Blast from the Past

Dragon Warrior Monsters (GBC) é uma joia dentro do gênero de criação de monstrinhos

Relembre a jornada de Terry no Reino da Grande Árvore em busca de sua irmã.

No ano de 1998, no Japão, emergiu um desdobramento de uma das franquias mais influentes no vasto universo dos RPGs. Estamos nos referindo a Dragon Quest Monsters, um jogo lançado para o Game Boy Color e que se concentra no recrutamento, criação e batalhas de adoráveis (ou nem tanto) criaturas.

Naquela época, a série principal era conhecida no Ocidente como Dragon Warrior, devido ao nome Dragon Quest já estar associado a um RPG de mesa. Portanto, quando o título atravessou o oceano para chegar ao nosso continente, ele se apresentou como Dragon Warrior Monsters.

Duas crianças e um reino cheio de monstros

A história de Dragon Warrior Monsters acompanha os irmãos Terry e Milly, personagens oriundos de Dragon Quest VI, durante a sua infância. Em um dia aparentemente comum, um monstro misterioso invade a casa deles e sequestra a garota. Logo em seguida, outra criatura aparece, convidando Terry a ingressar no Reino da Grande Árvore para desvendar o paradeiro de sua irmã.

Ao adentrar o reino, o jovem é orientado pelo monarca a participar do Torneio da Noite Estrelada dos treinadores de monstros, já que o vencedor é agraciado com a realização de um desejo. Assim, após adquirir seu primeiro aliado monstruoso, o nosso protagonista parte em busca desse objetivo.

A trama de Dragon Warrior Monsters é bastante simplificada; contudo, ela apresenta algumas surpresas e situações interessantes, especialmente nos momentos finais. Apesar disso, o verdadeiro brilho deste spin-off reside em sua jogabilidade, principalmente no que se refere à criação das criaturas.

Explorando e recrutando

O reino funciona como um hub em Dragon Warrior Monsters, oferecendo várias instalações importantes, como lojas, uma biblioteca repleta de informações sobre as criaturas, uma fazenda para abrigar os bichinhos, uma arena com desafios segmentados por ranking e um santuário onde um casal de criaturas pode ser usado para gerar um novo ser.

A partir desse ponto central, também podemos acessar portais que nos levam a dungeons. Essas masmorras consistem em vários andares onde encontros com inimigos ocorrem aleatoriamente, culminando com um chefe no último piso. Uma característica intrigante é a presença de áreas especiais que podem surgir de forma arbitrária entre os níveis, como uma igreja em que conseguimos recuperar nossos monstros, uma loja ou uma sala repleta de baús.

Nesses calabouços, também há certa probabilidade de encontrarmos guerreiros dispostos a testar nossas habilidades. Entre esses diversos tipos de oponentes, um com aparência de feiticeiro se destaca, pois, ao ser derrotado, nos teleporta diretamente para um dos andares finais.

Com algumas exceções, muitas dessas dungeons não são obrigatórias; entretanto, são extremamente úteis para a obtenção de novas criaturas e para a prática do famoso grinding. Nesse sentido, além de alguns chefes se oferecerem para se juntar à equipe após serem derrotados, podemos recrutar novos monstros oferecendo-lhes alimentos durante os confrontos.

Batalhas que transcendem o comum

O sistema de combate de Dragon Warrior Monsters pode parecer bastante simples à primeira vista, ocorrendo por turnos e nos proporcionando a possibilidade de controlar três monstros e escolher ações típicas do gênero, como atacar, defender, usar itens ou fugir. No entanto, ele possui algumas particularidades que o tornam singular e complexo.

Durante as explorações nas masmorras, o jogador tem total controle sobre os monstrinhos, podendo escolher especificamente qualquer tipo de ação ou habilidade que eles possuam. Entretanto, a progressão da campanha ocorre na arena localizada no reino, e aí as coisas não são tão simples.

Como já mencionado, os confrontos na arena são divididos em categorias, indo de G a S. Em cada classe, o jogador deve enfrentar consecutivamente três treinadores sem o auxílio de qualquer item. E não para por aí: nessas batalhas, nossos comandos sobre os monstros são mais generalizados. Em vez de escolher especificamente qual habilidade usar e em qual adversário mirar, conseguimos apenas selecionar a abordagem de cada criatura, seja mais agressiva, mista, cautelosa ou focada em economizar pontos de habilidade (MP).

Esse aspecto poderia tornar os embates completamente imprevisíveis, mas é aí que entram as personalidades dos monstrinhos. Cada bicho possui uma individualidade que é influenciada pela herança dos pais e moldada com base nas abordagens que o jogador utiliza durante as lutas. Dessa forma, uma criatura pode nascer com um traço, mas mudar para outro à medida que se desenvolve.


São mais de 20 personalidades disponíveis e, embora algumas delas sejam semelhantes, elas alteram substancialmente as reações que nossos aliados têm aos nossos comandos. Para ilustrar, um camarada de natureza Lazy (preguiçosa) dificilmente utilizará uma habilidade valiosa em um momento crítico, podendo simplesmente não fazer nada ou deixar de curar um aliado prestes a sucumbir, mesmo que tenhamos selecionado a opção cautelosa. Por outro lado, um monstrinho Hot Blood (sangue quente) se comportaria de forma totalmente diferente, utilizando a habilidade de cura ou proteção necessária à situação.

