South of Midnight é uma surpresa muito grata chegando a um console da Nintendo. A promessa da Microsoft em disponibilizar seus jogos para os consoles da Big N tem se cumprido ao longo de sua trajetória.. agora é a hora de apresentar uma história madura e, ao mesmo tempo, fantasiosa, cheia de mistérios e contos sombrios que permeiam a família Flood. Já jogamos e vamos contar tudo — e não se preocupe, essa análise não contará com spoilers.
O conto da família Flood
South of Midnight chega em sua versão completa ao Nintendo Switch 2: a Weaver’s Edition, que acompanha trilha sonora, livro de artes, documentário, entre outros conteúdos. O jogo conta com dublagem (não em nosso idioma) muito boa e legendas em português, o que ajuda bastante na imersão. Aliás, a história é um dos pontos-chave deste game, que apresenta diversos contos de fadas modernos com um tom sombrio.A história se passa no sul dos Estados Unidos. Hazel Flood é a protagonista, filha de Lacey Flood, uma funcionária de um orfanato que não tem muito tempo livre por conta do trabalho, sempre tentando ajudar crianças a terem uma vida melhor.
O game começa em um dia complicado: um furacão se aproxima. Hazel e sua mãe não têm muito tempo e precisam se abrigar. Em meio à tempestade, Lacey pede para Hazel ir verificar os vizinhos próximos e ajudá-los — momento em que as duas discutem. Hazel reclama da ausência da mãe e da solidão que sente desde a morte do pai.
Lacey fica em casa, refletindo e triste com o que ouviu, esperando a filha voltar para conversarem. Contudo, o pior acontece: a casa, construída sobre uma base de madeira sobre o rio, cede com a força da tempestade. Hazel presencia tudo e tenta salvar a mãe, mas sem sucesso.
Desesperada, Hazel parte em busca de ajuda com sua avó, Eloise Flood, com quem não tinha contato. Ao chegar à mansão, recebe a promessa de ajuda — mas não naquele momento. Presa em um quarto, Hazel escapa pela janela e começa a descobrir segredos da casa, incluindo a lenda de uma tecelã e artefatos como as agulhas místicas de tecelagem (Weaver Needles).
Ao longo da fuga, Hazel passa a enxergar fios etéreos — conhecidos como Grand Tapestry Threads — e percebe que algo mudou. Ao reencontrar sua casa, vê uma criatura emergindo do local e, ao tentar agir, acaba sendo levada pela correnteza.
Ao acordar, encontra uma figura folclórica: Catfish. Após o susto, ele explica sua herança como Weaver ou Tecelã, alguém capaz de desfazer maldições — os chamados Stigma Knots — e enfrentar entidades sombrias conhecidas como Haints. É nesse momento que sua jornada realmente começa.
Diferente, porém genial
South of Midnight é diferente. A direção de arte da Compulsion Games é extraordinária. O jogo mistura stop motion com um estilo que lembra cel shading, criando uma identidade visual única.Os cenários são extremamente detalhados, repletos de objetos que contam histórias silenciosas sobre seus habitantes. É possível entender quem viveu ali apenas observando o ambiente.
Os personagens são expressivos, transmitindo emoções mesmo sem diálogo. A conexão com Hazel é natural, e o desejo de salvar Lacey impulsiona toda a jornada.
Os inimigos — os Haints — são poucos, mas bem construídos. Já os chefes, conhecidos como Folklore Bosses, são verdadeiros destaques, com histórias profundas e marcantes.
A trilha sonora é facilmente o segundo melhor elemento do jogo. Composta por Olivier Deriviere, traz músicas cantadas que funcionam como poesia narrativa, enriquecendo a lore e criando uma experiência sensorial única.
A narrativa se apoia fortemente no folclore sulista e nas histórias de dor que deram origem às maldições. São histórias maduras, que fazem refletir e criam uma conexão real com o mundo do jogo.
E na jogatina?
South of Midnight estrutura seu gameplay em três pilares: puzzles, plataforma e combate.Os puzzles são simples, mas satisfatórios. Com o avanço da jornada, Hazel desenvolve habilidades como:
- Weave (tecer plataformas)
- Pull / Push (atrair ou repelir objetos e inimigos)
- Crouton Control (controlar o pequeno companheiro de lã, chamado Crouton)
Na movimentação, o jogo aposta em escaladas, corridas em paredes (Wall Run), saltos duplos (Double Jump) e planar (Glide). Há também sequências de fuga da escuridão — chamadas de Haint Chases — que são intensas, mas acabam se repetindo ao longo da campanha.
A progressão acontece por meio dos Floofs, utilizados para evoluir habilidades na árvore de talentos. A exploração também recompensa com Health Filaments, que aumentam a vida máxima.
No entanto, Hazel possui uma movimentação um pouco desengonçada, o que pode gerar quedas e frustração em trechos mais exigentes.
Já o combate é o ponto mais fraco. As batalhas acontecem em arenas fechadas contra múltiplos inimigos. Hazel pode:
- Atacar com suas agulhas (Weaver Strikes)
- Imobilizar inimigos (Stitch Bind)
- Empurrar ou puxar (Force Thread)
- Explodir fios (Thread Burst)
- Esquivar com contra-ataque (Dodge Counter)
Apesar da variedade, o combate se torna repetitivo, com forte dependência de esquivas e problemas de câmera em confrontos mais intensos.
Felizmente, as batalhas contra chefes quebram esse padrão, exigindo estratégia e leitura de padrões — sendo um dos pontos altos do jogo.
A ponta da linha
South of Midnight: Weaver’s Edition é uma experiência que se destaca muito mais pelo que faz sentir do que pelo que propõe mecanicamente. A jornada de Hazel Flood é carregada de simbolismo, amadurecimento e dor, conduzindo o jogador por um mundo que mistura fantasia e realidade de forma sensível e, muitas vezes, impactante.A força do jogo está em sua identidade: direção de arte impecável, trilha sonora marcante e uma narrativa que respeita a inteligência do jogador ao abordar temas mais densos. O folclore apresentado, aliado às histórias dos personagens e criaturas, cria um universo rico, que permanece na mente mesmo após os créditos finais.
Por outro lado, suas limitações são claras. O combate repetitivo, os problemas de câmera e a movimentação um tanto desajeitada de Hazel acabam tirando parte do brilho da experiência em momentos importantes. Ainda assim, esses pontos não chegam a comprometer a jornada como um todo, mas impedem que o jogo alcance um nível ainda mais alto.
No fim, South of Midnight é um título que vale muito a pena ser vivido — especialmente por aqueles que valorizam boas histórias, atmosferas marcantes e experiências que vão além do controle nas mãos. É o tipo de jogo que pode não ser perfeito em sua execução, mas é extremamente competente em deixar uma marca duradoura.
Prós
- Narrativa madura e envolvente, com destaque para a jornada de Hazel Flood;
- Direção de arte única e extremamente bem executada;
- Trilha sonora marcante e integrada à narrativa;
- Universo rico em folclore e histórias profundas;
- Chefes criativos e com mecânicas diferenciadas;
- Exploração recompensadora com foco em lore.
Contras
- Combate repetitivo ao longo da campanha;
- Problemas de câmera em batalhas com múltiplos inimigos;
- Movimentação desengonçada da protagonista em plataformas;
- Repetição em trechos de fuga e mecânicas de gameplay;
- Progressão de habilidades pouco impactante.
South of Midnight: Weaver’s Edition — Switch 2/ PC/ XBX/ PS5 — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Xbox Game Studios













