Análise: Blue Prince une puzzle, roguelite e suspense para entregar uma experiência ímpar no Switch 2

Tente solucionar o mistério por trás da 46ª sala, agora no console da Nintendo.

em 20/03/2026
Uma das mais gratas surpresas do último Indie World Showcase foi o anúncio de que Blue Prince finalmente chegaria ao Switch 2. Escrevo isso porque a obra do estúdio Dogubomb é nada menos do que um dos melhores jogos de puzzle desta geração, detentora merecida dos vários prêmios recebidos desde a sua estreia em outras plataformas, como o Indie Game Awards de 2025. Felizmente, no novo console da Nintendo, toda a aclamada experiência do jogo se conserva intacta, resultando em uma recomendação fácil para todo apreciador de um bom mistério.

Entre lembranças e heranças

Seja bem-vindo, caro leitor, ao Mount Holly Estate, em Reddington. Em seu último testamento (que anulou todos os anteriores), seu avô, o estimado Herbert S. Sinclair, surpreendentemente concedeu a você a propriedade de sua gigantesca mansão e do terreno ao redor dela. 

Há, no entanto, uma única condição — estabelecida pelo próprio Herbert — para que esse testamento seja considerado válido. Você precisa encontrar o misterioso quadragésimo sexto cômodo da mansão, que, até onde se acreditava, contava apenas com 45 salas.

Caso você falhe em encontrar a sala de número 46 em tempo hábil, a sucessão será anulada. Mas, no papel do curioso e inteligente sobrinho-neto Simon P. Jones, você certamente possui o que é preciso para desvendar o mistério por trás desse cômodo escondido, não é mesmo? Então pegue um caderno, um bloco de notas ou algo semelhante, afie suas habilidades investigativas e prepare-se: você está prestes a mergulhar em um dos quebra-cabeças mais cativantes desta geração, quiçá dos games.

Jogando conforme as regras

Na prática, Blue Prince é um puzzle jogado com a câmera em primeira pessoa. No controle de Simon, somos livres para interagir com objetos e caminhar pela mansão virtual e seus arredores em busca da sala 46, mas há algumas regras muito interessantes que tornam a tarefa mais difícil do que um primeiro olhar pode sugerir.

Primeiramente, o ato de explorar é limitado pelo número de passos que o protagonista consegue dar. Andar pela mansão é algo cansativo, e cada vez que o jogador entra em um cômodo ou uma área — independentemente de qual seja —, ele perde um passo. Inicialmente, há 50 passos disponíveis por dia — esgotá-los resulta em um descanso forçado, e é preciso recomeçar a exploração no dia seguinte.

Até aí, tudo bem, se não fosse o fato de que o layout da propriedade muda diariamente. Logo, na prática, não há nenhuma garantia de que os quartos que você encontrar ao abrir uma porta hoje serão os mesmos de amanhã, nem de que um caminho levará sempre a outro. Para piorar, ferramentas úteis na investigação, como martelos e pás, só podem ser usadas no dia em que forem encontradas, devendo ser descartadas a cada anoitecer. 

Pois é: certo da destreza e da capacidade de percepção de seu sobrinho-neto, Sinclair estabeleceu que o jogador deve começar sua busca do zero a cada nova manhã. Pelo menos, o que você aprendeu ou notou em cada partida permanece — e, acredite, entender dicas e pistas muitas vezes sutis é muito mais valioso do que parece, quando a missão final passa por solucionar um mistério muito bem pensado.

Unindo puzzle e mecânicas roguelite

A dinâmica de começar do zero a cada novo dia passado dentro do jogo também significa que Blue Prince é, na prática, um roguelite. Esse traço identitário é bastante perceptível na exploração em si: abrir portas em um cômodo gera aleatoriamente três opções de salas dentre todas as disponíveis no game, e o jogador precisa escolher qual delas desenhar em seu mapa para poder prosseguir.

É precisamente nesse movimento que o título da Dogubomb revela sua genialidade: cada espaço encontrado dentre os mais de 100 disponíveis — como o terraço, a piscina ou a sala de estar — tem suas próprias características, como número de portas que levam a outros cômodos, uma ou mais pistas sobre a misteriosa sala 46 (ou sobre a história do jogo) e, talvez, recursos ou ferramentas que podem ser usados durante a exploração.

Com o tempo de jogo, fica progressivamente mais claro que a quadragésima sexta sala é apenas um dos vários mistérios de Blue Prince — tanto que acessá-la (e zerar o jogo, por assim dizer) é algo que pode ser feito de várias formas. Como ao ler um bom livro de suspense, a verdadeira graça aqui está em ligar os pontos aparentemente subjetivos e descobrir as muitas mensagens deixadas nas entrelinhas.

Falar sobre isso a fundo é um tanto difícil — afinal, aqui está um daqueles raros games que são melhor vivenciados quando se tem pouco ou nenhum conhecimento prévio da jornada —, mas é preciso deixar claro nesta análise que Blue Prince é uma experiência fantástica e um forte lembrete de que games podem, sim, ser arte. E arte interativa, provocadora e cativante — como deve ser.

