Análise: Tokyo Scramble - sobrevivência e drama adolescente que não se conversam

Anne luta pela sobrevivência contra monstros enquanto discute a relação com seus amigos pela internet; e não, você não leu errado.

em 17/02/2026
Quando Tokyo Scramble foi anunciado na Nintendo Direct Partner Showcase, muitos de nós fomos pegos de surpresa. Um título de stealth, com possíveis elementos de terror, exclusivo para o Switch 2 e ainda prometendo um multiplayer diferente de qualquer coisa no mercado. Ficamos com uma baita interrogação na cabeça.

Assim que pudemos jogar o curto título da Binary Haze Interactive, muitas dessas dúvidas começaram a se esclarecer. A proposta fica evidente, seus pontos fortes e fracos também, quase tudo de uma vez. Nossa jornada com Anne nas ruínas de Tóquio é uma mistura curiosa de boas ideias, jogabilidade divertida e decisões questionáveis.

Crise adolescente em meio ao caos

O que aconteceria se uma adolescente, cujo círculo de amizade está em crise, fosse jogada em uma catástrofe e cercada por criaturas mortais e famintas? E o que problemas de amizade tem a ver com a luta pela sobrevivência? Eu não sei, mas os desenvolvedores claramente acharam que havia algo aí.

Anne sendo perseguida por um Goblin.

A jornada acompanha Anne, uma jovem prestes a terminar o ensino médio e desesperada para sair do Japão em busca de novas oportunidades nos EUA, decisão que está no centro do problema com seus amigos. Mas esse assunto teria que esperar… ou não. Parte de Tóquio cede repentinamente, arrastando Anne para ruínas escondidas sob a cidade.

Nesse cenário arruinado, a protagonista encontra criaturas que não estão para brincadeira: se for vista, morre instantaneamente. Sozinha na maior parte do tempo, ela conta apenas com seu smartwatch e seus aplicativos para sobreviver. E, claro, para discutir a relação com seus amigos — companheiros de banda — enquanto é perseguida por monstros.

Se a relação entre horror e drama social parece bizarra e deslocada, segure firme, porque o jogo insiste nela até o fim. Talvez houvesse ali a chance de uma narrativa que conseguisse trazer algo interessante. Mas as conversas banais e mal encaixadas batem de frente com a proposta de survival horror. 


Uma coisa quase não influencia a outra. No fim, acabam se anulando, enquanto a tensão se dilui, o suspense se perde e o terror fica enfraquecido pela banalidade. Alguns dos amigos de Anne estão resentidos por seu desejo de partir, outros brigando por conta de triangulos amorosos dentro da banda. No entanto,  ninguém especialmente preocupado com a capital do país sendo sugada para um "submundo", no qual, inclusive, Anne está sempre em risco de vida.

Zinos no subterrâneo

Nesse subterrâneo quase mítico de Tóquio onde Anne está presa, vivem os Zinos, criaturas que lembram versões mutantes de animais pré-históricos, entre outros: dinossauros, morcegos, louva-a-deus, e por aí vai, quase um zoológico radioativo, ou criaturas vindas de algum Turok.

Lento, porém letal.

Ao todo são oito tipos diferentes, incluindo uma variação “alfa” de uma das espécies, única e bastante semelhante ao tipo mais comum, os chamados Goblins. Cada um dos Zinos tem características únicas, com propriedades que geralmente atraem mais sua atenção. Por exemplo, o Badbat é altamente sensível ao som, o que também nos oferece uma brecha para o contornar. O número pode parecer pequeno, e talvez até seja, porém, considerando a curta duração e o escopo de Tokyo Scramble, torna-se aceitável.

Xogun – O líder dos Goblins



O cenário, por outro lado, é um ponto ainda mais interessante. As ruínas da cidade se misturam com estruturas que lembram cavernas naturais e até sugerem a existência de uma cidade medieval japonesa escondida sob a superfícieda metrópole, fazendo referência à criatura apelidada de Xogun por Anne.



O design dos níveis, divididos em capítulos, funciona bem. Não é excessivamente complexo, mas também não é óbvio, também não é excessivamente longo. Mas para superar os desafios precisamos observar, planejar e testar estratégias para avançar.

Anne, é melhor você correr… ou não

Anne é, para todos os efeitos, sedentária e dependente de tecnologia, o que, ironicamente, é justamente o que a mantém viva. A base do jogo é furtividade e resolução de puzzles. Não há combate direto. A única “arma” é o smartwatch. Uma vez alcançada por um Zino, é morte certa.


Com o auxílio de dispositivos espalhados pelos cenários, de escadas rolantes a empilhadeiras, é possível distrair, ocultar, enganar e, raramente, eliminar algumas criaturas. O ideal quase sempre é escapar sem ser visto, exceto em confrontos específicos que funcionam como boss battles, nos quais o uso estratégico das armadilhas via aplicativos (apelidados por Anne de Diana) se torna praticamente obrigatório.

