horas vagas para conhecer mais obras do tipo.
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