Análise: Kena: Bridge of Spirits é profundo e simples ao mesmo tempo, mas também frustrante

Kena encanta com visual digno de animação e narrativa sensível, mas tropeça em combates desbalanceados e problemas técnicos pontuais.

em 26/03/2026

Vamos falar do primeiro jogo do estúdio Ember Lab, lançado para diversas plataformas em setembro de 2021 e que agora chega ao novo console da Big N. O game, que mais parece uma animação com belos cenários que remetem ao estilo de produções da Pixar, já passou pelas mãos do Nintendo Blast — e aqui vamos contar todos os detalhes. Se você curte ação, aventura, puzzles e belas animações, fica comigo nesta análise de Kena: Bridge of Spirits.

A guia espiritual

A história se desenrola de forma rápida e direta, sem enrolações — e, na prática, todo o jogo segue esse caminho mais simplista. Kena, a protagonista, assume o papel que antes era de seu pai como guia espiritual, ajudando espíritos a encontrarem um rumo e aceitarem seu passado, cedendo ao perdão e deixando a culpa para trás.

Desde o início, a campanha deixa claro o objetivo final: chegar ao santuário no topo de uma montanha. O motivo não é revelado de imediato, mas, ao avançar, a narrativa se desenvolve conforme você ajuda espíritos em uma vila misteriosa.

Por meio de poderes sobrenaturais, Kena utiliza o cajado herdado de seu pai para auxiliar esses espíritos e, ao longo da jornada, faz amizade com personagens carismáticos que ampliam suas habilidades: os Rot. Essas criaturinhas fofas estão espalhadas pelos cenários, tornando a exploração um fator determinante para o progresso. Quanto mais Rot você encontra, mais ações e possibilidades Kena desbloqueia.

Eles ajudam tanto na exploração quanto no combate, seja purificando áreas corrompidas, movendo objetos ou permitindo acesso a locais antes inacessíveis.

Apesar da simplicidade estrutural, a história de Kena é profunda e muito bonita. É fácil se apegar aos personagens e às suas histórias, que exploram temas como culpa, amor, perda e compaixão. No fim, trata-se de uma jornada sobre superação, responsabilidade emocional e, acima de tudo, sobre aprender a seguir em frente.

Outro ponto interessante é o ritmo da campanha. Kena: Bridge of Spirits pode ser finalizado em cerca de dez horas, o que, particularmente, não considero um problema. Pelo contrário, a duração mais enxuta contribui para uma experiência mais direta e coesa, sem alongar desnecessariamente sua proposta.

Batalhas espirituais

Em combate, Kena utiliza seu cajado como arma principal, mas também adquire novas habilidades ao longo da jornada por meio de uma árvore de habilidades simples, que pode ser evoluída com recursos coletados durante a campanha. O jogo ainda oferece opções de customização, como skins para Kena e chapéus para os Rot.

A base do combate é direta: ataques leves e pesados, habilidades especiais e defesa espiritual para contra-ataques. Os inimigos — espíritos corrompidos — surgem em arenas fechadas, e seus pontos fracos geralmente são bem indicados por elementos visuais, como cores ou formas, o que torna o sistema acessível e fácil de entender.

Os Rot também desempenham um papel essencial nas batalhas, mas dependem de pontos de coragem para agir — já que inicialmente ficam amedrontados. Com esses pontos, é possível executar ações como imobilizar inimigos, usar habilidades mais poderosas ou absorver energia espiritual para recuperar vida.

No entanto, é justamente aqui que o jogo mais tropeça. As batalhas contra chefes são extremamente frustrantes e passam a sensação de que Kena nunca está totalmente preparada para enfrentá-las. Os inimigos são rápidos, causam muito dano e exigem precisão quase perfeita.

Os tempos de reação são curtos, e um erro pode custar toda a tentativa. Além disso, não há itens de recuperação tradicionais — a cura depende do uso dos Rot em pontos específicos do cenário, geralmente limitados e insuficientes.

