Resenha

A Concierge Pokémon leva os monstrinhos para um resort tropical em uma série repleta de leveza e fofura

A minissérie produzida em parceria com a Netflix acerta na arte, no clima aconchegante e no fanservice.


Pense na série The White Lotus, da HBO, sobre uma rede de hotéis de luxo. Agora, tire as pessoas mesquinhas, segredos sombrios, traições e mortes e, no lugar disso tudo, coloque Pokémons. Seja bem-vindo à minissérie A Concierge Pokémon!

Antes de seguirmos em frente, é preciso dizer como a animação é uma beleza. A produção é do Dwarf Studio, profissionais japoneses especializados em stop-motion, já havendo feito séries infantis, a abertura do anime Beastars (veja aqui) e que, agora, trabalha em Hidari, um filme de samurai com bonecos de madeira entalhada (vale a pena ver a cena-piloto já divulgada).

A questão é que em stop-motion não há meio-termo técnico. Como o processo é muito trabalhoso, ou os envolvidos realmente se empenham em fazer algo minucioso ou não vale a pena ser feito e é mais fácil construir tudo em CGI e pronto.


A escolha de usar animação quadro a quadro com bonecos e maquetes por si só é digna de atenção e, não raro, de admiração. Neste caso, o resultado refresca a tendência estética que a franquia Pokémon costuma apresentar em jogos, séries e filmes. Portanto, atenção aos detalhes ao assistir; cada um deles foi intencionalmente planejado!

Haru, eu escolho você!

A proposta do Resort Pokémon encaixa muito bem com o material base de um mundo com tantos tipos de peculiares animais sencientes. O hotel serve de contexto suficiente para reunir uma porção de monstrinhos diferentes sem precisar de qualquer outra justificativa. Logo, o próprio ambiente é o recurso narrativo mais importante para que o roteiro tome forma.




Para trilhar esse terreno, a história segue Haru, uma jovem atribulada pela pressão no trabalho e pelo fim de um longo relacionamento, o que a leva a desistir da movimentada vida urbana e pegar uma vaga de emprego no Resort Pokémon localizado em uma ilha tropical. Sim, parece roteiro de um jogo aconchegante de simulação social ou fazendinha!

Lá, ela encontra outros três personagens que servirão de apoio: Alisa, a dona do hotel, e Tyle e Watanabe, dois funcionários. Com eles, Haru deve aprender que o que importa no hotel é fazer os hóspedes se divertirem. Para isso, primeiro ela deverá passar um dia como hóspede, mas a moça está sempre assombrada pelo pensamento de que deveria estar trabalhando, tendo grande dificuldade de relaxar.




Depois, deve encontrar um Pokémon e fazê-lo sentir como ela mesma sentiu no seu dia de hóspede. O escolhido é um Psyduck tímido que rondava o hotel. Vários monstrinhos selvagens que habitam a ilha têm livre acesso às dependências do resort e, de vez em quando, um deles se apega a um funcionário e passa a ajudá-lo nas tarefas e na diversão. É assim que o atrapalhado ornitorrinco psíquico se junta a Haru, que é como sua contraparte humana que precisa desafogar a cabeça cheia para poder funcionar direito.

Prepare a Pokédex

É claro que um dos propósitos de existência dessa série é o fanservice, fazendo algumas dezenas de espécies de Pokémon desfilar pela tela para o prazer do público. A maioria vem da icônica primeira geração, então veremos Charmander, Bulbasaur, Eevee, Dragonite, Snorlax, Graveler, Diglett, Magikarp, Gyarados, Rattata, Pidgeot e Psyduck, entre outros. O quê? Você perguntou de Pikachu? O quarto episódio joga uma bomba de fofura com dez deles juntos, que tal?




Da segunda geração, surgem Wooper, Hoppip, Skiploom e Furret, enquanto da terceira dão as caras Metagross, Mudkip, Wingull e Wailmer. Da quinta vem o trio de macaquinhos Panpour, Pansear e Pansage. Ainda há vários outros não mencionados aqui.

Boa parte deles são meros figurantes para fazer girar a roda do fanservice, enquanto outros têm mais participação recorrente e alguns são os companheiros da protagonista e seus amigos humanos. Fora os muitos outros que fazem pontinha como easter eggs representados em tapeçarias, pinturas, estampas de roupas e até logomarca de notebook, de Oddish e Magnemite a Lugia.


