Análise: South of Midnight: Weaver’s Edition, uma história de amadurecimento e mistérios

Uma jornada sombria e poética, onde narrativa e arte brilham mais que suas falhas no combate.

em 31/03/2026

South of Midnight é uma surpresa muito grata chegando a um console da Nintendo. A promessa da Microsoft em disponibilizar seus jogos para os consoles da Big N tem se cumprido ao longo de sua trajetória.. agora é a hora de apresentar uma história madura e, ao mesmo tempo, fantasiosa, cheia de mistérios e contos sombrios que permeiam a família Flood. Já jogamos e vamos contar tudo — e não se preocupe, essa análise não contará com spoilers.

O conto da família Flood

South of Midnight chega em sua versão completa ao Nintendo Switch 2: a Weaver’s Edition, que acompanha trilha sonora, livro de artes, documentário, entre outros conteúdos. O jogo conta com dublagem (não em nosso idioma) muito boa e legendas em português, o que ajuda bastante na imersão. Aliás, a história é um dos pontos-chave deste game, que apresenta diversos contos de fadas modernos com um tom sombrio.

A história se passa no sul dos Estados Unidos. Hazel Flood é a protagonista, filha de Lacey Flood, uma funcionária de um orfanato que não tem muito tempo livre por conta do trabalho, sempre tentando ajudar crianças a terem uma vida melhor.

O game começa em um dia complicado: um furacão se aproxima. Hazel e sua mãe não têm muito tempo e precisam se abrigar. Em meio à tempestade, Lacey pede para Hazel ir verificar os vizinhos próximos e ajudá-los — momento em que as duas discutem. Hazel reclama da ausência da mãe e da solidão que sente desde a morte do pai.

Lacey fica em casa, refletindo e triste com o que ouviu, esperando a filha voltar para conversarem. Contudo, o pior acontece: a casa, construída sobre uma base de madeira sobre o rio, cede com a força da tempestade. Hazel presencia tudo e tenta salvar a mãe, mas sem sucesso.

Desesperada, Hazel parte em busca de ajuda com sua avó, Eloise Flood, com quem não tinha contato. Ao chegar à mansão, recebe a promessa de ajuda — mas não naquele momento. Presa em um quarto, Hazel escapa pela janela e começa a descobrir segredos da casa, incluindo a lenda de uma tecelã e artefatos como as agulhas místicas de tecelagem (Weaver Needles).

Ao longo da fuga, Hazel passa a enxergar fios etéreos — conhecidos como Grand Tapestry Threads — e percebe que algo mudou. Ao reencontrar sua casa, vê uma criatura emergindo do local e, ao tentar agir, acaba sendo levada pela correnteza. 

Ao acordar, encontra uma figura folclórica: Catfish. Após o susto, ele explica sua herança como Weaver ou Tecelã, alguém capaz de desfazer maldições — os chamados Stigma Knots — e enfrentar entidades sombrias conhecidas como Haints. É nesse momento que sua jornada realmente começa.

Diferente, porém genial

South of Midnight é diferente. A direção de arte da Compulsion Games é extraordinária. O jogo mistura stop motion com um estilo que lembra cel shading, criando uma identidade visual única.

Os cenários são extremamente detalhados, repletos de objetos que contam histórias silenciosas sobre seus habitantes. É possível entender quem viveu ali apenas observando o ambiente.

Os personagens são expressivos, transmitindo emoções mesmo sem diálogo. A conexão com Hazel é natural, e o desejo de salvar Lacey impulsiona toda a jornada.

Os inimigos — os Haints — são poucos, mas bem construídos. Já os chefes, conhecidos como Folklore Bosses, são verdadeiros destaques, com histórias profundas e marcantes.

A trilha sonora é facilmente o segundo melhor elemento do jogo. Composta por Olivier Deriviere, traz músicas cantadas que funcionam como poesia narrativa, enriquecendo a lore e criando uma experiência sensorial única.

A narrativa se apoia fortemente no folclore sulista e nas histórias de dor que deram origem às maldições. São histórias maduras, que fazem refletir e criam uma conexão real com o mundo do jogo.

E na jogatina?

South of Midnight estrutura seu gameplay em três pilares: puzzles, plataforma e combate.

