Enquanto a Nintendo parece satisfeita em manter a fórmula clássica de Paper Mario guardada como um conto de fadas antigo — querido por muitos, mas pouco revisitado —, a Sleepy Castle Studio decide reivindicar essa herança. Escape from Ever After não se limita a uma homenagem estética: ele utiliza a nostalgia como alicerce para construir algo próprio, autoconsciente e inventivo, capaz de dialogar tanto com veteranos do RPG de papel quanto com novos jogadores em busca de uma experiência mais leve.
Do “Era uma vez” ao “Bata o ponto”
A premissa é um sopro de criatividade satírica. O herói Flynt Escudeiro e sua arqui-inimiga, a dragoa Tinder, veem seu eterno ciclo de batalhas interrompido de forma abrupta quando despertam na recepção da Para Sempre S.A., uma corporação que transformou contos de fadas em contratos, metas e hierarquias. Em vez de um campo de batalha épico, ambos passam a integrar uma engrenagem burocrática que dita regras e suga a individualidade de seus funcionários.
O grande triunfo do jogo está em como ele expande essa ideia ao incorporar personagens icônicos como Pinóquio e Chapeuzinho Vermelho ao ambiente corporativo. Ao deslocar figuras tradicionalmente associadas à inocência e à fantasia para uma rotina marcada por planilhas, crachás e baias de escritório, o jogo cria um contraste que funciona tanto como humor visual quanto como comentário social leve. A crítica nunca pesa a mão: a sátira existe, mas sempre acompanhada de leveza e carisma, fazendo da narrativa um de seus pilares mais fortes.
Estética lúdica e carisma visual
Inspirado diretamente nos primeiros títulos da franquia Paper Mario, o visual aposta em cenários que lembram verdadeiros dioramas de papel. Mesmo ambientes teoricamente “sem graça”, como escritórios em plano aberto, ganham vida por meio de detalhes visuais criativos, evitando qualquer sensação de falta de identidade.
Flynt, o protagonista, também foge do arquétipo do herói silencioso e estoico. Suas reações, falas e expressões rendem bons momentos de humor, algo incomum para protagonistas do gênero, e ajudam a sustentar a experiência mesmo quando o jogo apresenta estruturas mais repetitivas.
Um dos maiores acertos de Escape from Ever After está na forma como constrói seu universo. Os personagens são carismáticos, cheios de personalidade e fazem com que o jogador queira conversar com todos, mesmo fora do caminho principal. Esses diálogos não existem apenas como complemento narrativo, mas reforçam o humor, a sátira corporativa e a identidade do mundo, tornando cada área mais viva e memorável.
Simplicidade que encanta
Encontrar o equilíbrio entre profundidade e acessibilidade não é tarefa fácil, mas Escape from Ever After faz isso parecer natural. O sistema de combate utiliza os conhecidos Action Commands, nos quais o tempo correto do comando define o sucesso do ataque ou da defesa.
Essa mecânica funciona como uma porta de entrada ideal para quem nunca se aventurou em RPGs de turno, eliminando menus excessivamente complexos em favor de uma interface limpa e intuitiva. Para veteranos — especialmente aqueles criados à base de Super Mario RPG e Paper Mario — a experiência é familiar e reconfortante, reforçando que uma jogabilidade fluida continua sendo o coração do gênero.
Exploração e dresscode do jogador
Fora dos combates, Escape from Ever After aposta em uma exploração simples, mas funcional, que privilegia o ritmo da narrativa. Os cenários seguem uma progressão clara, com espaços que incentivam a observação, pequenas interações e o retorno ocasional às áreas já visitadas, sem transformar o backtracking em um fardo. Esse caminhar mais contido combina com a proposta de uma experiência confortável, que nunca pressiona o jogador com mapas excessivamente abertos ou objetivos confusos.
A customização reforça essa sensação de pertencimento. Além das insígnias que impactam diretamente a jogabilidade, o jogo permite personalizar trajes, chapéus e até o próprio escritório do protagonista, transformando esse espaço em um ponto de descanso e expressão pessoal. Esses elementos não apenas ampliam a identidade do jogador dentro do mundo, como também ajudam a quebrar o ritmo entre batalhas, dando mais personalidade à jornada.
Uma adaptação de respeito
No aspecto técnico, o jogo demonstra cuidado e competência. A performance é estável, com transições orgânicas entre exploração e combate, algo essencial em um título que depende diretamente do timing do jogador. Diferente de outros jogos do gênero que sofrem com quedas de desempenho, aqui tudo flui de maneira natural.
Visualmente, o estilo transforma cada cenário em um livro de recortes vivo. A sensação de estar explorando um mundo de papel é constante, tornando a jornada não apenas funcional, mas também visualmente prazerosa e relaxante.
Jazz, humor e leveza corporativa
A trilha sonora é um dos grandes acertos da experiência. Carregadas de jazz, as músicas acompanham o jogador durante toda a jogatina de forma leve e envolvente, a ponto de se tornarem facilmente cantaroláveis. Se o visual remete a um livro infantil, as trilhas parecem saídas de animações antigas, criando um sentimento de nostalgia que surge de forma natural, sem jamais soar forçado.
Esse conjunto musical, aliado ao humor constante do roteiro, transforma o ambiente corporativo em algo surpreendentemente leve. Em vez de reforçar o peso da burocracia, o jogo suaviza a rigidez dos escritórios e cria uma atmosfera descontraída, onde a crítica convive com situações cômicas e momentos genuinamente carismáticos.
Promoção garantida para os fãs de RPG
Escape from Ever After é um RPG carismático e acessível que entende perfeitamente o que tornava os clássicos do gênero tão especiais. Ao misturar uma sátira corporativa inteligente com uma jogabilidade nostálgica e uma performance técnica de respeito, o jogo se torna um item indispensável para quem busca uma aventura "aconchegante" e cheia de personalidade no Nintendo Switch.
Prós
- Experiência aconchegante e acessível;
- Visual paper-art charmoso;
- Combate intuitivo com Action Commands;
- Humor criativo ao inserir contos de fadas em um contexto corporativo satírico;
- Trilha sonora em jazz marcante.
Contras
- Nível de dificuldade baixo pode não agradar jogadores mais experientes;
- Missões secundárias repetitivas em alguns momentos;
- Erros de português prejudicam a imersão narrativa;
- Efeitos sonoros repetitivos podem causar incômodo prolongado.
Escape from Ever After — PC / PS5 / XSX / Switch — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: Switch
Revisor: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sleepy Castle Studio
