Star Fox 64: quando o jogo definitivo se torna o maior obstáculo da franquia

O clássico absoluto que elevou o rail shooter a tal nível de excelência que transformou cada sequência em uma tentativa de reencontrar o voo perfeito.

em 15/01/2026

Existem jogos que não apenas superam seus antecessores, mas encerram uma discussão inteira. Eles definem um gênero, um ritmo e uma identidade de forma tão precisa que qualquer continuação passa a existir sob comparação constante. Eles cristalizam uma fórmula com tamanha precisão que qualquer passo adiante corre o risco de parecer redundante, e qualquer desvio soa como traição. Star Fox 64 é um desses casos raros. Lançado no Nintendo 64, o título refinou mecânicas, ritmo e identidade a ponto de se tornar a referência definitiva da série. O problema é que, ao atingir esse nível de acabamento, ele também limitou o espaço criativo para o futuro da série.


O rail shooter definitivo

O lançamento de Star Fox no Super Nintendo foi um choque, introduzindo a tecnologia do Super FX, que permitiu gráficos e efeitos visuais inimagináveis para o console, com personagens de carisma instantâneo e um estilo de jogabilidade muito divertido. Ainda assim, apesar de toda qualidade e seus acertos, o título sofreu com os gargalos do SNES, sendo bem lento. Sua sequência logo chegaria para não apenas resolver os seus defeitos, mas também aperfeiçoar o gênero.

Star Fox 64 estabeleceu um padrão quase inalcançável para o rail shooter. O controle do Arwing é responsivo, a leitura de inimigos é intuitiva e o ritmo das fases mantém tensão constante sem se tornar exaustivo. Cada elemento existe para servir à ação imediata, sem camadas desnecessárias de complexidade.


A estrutura de rotas alternativas transforma o jogo em algo mais do que uma campanha linear. O jogador sente que está pilotando uma missão viva, reagindo a oportunidades e riscos. Não se trata apenas de atirar bem, mas de tomar decisões rápidas em pleno voo.

Esse equilíbrio entre simplicidade e profundidade explica por que o jogo permanece como um dos mais divertidos do gênero até hoje. Ele não depende de truques técnicos ou exageros narrativos. Depende de sensação, precisão e impacto.

Quando quase não sobra espaço para evolução

Ao aperfeiçoar sua fórmula de uma maneira tão completa, Star Fox 64 deixou pouco espaço para avanços naturais. Melhorar gráficos ou adicionar mais conteúdo não altera o cerne da experiência. O núcleo já estava resolvido. Qualquer tentativa de evolução precisava mexer justamente naquilo que funcionava melhor.


Com controles rápidos e responsivos, a velocidade dos veículos (aliados e inimigos) e fluidez das fases, unida a uma construção de estágios rica e coerente, Star Fox 64 se tornou um clássico instantâneo. Outros elementos também ajudaram a enriquecer e elevar o título ao que ele se tornou, como a atuação vocal (voice acting), que embora às vezes seja exagerada e engraçada, ajuda a dar ainda mais vida, identidade e emoção. 

Esse tipo de perfeição pode crirar um bloqueio criativo. Sequências passam a oscilar entre a repetição segura e a mudança arriscada. O público, por sua vez, espera algo familiar, mas não idêntico. Um equilíbrio difícil de alcançar quando o modelo já aperfeiçoado é tão forte.

O resultado é um legado pesado. Cada novo Star Fox não é avaliado apenas como jogo, mas como sucessor de um padrão considerado ideal. Isso resultou, quase sempre, em criticas, que poderiamos cogitar, exageradamente negativas sobre elementos mais inovadores e únicos de títulos posteriores ao Star Fox 64.

As sequências e os caminhos paralelos

A partir daí, a franquia passou a experimentar. Star Fox Adventures apostou na exploração em terceira pessoa, trocando o cockpit por um mundo mais próximo de um jogo de aventura tradicional. A mudança ampliou o universo, mas afastou o foco da experiência de voo que define a série para muitos fãs.


Star Fox Assault tentou conciliar ideias. Misturou fases de rail shooter com trechos em solo, buscando variedade e escala. Apesar de ambicioso, o jogo fragmentou o ritmo e nunca alcançou a fluidez de Star Fox 64 em nenhum de seus estilos.

No portátil, Star Fox Command explorou múltiplos finais e uma estrutura estratégica, mas sofreu com controles pouco precisos e uma apresentação limitada. Já Star Fox Zero voltou diretamente à base de Star Fox 64, porém apostando em controles experimentais que dividiram o público.

Em comum, todos esses jogos tentaram expandir, reinterpretar ou reinventar a série. Nenhum deles, porém, conseguiu entregar de forma plena aquilo que Star Fox 64 havia aperfeiçoado. Uma experiência de simulador espacial acessível, um rail shooter impactante e, acima de tudo, divertido. É exatamente isso que os fãs continuam esperando.

O espírito inovador da Nintendo

Essa trajetória também reflete uma característica maior da Nintendo. A empresa raramente se contenta em repetir fórmulas sem mudanças. Experimentar faz parte de sua identidade, mesmo quando isso gera resistência. No caso de Star Fox, essa filosofia entra em choque com uma base de fãs que deseja justamente a preservação de um modelo específico.


A Nintendo tenta empurrar a série para novos territórios, enquanto o público pede refinamento do que já funcionava. Essa tensão explica por que cada novo título parece um experimento isolado, e não um passo consistente adiante.

É possível que o caso mais representativo na franquia da raposa espacial esteja no ultimo título da franquia. Star Fox Zero é primoroso em praticamente tudo, atualiza o conceito de Star Fox 64, adicionando a melhor ideia de outros momentos como de Star Fox 2, entre outros. No entanto, a maior fonte de criticismo apontado em Zero foi a escolha de jogabilidade e uso do Wii U Gamepad.

Talvez o erro esteja em esperar de Star Fox algo que ele nunca precisou ser. Talvez o certo seja  aceitar que o voo perfeito já aconteceu e que não precisamos de um Star Fox 64 2.0. e sim aproveitar os experimentos propostos em cada jogo, afinal a franquia surgiu exatamente em meio a experimentações de novas tecnologias e novas técnicas.

O voo definitivo


Star Fox 64 não é apenas o melhor jogo da franquia. É o jogo que definiu seus limites. Ao entregar uma experiência tão bem resolvida, ele se tornou o ponto de comparação eterno e, ao mesmo tempo, o maior obstáculo para o futuro da série. As sequências buscaram novos caminhos, mas raramente acertaram o coração da proposta original ou aquilo que os fãs tanto esperam. Enquanto isso, o clássico permanece como lembrança e expectativa. Um título definitivo que, sem querer, condenou sua própria continuidade.

Revisão: Vitor Tibério
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Fernando Lorde
Fernando Paixão Rosa, normalmente referenciado por Lorde, está escrevendo pela internet afora há mais de dez anos e com alguns livros publicados. Escutando música 24h/dia, fã de cultura pop em suas muitas manifestações e mais fã ainda das IP's da Nintendo. Registrando as aventuras nos games no Instagram (@lordeverse) e Twitch (@lordeverso).
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