Os puzzles são simples, mas satisfatórios. Com o avanço da jornada, Hazel desenvolve habilidades como:
  • Weave (tecer plataformas)
  • Pull / Push (atrair ou repelir objetos e inimigos)
  • Crouton Control (controlar o pequeno companheiro de lã, chamado Crouton)
Apesar disso, os puzzles têm menor destaque frente à exploração e plataforma.

Na movimentação, o jogo aposta em escaladas, corridas em paredes (Wall Run), saltos duplos (Double Jump) e planar (Glide). Há também sequências de fuga da escuridão — chamadas de Haint Chases — que são intensas, mas acabam se repetindo ao longo da campanha.

A progressão acontece por meio dos Floofs, utilizados para evoluir habilidades na árvore de talentos. A exploração também recompensa com Health Filaments, que aumentam a vida máxima.

No entanto, Hazel possui uma movimentação um pouco desengonçada, o que pode gerar quedas e frustração em trechos mais exigentes.

Já o combate é o ponto mais fraco. As batalhas acontecem em arenas fechadas contra múltiplos inimigos. Hazel pode:
  • Atacar com suas agulhas (Weaver Strikes)
  • Imobilizar inimigos (Stitch Bind)
  • Empurrar ou puxar (Force Thread)
  • Explodir fios (Thread Burst)
  • Esquivar com contra-ataque (Dodge Counter)
Apesar da variedade, o combate se torna repetitivo, com forte dependência de esquivas e problemas de câmera em confrontos mais intensos.

Felizmente, as batalhas contra chefes quebram esse padrão, exigindo estratégia e leitura de padrões — sendo um dos pontos altos do jogo.

A ponta da linha

South of Midnight: Weaver’s Edition é uma experiência que se destaca muito mais pelo que faz sentir do que pelo que propõe mecanicamente. A jornada de Hazel Flood é carregada de simbolismo, amadurecimento e dor, conduzindo o jogador por um mundo que mistura fantasia e realidade de forma sensível e, muitas vezes, impactante.

A força do jogo está em sua identidade: direção de arte impecável, trilha sonora marcante e uma narrativa que respeita a inteligência do jogador ao abordar temas mais densos. O folclore apresentado, aliado às histórias dos personagens e criaturas, cria um universo rico, que permanece na mente mesmo após os créditos finais.

Por outro lado, suas limitações são claras. O combate repetitivo, os problemas de câmera e a movimentação um tanto desajeitada de Hazel acabam tirando parte do brilho da experiência em momentos importantes. Ainda assim, esses pontos não chegam a comprometer a jornada como um todo, mas impedem que o jogo alcance um nível ainda mais alto.

No fim, South of Midnight é um título que vale muito a pena ser vivido — especialmente por aqueles que valorizam boas histórias, atmosferas marcantes e experiências que vão além do controle nas mãos. É o tipo de jogo que pode não ser perfeito em sua execução, mas é extremamente competente em deixar uma marca duradoura.

Prós

  • Narrativa madura e envolvente, com destaque para a jornada de Hazel Flood;
  • Direção de arte única e extremamente bem executada;
  • Trilha sonora marcante e integrada à narrativa;
  • Universo rico em folclore e histórias profundas;
  • Chefes criativos e com mecânicas diferenciadas;
  • Exploração recompensadora com foco em lore.

Contras

  • Combate repetitivo ao longo da campanha;
  • Problemas de câmera em batalhas com múltiplos inimigos;
  • Movimentação desengonçada da protagonista em plataformas;
  • Repetição em trechos de fuga e mecânicas de gameplay;
  • Progressão de habilidades pouco impactante.
South of Midnight: Weaver’s Edition — Switch 2/ PC/ XBX/ PS5 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Xbox Game Studios
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Leandro Alves
Leandro Alves é designer gráfico formado e especialista em Design Estratégico pela Unicarioca, além de UX Designer com formação pela ESPM e pela escola britânica Design Institute. Diretor Geral, Diretor Editorial e Diretor de Arte das revistas GameBlast e Nintendo Blast, iniciou sua paixão por videogames com The Legend of Zelda: A Link to the Past. Fã da Nintendo, mas sem esconder sua admiração pelo PlayStation, tem como séries favoritas Kingdom Hearts, Pokémon, Splatoon, The Last of Us, Uncharted e Xenoblade Chronicles. Está no Instagram e Twitter.
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