Uma experiência fantástica, mas que pode não ser para todos

Dito isso, Blue Prince não é um jogo perfeito. Alguns dos seus puzzles são bastante complexos e podem continuar confusos mesmo quando as dicas relacionadas são encontradas. Como resultado, para quem, como eu, gosta de solucionar tudo sozinho, sem recorrer a fontes externas como a internet, a experiência com alguns quebra-cabeças pode beirar o frustrante. 

A dinâmica roguelite também pode incomodar quem não é fã dessa abordagem ou de ter que começar do zero a cada nova “partida”, apesar de ela ser perfeitamente integrada à proposta. Ao menos é possível desbloquear uma série de melhorias permanentes durante a campanha, que ajudam a contornar a aleatoriedade da experiência e colocar a jornada cada vez mais sob o controle do jogador.

Também há a questão do idioma: no momento de publicação desta análise, Blue Prince não conta com localização em português brasileiro, obrigando o jogador a ter um considerável conhecimento de inglês (a única língua suportada) para conseguir solucionar seus puzzles.

Sendo bastante sincero, completar Blue Prince sem ter esse domínio é algo impossível sem ajuda externa, visto a já citada complexidade de alguns enigmas. Particularmente, fico então na torcida para que, algum dia, o título seja localizado para mais idiomas, incluindo PT-BR. A comunidade brasileira certamente agradeceria.

Mas e no Switch 2?

Felizmente, a adaptação de Blue Prince para o Switch 2 chega em ótima forma. Apesar de funcionar a apenas 30 quadros por segundo — assim como no PlayStation 5 —, a performance nunca se mostrou um empecilho, se mantendo sempre estável no console da Nintendo. A implementação do Modo Mouse e a boa resolução de saída também me impressionaram, esta última destacando ainda mais os belos visuais do jogo, desenhados ao melhor estilo Telltale.

Convém também lembrar que este é um ótimo jogo para se jogar no modo portátil, visto que não são necessários reflexos rápidos, e a jogabilidade mais lenta é, de certa forma, comparável à leitura de um bom livro. Como não é possível salvar no meio de uma sessão, o Modo de Descanso (Sleep Mode) do Switch 2 também vem a calhar, permitindo ao jogador “pausar” seu progresso entre sessões de uma forma praticamente impossível em outras plataformas.

No mais, e para encerrar em um tom bastante positivo, gostaria de mencionar a trilha sonora slow jazz do jogo, que consegue fornecer a ambiência necessária para a jornada com raríssima maestria e invejável bom gosto. Várias faixas permanecem ecoando em minha cabeça após ouvi-las e certamente integrarão várias de minhas playlists futuras, como a Westwardly Winds, que convido você a ouvir abaixo:

Um dos melhores puzzles da geração, finalmente no Switch 2

Blue Prince é uma experiência única que merece ser vivenciada por todo fã de quebra-cabeças e mistérios. Sua recente chegada ao Switch 2 em um port bastante competente é, acima de tudo, um lembrete de que jogos eletrônicos podem (e devem) ir além do básico, entregando verdadeiras obras de arte interativas no processo.

No fim, a obra do Dogubomb ensina uma poderosa mensagem que merece ser citada: “não se contente em seguir caminhos já trilhados. Abandone um caminho, quando necessário, e vá onde você gostaria que ele te levasse”. Provavelmente, você não se arrependerá.

Prós

  • Oferece uma experiência única dentro do gênero de puzzle, com rara e perfeita união entre mecânicas e narrativa;
  • Para os fãs de mistério e investigação, é extremamente satisfatório descobrir e unir as várias pistas espalhadas pelas partidas do jogo;
  • Apresenta um alto fator replay, graças à geração aleatória de cenários, centenas de salas disponíveis e mais de uma forma de chegar ao objetivo principal;
  • A trilha sonora poderosa, repleta de elementos de slow jazz, é um deleite para os ouvidos;
  • A taxa de quadros estável e a versatilidade do console da Nintendo fazem desta uma ótima adaptação e uma bela forma de jogar um dos melhores jogos desta geração.

Contras

  • Mesmo com as dicas in-game, alguns puzzles podem se mostrar bastante confusos, praticamente obrigando o jogador a buscar ajuda em fontes externas;
  • Apesar das ocasionais melhorias permanentes, pode incomodar quem não aprecia o emprego de mecânicas roguelite;
  • Sem localização em PT-BR.
Blue Prince — PC/PS5/XSX/Switch 2 — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Cristiane Amarante
Análise produzida com cópia digital cedida pela Raw Fury

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Alan Murilo
é publicitário e copywriter que aprecia um bom jogo tanto quanto um bom café. Gamer desde que segurou um controle de Super Nintendo pela primeira vez, tem um apreço especial pelos títulos independentes e pelas diversas franquias da Big N.
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