Em uma vertente mais tranquila da franquia, A Concierge Pokémon não fala de capturar bichinhos nem de colocá-los para lutar. Nada de “gotta catch ’em all” ou treinadores que sonham em se tornar os maiores do mundo à custa dos seus aliados! A única referência a Pokébolas é a chaleira temática de Haru. O Resort Pokémon é um lugar de liberdade que tem em mente o bem-estar e a diversão de monstrinhos fora do bolso, que podem estar acompanhados de seus treinadores ou não.

De certa forma, a premissa aconchegante lembra a de Pokémon Snap ao cercar o protagonista de Pokémon que, ainda que não estejam em seu habitat natural, se encontram em um ambiente isolado e seguro onde eles são o verdadeiro centro das atenções. As pessoas não estão ali para dominá-los, treiná-los e comandá-los, mas para aprender sobre eles, ter empatia, cuidar e conviver.



Quem é este Pokémon?

Agora preciso fazer uma confissão. Não fujam, apenas continuem lendo, prometo que depois vai fazer sentido. É isto: eu nunca fui fã de Pokémon, nunca tive interesse nos jogos e tenho minhas opiniões sobre a voracidade capitalista com que a franquia se expande. No entanto, meus filhos despertaram para o tema no começo do ano e eu decidi direcionar o interesse deles com opções selecionadas (série animada clássica, livro enciclopédico, mangás e pelúcias — e nada de TCG!).

Por isso, quando vi o carismático trailer de A Concierge Pokémon, identifiquei de imediato uma oportunidade diferente de encontrar afinidade com aquele mundo junto com minhas crianças, pois sou fascinado pela animação stop-motion e a pegada colorida e pacífica da série a faz parecer muito agradável. Felizmente, eu estava certo.




Esta é a moral: a história de um resort tropical para Pokémon me cativou mesmo eu sendo um não-fã cujo conhecimento periférico desse universo se resume ao que adquiri por osmose na época da febre da primeira geração (incluindo leituras da saudosa revista Nintendo World).

Com meus meninos (9 e 5 anos) a coisa fluiu bem, mas precisou do meu pontapé inicial para isso. O mais velho queria assistir a Sonic X, mas eu disse que queria ver como era a nova série. Ambos aceitaram e logo estavam no feitiço do “vamos ver mais um episódio?”, entre gritos dos nomes das criaturas que apareciam na tela e de “Furret, que fofinho!!!”, enquanto me explicavam quem eram os que eu não conhecia (a lista que redigi acima teve a ajuda deles). Nem sentimos o tempo passar.



É aqui que entra o principal e, talvez, o único defeito de A Concierge Pokémon: o tempo é muito curto. Seus quatro episódios somam apenas 1h12min, mal passando a barreira do longa-metragem. Por um lado, isso a torna ideal para assistir de uma vez só, mas, por outro, a natureza episódica dificulta que tentemos encarar como se fosse um filme só, completo e redondinho. Nem precisaria de muita coisa, talvez outros quatro episódios deixassem uma sensação mais palpável de dever cumprido.

No fim, ficou a vontade de “quero mais”, o que testemunha tanto de como foi agradável nossa estadia no resort quanto de como o formato foi insuficiente para satisfazer a fome por fofura inocente e otimista produzida com esmero técnico. A sensação é de que foi um bom prato de entrada que deixa a vontade de experimentar um prato principal que não virá.

A saída é repetir o prato: é claro que meus filhos já assistiram de novo, dias depois.
Non, a dubladora japonesa de Haru.

Evoluindo em leveza

O Resort Pokémon não é apenas um lugar distante para que a protagonista recomece sua vida longe dos estresses de uma trabalhadora da cidade presa ao smartphone e às exigências profissionais; implicitamente, o mesmo pode ser dito sobre o público-alvo da ilha, os Pokémon que enfrentam uma rotina de pressão por desenvolvimento ao lado de seus treinadores.

Para cada hóspede, a estadia é um momento de ser cuidado e de respirar livremente, um parênteses em meio à vida cotidiana. Para Haru, é uma oportunidade de encontrar a si mesma ao cuidar de outros, evoluindo naturalmente junto com eles.




Pode parecer que estou tentando enxergar demais em uma série curta, simples e leve como A Concierge Pokémon, mas esses temas estão claramente presentes, mesmo que não sejam aprofundados.

No fim das contas, a minissérie de Haru em um paraíso de criaturas fofas e dotadas de personalidade é feita para encher os olhos com a beleza técnica do stop-motion, agradar aos fãs antigos e novos com a imersão no tema dos Pokémon, aquecer os corações das crianças e os adultos que as acompanham e, por fim, dar uma pequena camada fresca e bem-vinda a uma longa franquia que já trilhou tantos caminhos diferentes.
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli

Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies.
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