Robin Hood (1973), nosso amado Star Fox, O Fantástico Sr. Raposo e Zootopia são alguns exemplos desse estilo artístico. O que todos têm em comum com nosso jogo de hoje, Back to the Dawn? Todos têm raposas espertas e carismáticas como protagonistas. Sem mais delongas, vista o macacão laranja, contrabandeie algo e venha comigo para o xilindró.
Inimigos da verdade
Thomas the Fox é um jornalista de sucesso. Entrega matérias poderosas sobre a cidade que mora. Em seu último furo, investiga a poluição do rio local devido a uma usina construída a beira das águas, conectada ao insidioso prefeito, que tentará de tudo para ser reeleito.
Em uma bela manhã, nosso repórter investigativo é quase subornado por um informante do corrupto prefeito na tentativa de comprar seu silêncio. Quando nega o dinheiro, ele é imediatamente parado pela polícia e preso por porte de substâncias ilegais. É então mandado para Boulderton Prison, a prisão de segurança máxima na vizinhança. Com pouco tempo para as eleições locais, Thomas precisa fazer o impossível para sair da prisão e revelar a verdade.
Enquanto isso, outro protagonista se esgueira nas sombras: Bob the Black Panther se deixou ser preso de propósito para se infiltrar na prisão e encontrar o elusivo Fenrir the Wolf, ao mesmo tempo que tem que lidar com suas escolhas de vida e encontrar uma rota de fuga não apenas da prisão, mas de seus pecados.
À espera de um milagre
Um dos maiores trunfos de Back to the Dawn está na sua liberdade. O texto acima descreve um pouco de sua complexa e contagiante história, mas a forma como ela pode se desenvolver depende exclusivamente do jogador. Logo no começo da narrativa de Thomas, podemos aceitar o dinheiro e encerrar o jogo, dando um final ruim, por exemplo. Antes mesmo disso, podemos escolher a história da raposa, dando uma pequena vantagem no começo e um pouco de lore para quem ele é, ao mesmo tempo que uma pequena falha para não deixar as coisas tão simples. Exemplo: ser jornalista de guerras fará com que Thomas seja durão e tenha mais força física… com a consequência de pesadelos recorrentes todas as noites, tomando boa parte de sua saúde mental.
O jogo vive e morre com as escolhas que você faz na prisão, tomando preciosos minutos de seu cotidiano simplesmente para escutar uma conversa entre mais prisioneiros ou ponderar sobre uma oportunidade de chegar à sua saída. Franquias como Persona e Pikmin utilizam o tempo de forma regrada, onde a cronologia pode ser estipulada por certas ações em cada parte do dia (como Persona) ou contínuas e ininterruptas (como em Pikmin). Back to the Dawn funciona como uma extensão do tempo em Persona, onde temos um itinerário para vivermos na prisão e adequar com os afazeres.
Uma simples conversa para conhecer outro prisioneiro dura 30 minutos, trabalhar na lavanderia mais 30 minutos, ler algum livro são 20 minutos, e por aí vai. No entanto, há mais uma condição além do tempo entre períodos: Thomas também tem poucos pontos de foco necessários para fazer ações, como conversar com alguém novo ou desvendar um mistério. Eles recarregam depois de um tempo. Além disso, também tem limitadores de saúde do corpo, mente e somos, ainda, saciados com descanso e comidas. Essas restrições adicionam mais realismo à trama e estratégia para progredir com o jogo, inclusive com limitações para regredir com saves em dificuldades mais altas.
Golpe baixo
Viver sozinho na prisão é praticamente pedir por uma pena de morte, especialmente quando uma guerra entre gangues está prestes a estourar dentro dos muros cinzentos. Ainda mais quando existe a opção de atacar os prisioneiros e começar um modo de luta por turno (ideia interessante, porém a execução é bem fraca, então nem me incomodei de ser violento). Por isso, é crucial Thomas se enturmar entre os valentões para conseguir uma forma de viver nesse período mais tranquilamente ou até mesmo simpatizar com os guardas da prisão para subir sua reputação entre as autoridades e ter acessos exclusivos dentro dos muros e ao mundo exterior, adquirindo provisões e dicas para encontrar sua inocência.
A interação fica ainda mais legal com as referências pop espalhadas pelo jogo: um leão que se chama Alex, um ex-professor de química chamado Walter, paródias de Poderoso Chefão e Um Sonho de Liberdade que são transmitidas à noite, uma coelhinha chamada Judy. Referências legais que não distraem por serem meros easter eggs, e sim formam a identidade multifacetada do jogo, da mesma forma que obras como Asterix tem referências pop, mas sem parecer algo embaraçoso e barato (ou cringe, como diriam os jovens de hoje).
Inclusive, esses personagens são extremamente carismáticos e complexos, não se relegando a meras caricaturas estereotipadas de seus animais (sem entrar em spoilers, Fernando the Anteater e John the Tiger), além do próprio carisma de Thomas e Bob, com seus arrependimentos e histórias pessoais, fazendo-os personagens complexos e divertidos de acompanhar. É só uma pena que o jogo esteja completamente em inglês, alienando quem não compreende o idioma de toda essa complexidade e carisma.
O jogo tem uma performance excelente no Switch 2, carregando extremamente rápido para começar (e moderadamente rápido para carregar o save quando, inevitavelmente, fazemos alguma besteira e tentamos consertar o erro), com gráficos em 2.5 HD muito bem feitos e com uma trilha sonora lo-fi que esbanja a personalidade underground de Back to the Dawn.
O game só comete um erro chato de design na hora de salvar o jogo: o botão A é para carregar o save, e o Y, para salvar. Normalmente, é o oposto nos jogos, e aqui, serei honesto, já tiveram diversas vezes que acidentalmente recarreguei o save quando eu queria salvar, na pressa de continuar o jogo.
Um sonho de liberdade
Back to the Dawn é uma grande surpresa para o Switch, tendo sido lançado inicialmente para PC no final de 2025 e já ganhando uma fanbase forte. Sua história intrigante, seus personagens carismáticos e subversivos e sua complexa, porém interessante, mecânica realista criam uma personalidade única e genuína para esta odisseia na prisão.
Raposas eram normalmente vistas como animais espertos, mas mesquinhos, ladrões e peraltas. Com representantes como Thomas, no entanto, talvez a reputação desses amigos rubros possa ser reabilitada, tal como a verdade sobre a corrupção urbana pode vir à tona.
Prós
- História intrigante e interessante;
- Personagens carismáticos e complexos;
- Referências pop muito bem colocadas;
- Mecânica realista de tempo e saúde do jogador;
- Performance impecável no Switch;
- Ambientação underground de ponta;
- Leque imenso de liberdade de ações, com inúmeras interações e finais para descobrir a cada jogatina.
Contras
- Combate pouco desenvolvido;
- Sem tradução para PTBR;
- Estranho mapeamento de save;
Back to the Dawn — PC/Switch/Switch 2 — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Spiral Up Games