O uso dos dispositivos inteligentes para enganar ou golpear os Zinos geram algumas cenas que, de certo, serão as coisas mais lembradas do jogo. Ver um Goblin correndo numa escada rolante, como se estivesse uma academia, ou os agarrar com escavadeiras com grua, como se fossem bichos de pelúcia, é engraçado por si só. Algumas soluções que Anne tem para sobreviver são realmente muito engenhosas.

Outro elemento importante é o medidor de vigor representado pelos batimentos cardíacos. Em momentos de perseguição é preciso correr, mas qualquer sprint curto já eleva drasticamente o ritmo cardíaco, podendo deixar Anne sem fôlego, o que normalmente termina em captura. Além disso, correr faz barulho, e o cenário está repleto de entulho.

Badbat, extremamente sensível ao som.

A jogabilidade e a furtividade são, sem dúvida, o ponto mais instigante do jogo. Frequentemente há mais de uma forma de cumprir os objetivos. A exploração também é incentivada, já que antenas e pontos específicos permitem carregar e evoluir aplicativos.

Como a campanha é curta, os capítulos têm duração adequada e contam com checkpoints bem posicionados. Isso evita frustração excessiva e repetição cansativa.

Alto potencial sci-fi, execução confusa

Criaturas bizarras vivendo em cavernas subterrâneas, cidades perdidas ocultas no subsolo de uma grande metrópole e tudo isso sendo “descoberto” por acaso em um acidente brutal. É fácil ver esse tipo de conceito indo para tudo que é tipo de obra de ficção especulativa e fantasia em diversas mídias, é um conceito prolifico e divertido, no entanto, Tokyo Scramble parece não saber exatamente para onde ir.


Ao não mostrar vítimas do acidente ou dos ataques dos Zinos, o jogo ameniza demais o perigo e o senso de realidade. O lado social também não convence: as conversas soam banais e pouco críveis diante da situação extrema. O jogo parece não querer se comprometer profundamente com nenhum dos temas que o permeiam.  

Curiosamente, a forma como as mensagens são escritas, com jargões, abreviações e acrônimos, funciona bem e combina com a proposta de uma protagonista nativa digital. A localização também é muito competente. O problema não está na forma, e sim no conteúdo.

Muitas almas num corpo só

Se tem uma experiência única que Tokyo Scramble oferece é a possibilidade de um multiplayer que acaba sendo caoticamente engraçado.


Jogos como Mario Kart e Mario Party são carinhosamente reconhecidos como finalizadores de amizade, pela quantidade de estresse e discórdia que são capazes de gerar no multiplayer, porém o jogo da Binary Haze Interactive eleva a loucura.

Com o GameShare, é possível jogar em até 4 jogadores, “controlando” aspectos diferentes da jornada com Anne, sua movimentação, ações, os apps e a câmera do jogo. E tentar coordenar para que tudo saísse minimamente bem foi uma das experiências mais confusas, engraçadas e estressantes dos últimos tempos, rendendo boas risadas e momentos de fúria.

Sincronizar movimentos e ações com seus companheiros sem que ninguém tenha jogado o suficiente antes gera momentos de confusão genuínos. Você correndo para um lado, a câmera apontada para direções aleatórias, periféricos sendo ativados fora do tempo — ou sequer são acionados — tornam a confusão maravilhosa. O jogo de sobrevivência e furtividade vira, praticamente, um party game.

Como um sonho febril


Ninguém pode acusar Tokyo Scramble de ser genérico ou pouco original. Ele reúne boas ideias e conceitos interessantes que, se melhor trabalhados, podem resultar em algo realmente marcante.

No entanto, no fim das contas, parece um caldeirão de ideias e mecânicas que se perdem em um sonho febril adolescente sobre relacionamentos e monstros subterrâneos.

É um jogo com mecânicas divertidas, furtividade competente e um multiplayer caótico e divertido, mas que sofre por tentar mirar em muitos lugares ao mesmo tempo. Contudo, o estúdio provavelmente sabe muito bem do escopo e dos pontos fortes e fracos, e talvez seja isso que reflita no preço mais baixo e acessível que a maioria dos títulos do console.

Prós

  • Furtividade e resolução de puzzles bem executadas;
  • Level design interessante e não óbvio;
  • Multiplayer é muito caótico, porém divertido;
  • Preço justo pela experiência e curta campanha que entrega;
  • Boa adaptação da linguagem digital nas mensagens e uma ótima localização.

Contras

  • Narrativa social rasa e deslocada;
  • Terror pouco impactante;
  • Conceito é sci-fi instigante, mas falha na falta de aprofundamento nos temas;
  • Conflito entre drama adolescente e horror.

Tokyo Scramble — Switch 2 — Nota: 7.0

Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela: Binary Haze Interactive
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Fernando Lorde
Escritor e gamer, pode ser encontrado em: Instagram (@lordegamingblog) e Twitch (@lorde10hz).
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