Goemon’s Great Adventure: o clássico 2.5D que nadou contra a maré do Nintendo 64

Enquanto o N64 abraçava completamente o 3D, Goemon provou o potencial que os plataformas 2.5D poderiam ter alcançado no console.

em 14/02/2026

No fim dos anos 1990, o Nintendo 64 era praticamente dedicado aos jogos 3D. Depois do sucessode Super Mario 64 e The Legend of Zelda: Ocarina of Time, a companhia abraçou de vez os mundos abertos, as câmeras livres e a sensação de exploração tridimensional como o novo padrão a se seguir. Os jogos de plataforma tradicionais praticamente desapareceram do catálogo do console.

É justamente por isso que Goemon's Great Adventure se destacou tanto. Enquanto seu antecessor direto no 64, Mystical Ninja Starring Goemon, havia seguido a tendência tridimensional comum a grandes sucessos da época, a sequência decidiu fazer o caminho inverso. Em vez de expandir o excelente escopo 3D de seu antecessor, retornou ao estilo lateral clássico, resgatando as raízes da franquia de forma impressionante.


De volta ao platformer

Quando o Nintendo 64 surgiu com seus seus grandes jogos como o Super Mario 64, todos ficamos surpresos, os jogos 3D eram impressionantes. Mas é impossível negar que, durante a trajetória da vida do console que a ausência de jogos de plataforma que por anos fez parte da nossa vida gamer, deixou um vazio em sua biblioteca. Goemon's Great Adventure foi um dos poucos títulos que vieram a esse resgate.

Ao retornar ao formato de plataforma lateral, Goemon recupera o espírito dos títulos da série lançados para o NES e SNES. A aventura é estruturada em cinco mundos distintos, cada um com temática própria, identidade visual marcante e grande variedade de inimigos exclusivos. Essa divisão não serve apenas como organização estrutural, mas como ferramenta para explorar mecânicas específicas e manter o ritmo sempre renovado.

As fases de Great Adventure costumam ter caminhos e áreas escondidas em sua estrutura.

As fases em geral são bem elaboradas e cheias de caminhos alternativos, mas não são tão longas, com exceção com os castelos no fim de cada mundo. Há bifurcações que recompensam a curiosidade, áreas escondidas e segredos que incentivam a revisitação. Em muitos momentos, o progresso depende do personagem escolhido.

Certos trechos aquáticos, por exemplo, só podem ser explorados com Sasuke ou Yae, o que aumenta a rejogabilidade e as fases mais divertidas. Esse design cria uma dinâmica interessante de retorno a fases anteriores, não por repetição forçada, mas pela descoberta de novas possibilidades.

A estrutura em 2.5D também permitiu que o jogo brincasse com profundidade e camadas de cenário, dando um leve sabor tridimensional sem abandonar a clareza da progressão lateral. O resultado é um equilíbrio raro, algo que também pode ser visto em Mischief Makers, outro ótimo título de plataforma 2.5D no N64.

Dia e noite

Goemon’s Great Adventure tem uma mecânica que enriquece totalmente a experiência do jogo, que é o sistema de dia e noite. Durante o dia, as fases apresentam um fluxo mais controlado e previsível de inimigos e obstáculos. Quando a noite chega, o cenário se transforma. Surgem adversários exclusivos desse período e a quantidade de ameaças aumenta significativamente.

O "relógio" na parte inferior indicando o ciclo de dia e noite.

Essa mudança altera o ritmo da partida e eleva o nível de desafio. Nós precisamos redobrar a atenção, recalcular saltos e administrar melhor os recursos. A sensação é de que a mesma fase ganha uma segunda personalidade, mais agressiva e imprevisível.

O sistema de dia e noite, porém, não fica restrito às fases de plataforma. Nas cidades do jogo, durante a noite há personagens mais suspeitas pelas ruas, NPCs e objetivos únicos, deixando o mundo mais vivo.

Cidades e elementos de RPG

Como dito acima, o ciclo de dia e noite também influencia as cidades, que funcionam como centros de preparação e aprofundamento narrativo. Entre uma etapa e outra, visitamos vilarejos vibrantes, cheios de NPCs com diálogos bem-humorados e personalidade marcante. Nessas áreas é possível comprar itens, recuperar energia e adquirir recursos importantes para enfrentar os desafios seguintes.


