Jogamos

Análise: Bem Feito (Switch) é um creepypasta jogável

Este simulador brasileiro aborda um tópico atípico, mas mergulha em águas rasas em sua execução.

Bem Feito
é um simulador curioso desenvolvido pela brasileira OiCabie. A obra teve o seu lançamento original para PC em 2020, mas foi modernizada e relançada para os sistemas modernos. Brincando com o conceito de creepypasta, o título faz o jogador mergulhar em uma curiosa experiência metanarrativa de terror.

Vamos brincar?

A ideia de Bem Feito nos coloca para explorar um suposto emulador de um jogo antigo do videogame ficcional Jogaroto, pertencente a uma empresa chamada Megasoft. Após entrar no sistema, o jogador pode explorar seus arquivos, encontrando vários itens encriptados e protegidos por senha. Dentre as opções do que fazer, o nosso foco vai para o emulador oficial Garotron e sua única rom: Bem Feito.

O Bem Feito dentro dos arquivos é uma espécie de simulador de vida em que assumimos o controle de Reginaldo, um garoto de aparência asseada e grande sorrisão no rosto que precisa realizar várias tarefas para aproveitar seu dia.

De forma nada sutil, o jogo brinca com a expectativa criada em cima desse personagem de atitudes forçadamente simpáticas, mostrando imagens macabras. Entre as nossas atividades diárias, temos sempre aquela tarefa que mostra a perversidade do mundo ao redor de Reginaldo. O riso do personagem passa a virar uma imagem assustadora conforme eventos violentos começam a ser executados.

Tarefas mundanas

Em termos gerais do funcionamento do jogo, tudo é apresentado de forma bem simples. Reginaldo vive uma casinha com um grande quintal e cabe ao jogador ir de um lado para outro realizando suas missões. As tarefas envolvem interações simples com objetos específicos de acordo com o dia da semana.

Embora o jogo se apresente como um simulador, só podemos interagir com o mundo dentro do escopo dessas tarefas. Qualquer tentativa de fazer outra coisa no máximo levará Reginaldo a mencionar que não é hora para fazer aquilo. Estamos totalmente restritos a concluir a lista de tarefas e nada mais.

A única maleabilidade que temos envolve a capacidade de simplesmente passar o dia deitando na caminha sem concluir todas as atividades. Com isso, podemos acessar um final alternativo que explora de fato a perspectiva de uma “creepypasta com fundo de verdade”. 

Porém, vale destacar que o jogo nem leva em conta se foi apenas a tarefa assustadora que não foi feita ou se o jogador simplesmente pulou direto para os próximos dias sem fazer nenhuma atividade, criando situações em que o final alternativo não faz sentido.

O terror pelo terror

Quando discuti sobre jogos de terror em outras análises, um tópico que já mencionei algumas vezes é o objetivo por trás da temática. Obras macabras e horripilantes podem, a princípio, parecer ter apenas o propósito de divertir um público excêntrico, mas é comum que elas tragam discussões interessantes sobre tópicos complexos, sejam eles de cunho psicológico ou social.

Como creepypasta, Bem Feito brinca com o aspecto metanarrativo, buscando oferecer uma perspectiva em que as linhas entre realidade e ficção se bagunçam um pouco. Nesse ponto, o jogo também questiona a nossa tendência a seguir ordens em videogames sem se preocupar com as consequências; afinal, na simulação, não tem problema matar e realizar atrocidades variadas.

Infelizmente, a discussão não vai além disso e mesmo os pontos de metanarrativa são apresentados de forma muito simples. Embora o seu conceito de terror seja atípico no mercado, o que temos aqui é uma obra que não consegue aproveitar o tópico para ir além do óbvio e do que seria fácil de inferir desde o início.

É uma pena, pois temos aqui belas ilustrações fofinhas e perturbadoras utilizadas de forma bem adequada. Dá para notar que o conceito é algo que a desenvolvedora gosta bastante e se esforçou para replicar de uma forma que brincasse com a nostalgia e ao mesmo tempo desse uma forte sensação de desconforto com as reviravoltas. Contudo, a exploração temática merecia ir além para de fato fazer o título se destacar no mercado de terror.

Poderia ter sido mais

Bem Feito
é um simulador curioso e o conceito de creepypasta, embora já não esteja mais em seu apogeu, poderia fornecer uma perspectiva especial. Infelizmente, o resultado final é uma experiência superficial, restritiva e que acaba sendo subdesenvolvida sem trazer uma discussão interessante à mesa. Mesmo assim, fico na expectativa por futuros projetos da OiCabie e sua equipe e acredito que eles têm potencial para fazer algo muito melhor no futuro.

Prós

  • A experiência de creepypasta é um conceito muito legal e pouco explorado na mídia;
  • Ilustrações retrô fofinhas e perturbadoras muito bem colocadas;
  • Uma boa quantidade de materiais adicionais em forma de texto e arquivos como manuais que brincam com a realidade em sua ambientação metanarrativa.

Contras

  • Ao final, a execução do modelo de creepypasta acaba sendo simples, subaproveitando a oportunidade para discutir algo mais profundo com a proposta;
  • Estrutura linear demasiadamente restritiva na lista de tarefas.
Bem Feito — Switch/PC/PS4/PS5/XBO/XSX — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela QUByte Interactive

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
Este texto não representa a opinião do Nintendo Blast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


Disqus
Facebook
Google