Devido a essa característica, o treinamento dos monstros vai muito além de simplesmente ganhar níveis, sendo influenciado diretamente pela forma como o jogador se comporta nas batalhas e pelas linhagens de reprodução, como veremos adiante.

Reprodução igualmente complexa

Como não poderia faltar em um jogo de criação de monstrinhos, em Dragon Warrior Monsters, temos a possibilidade de acasalar um casal de criaturas para gerar um ovo e, consequentemente, um novo ser. Para realizar o cruzamento, cada um dos bichos deve estar, no mínimo, no nível 10. Embora o novo aliado surja no nível um, ele herda as principais características dos pais, mais precisamente, estatísticas e habilidades. 

Resumidamente, os atributos dos pais são somados e divididos por quatro. Assim, se o pai tem 200 de pontos de vida (HP) e a mãe tem 300, a soma será 500, e o bebê nascerá com 25% desse valor, ou seja, começará com 125 de HP já no nível 1. Quanto às habilidades, cada monstro possui três técnicas que podem ser aprendidas naturalmente à medida que ele evolui de nível. Dessa forma, o filhote pode adquirir as três habilidades de sua espécie e as da espécie de ambos os pais. Além disso, se os pais já tinham obtido outras skills por herança, o filhote também poderá aprendê-las.

Esse é apenas um resumo de como funciona a reprodução, pois há muitas outras especificidades que o jogador deve aprender e considerar, como os bônus recebidos pelo filho devido à soma dos níveis dos pais, heranças de resistências e personalidades, e as prioridades que uma espécie tem sobre a outra durante o processo de cruzamento.

É importante mencionar que, embora o sistema de acasalamento seja bastante complexo, as informações não são ocultadas do jogador, pois os NPCs e monstros presentes no reino oferecem muitas dicas a esse respeito. Assim, embora possa ser desafiador acostumar-se e entender como tudo funciona, é completamente possível dominar e aproveitar ao máximo esse sistema.

O mais cativante é que não ficamos limitados aos atributos estáticos e restritos dos monstrinhos, como ocorre em muitos jogos do gênero. Aqui, o jogador realmente consegue potencializar suas criaturas preferidas, mesmo que inicialmente elas sejam muito frágeis. Sendo assim, o cruzamento não é apenas uma opção, mas uma necessidade para adquirir monstros mais poderosos e superar os desafios mais imponentes.

Legado e futuro

Dragon Warrior Monsters foi e ainda é frequentemente comparado a Pokémon; contudo, devido à configuração das dungeons e à complexidade dos sistemas de jogo, acredito que se assemelha muito mais aos jogos principais e derivados da série Megami Tensei, ainda que seja bem menos implacável. No entanto, qualquer tipo de comparação com outras obras é inadequada, pois, embora haja similaridades, estamos tratando de uma experiência inteiramente única.

A popularidade e o sucesso deste spin-off, muito maiores no Japão do que no Ocidente, resultaram numa sequência chamada Dragon Quest/Warrior Monsters 2, além de outros títulos que, juntos, formam a subsérie Monsters de Dragon Quest.

Infelizmente, a maioria dos jogos dessa série permaneceu restrita ao Japão, incluindo os remakes do primeiro título. No entanto, chegaram ao Ocidente Dragon Quest Monsters: Joker e sua sequência, Dragon Quest Monsters: Joker 2. Ambos os games foram lançados para o Nintendo DS e são bastante divertidos, sendo recomendados para aqueles que desejam se aprofundar na série.

Como mencionado, o primeiro Dragon Warrior Monsters também recebeu dois remakes. O primeiro foi lançado para o PlayStation em uma coletânea que o incluía juntamente com o remake da sequência, chamado Dragon Quest Monsters 1+2. Já o outro relançamento ocorreu no 3DS com o nome de Dragon Quest Monsters: Terry's Wonderland 3D. Embora essas sejam produções que também valem a pena serem exploradas, elas estão igualmente restritas ao idioma japonês.

Ainda que muitas das obras da série Monsters não tenham cruzado as fronteiras do Japão, temos razões para celebrar, pois Dragon Quest Monsters: The Dark Prince será lançado para o Nintendo Switch em dezembro e contará legendas e dublagem em inglês. 

Uma joia do Game Boy Color

Dragon Warrior Monsters inaugurou uma série incrível nascida de uma das franquias mais influentes dos RPGs. Embora compartilhe algumas semelhanças com outros jogos de criação de criaturas, ele brilha como uma joia única no Game Boy Color.

É lamentável que os remakes e outros lançamentos tenham permanecido confinados ao Japão, deixando-nos ansiosos e esperançosos de que The Dark Prince mantenha os padrões de qualidade elevados estabelecidos por seus predecessores.

Revisão: Juliana Paiva Zapparoli

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.
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