Há um claro toque de RPG na estrutura. Conversar com os moradores não serve apenas para obter dicas, mas para entender melhor o universo excêntrico da série. Algumas interações liberam minigames e pequenas missões paralelas. Certas tarefas só ficam disponíveis à noite ou exigem personagens específicos, o que reforça a integração entre as mecânicas centrais do jogo.


Essas cidades ajudam a quebrar o ritmo puramente linear das fases e criam um mundo mais orgânico. Não estamos apenas avançando por níveis isolados, mas participando de um universo vívido.

Personagens realmente únicos

Um dos pontos mais interessantes da franquia é o carisma e as características únicas de Goemon e sua turma,e  aqui não seria diferente. Goemon é o protagonista equilibrado, versátil e adaptável à maioria das situações. Ebisumaru oferece ataques mais pesados e maior força bruta, sendo útil em confrontos diretos. Sasuke, o ninja mecânico, possui habilidades que favorecem mobilidade e precisão. Yae se destaca especialmente em ambientes aquáticos e em trechos que exigem maior agilidade.

Goemon, Ebisumaru, Sasuke e Yae em algumas de suas roupas alternativas.

Cada personagem apresenta diferenças reais em atributos como altura de salto, alcance de ataque e habilidades específicas. Essa variedade não é superficial. Ela impacta diretamente a forma como o jogador encara as fases. No modo cooperativo, essa dinâmica se intensifica, criando momentos caóticos e divertidos que quem jogou o New Super Mario Bros. Wii e New Super Mario Bros. U entende bem.

Usando cultura japonesa no seu melhor

Visualmente, Goemon tem personagens no estilo chibi extremamente expressivos. As animações são fluidas e cheias de personalidade, transmitindo humor mesmo em situações de perigo. Os cenários são ricos em detalhes e fortemente inspirados no folclore japonês, misturando tradição, sendo especialmente inspirados pelo período Edo do Japão.


Os inimigos seguem essa mesma linha, variando entre o excêntrico e o carismático. Há sempre uma sensação de criatividade transbordando na tela, algo que diferencia o jogo de muitos outros títulos do console. As criaturas que recheiam o mundo do jogo são quase sempre baseadas em criaturas do folclore ou elementos da cultura japonesa.

A sonoridade também brilha aqui, e o título figura entre os destaques do Nintendo 64. A trilha sonora é marcante, remetendo ao Japão Feudal, variada e perfeitamente alinhada com a ambientação de cada mundo. As composições alternam entre temas alegres e músicas mais intensas, acompanhando o ritmo da aventura. Os efeitos sonoros complementam essa qualidade, adicionando impacto e identidade a cada ação.

Os melhores ninjas

Infelizmente, grande parte da franquia Goemon permaneceu restrita ao Japão, o que limitou seu reconhecimento no Ocidente. Isso é particularmente frustrante quando se observa a qualidade consistente da série e o carisma de seus personagens. A mistura de humor, ação, folclore e mecânicas sólidas tem identidade própria e potencial para alcançar um público muito maior.

E mais skins alternativas.

Se mais títulos tivessem recebido localização adequada e divulgação internacional, é possível que Goemon estivesse hoje no mesmo patamar de outras mascotes icônicas da história dos videogames, como Mario e Sonic. A série reunia carisma, criatividade, humor e competência técnica suficientes para ocupar esse espaço.

Que Goemon volte

Goemon’s Great Adventure é um clássico cult do Nintendo 64. Em uma geração que exaltava o 3D como símbolo máximo de evolução, o jogo demonstrou que o design 2D poderia ter oferecido ao console. Ao combinar fases elaboradas, sistema dinâmico de dia e noite, cidades com elementos de RPG, personagens distintos e uma apresentação audiovisual marcante, o título construiu uma identidade própria. E embora não tenha sido o mais amplamente divulgado, quem o jogou certamente se lembra bem.

As batalhas pilotando Goemon Impact e Miss Impact são uma das experiências mais divertidas no N64.

Embora não seja a franquia mais popular da Konami, Goemon com certeza merecia ser trazido de volta com títulos novos. E agora com a Konami parecendo mais ativa do que nunca, trazendo de volta inclusive Castlevania depois de anos de silêncio, quem sabe o Goemon não acabe voltando.

Revisão: Vitor Tibério

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Fernando Lorde
Escritor e gamer, pode ser encontrado em: Instagram (@lordegamingblog) e Twitch (@lorde10hz).
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