Em vários momentos, mesmo com a sensação de ter esquivado no tempo certo, o dano ainda era recebido, o que gera frustração. Soma-se a isso a repetição constante das batalhas e a necessidade de lidar com cutscenes pré-luta (mesmo que puláveis, sempre há um pequeno atraso), o que torna o processo cansativo — especialmente nas fases finais, com chefes ainda mais desafiadores.

Aqui, paciência deixa de ser apenas uma virtude e passa a ser uma necessidade.

Exploração que recompensa… às vezes

A exploração é uma das bases do jogo e, por si só, já se justifica pela busca dos Rot, essenciais para evolução. Além disso, os cenários são um espetáculo à parte: florestas, cavernas, vilas e estruturas naturais são ricos em detalhes e muito bem construídos.

Kena também apresenta mecânicas de escalada e plataforma que, apesar de funcionais e até divertidas, possuem inconsistências. Em alguns momentos, controlar a personagem em superfícies menores pode ser complicado, exigindo precisão e cuidado extras.

O jogo ainda conta com desafios opcionais que oferecem recompensas adicionais. Porém, esses momentos acabam herdando problemas semelhantes aos combates. Em um dos desafios com arco e flecha, por exemplo, era necessário completar o objetivo em um minuto — mas, na prática, o tempo exigido era inferior a isso.

Mesmo atingindo a marca proposta diversas vezes, o jogo não contabilizava o sucesso, gerando frustração. Além disso, a repetição constante, somada às pequenas pausas com cutscenes, compromete o ritmo e a experiência nesses trechos.

Por fim, vale mencionar que o jogo apresenta pequenas quedas na taxa de quadros por segundo em alguns momentos, inclusive durante certas cutscenes. Não é algo que comprometa totalmente a experiência, mas é perceptível e pode causar um leve incômodo, especialmente em um jogo que se apoia tanto na sua apresentação visual.

Uma ponte entre beleza e combates frustrantes

Kena: Bridge of Spirits é um jogo que encanta logo no primeiro olhar, com sua direção de arte impecável e uma narrativa sensível que trata de temas profundos com delicadeza. A simplicidade de sua estrutura funciona muito bem ao longo da jornada, especialmente na exploração e na construção emocional dos personagens.

Por outro lado, o jogo tropeça justamente onde mais poderia brilhar: nos momentos de maior intensidade. As batalhas contra chefes, embora desafiadoras, muitas vezes ultrapassam o limite do justo e acabam gerando frustração desnecessária, quebrando o ritmo da experiência.

Ainda assim, Kena entrega uma aventura marcante, que equilibra beleza e emoção com mecânicas acessíveis — mesmo que nem sempre refinadas. No fim, é uma jornada que vale a pena ser vivida, especialmente para quem busca uma experiência tocante, ainda que com alguns espinhos pelo caminho.

Prós

  • Direção de arte belíssima, com qualidade de animação impressionante;
  • Narrativa simples, porém profunda e emocional;
  • Exploração recompensadora, com boa integração dos Rot;
  • Trilha sonora e ambientação muito bem construídas;
  • Duração enxuta (cerca de dez horas) que mantém o ritmo da experiência.

Contras

  • Batalhas contra chefes desbalanceadas e frustrantes;
  • Pequenas inconsistências nos controles, especialmente em plataformas;
  • Quedas ocasionais de desempenho, inclusive em cutscenes;
  • Repetição de tentativas pode quebrar o ritmo da experiência.
Kena: Bridge of Spirits — Switch 2/ PS5/ PS4/ XBX/ PC — Nota: 7.0
Revisão: Cristiane Amarante
Análise produzida com cópia digital cedida pela Amber Lab
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Leandro Alves
Leandro Alves é designer gráfico formado e especialista em Design Estratégico pela Unicarioca, além de UX Designer com formação pela ESPM e pela escola britânica Design Institute. Diretor Geral, Diretor Editorial e Diretor de Arte das revistas GameBlast e Nintendo Blast, iniciou sua paixão por videogames com The Legend of Zelda: A Link to the Past. Fã da Nintendo, mas sem esconder sua admiração pelo PlayStation, tem como séries favoritas Kingdom Hearts, Pokémon, Splatoon, The Last of Us, Uncharted e Xenoblade Chronicles. Está no Instagram e Twitter.
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