Agora, dois anos depois, temos o remaster de Defiance (o último jogo da saga até então) e Legacy of Kain: Ascendance trazendo uma expansão da saga dos humanos e vampiros. Sem mais delongas, venha comigo e presencie Nosgoth antes de sua ruína total.
Expulso do paraíso (ou melhor, do inferno)
Antes de falarmos sobre Ascendance, é preciso falar sobre The Dead Shall Rise, uma história em quadrinhos lançada em 2025 graças a uma campanha do Kickstarter. Nela, conhecemos um pouco sobre a história de Raziel, sua vida como humano e sua lealdade a Kain, até ser traído no começo de Soul Reaver. Ao longo da jornada, somos apresentados a Elaleth, uma vampira que procura pelo lendário Heart of Darkness e, na realidade, é a irmã de Raziel. Foram bastante unidos, mas ela passou a odiá-lo quando não pôde salvar seu amado após um ataque dos vampiros.
A história tem traços decentes, mas a narrativa deixa bastante a desejar, parecendo mais uma fanfic do que algo com a qualidade de escrita da franquia, inclusive fazendo retcons absurdos, como colocar boa parte da ação de Kain nos ombros de Elaleth.
Agora, Ascendance, pega essa história para expandir os mitos de Nosgoth. Guiada pelo misterioso Ky’Set’Syk, Elaleth ainda está perseguindo seu irmão por vingança. Enquanto isso, conhecemos parte da história de Raziel em momentos jamais vistos: sendo um nobre e respeitável cavaleiro da ordem Sarafan quando vivo e um dos tenentes mais poderosos e leais a Kain como vampiro.
Categoricamente, a história entrega uma narrativa concisa e competente… mas, se analisarmos o todo como um capítulo da série, ela não oferece algo digno do alto patamar lírico da série, trazendo Elaleth, uma personagem sem sal e que mais parece feita por fãs do que algo relativo à série.
Pelo menos os coletáveis são interessantes, expandindo um pouco mais a mitologia de Nosgoth e tudo muito bem traduzido para o português brasileiro.
Lorde das trevas banguela
Enquanto a parte narrativa deixa a desejar, a parte visual cumpre seu papel. Os gráficos pixelados são muito bem trabalhados e poderiam se passar por algum jogo lançado no GBA na aurora da série, como outras franquias do PS1 e PS2 faziam para expandir seus horizontes. Além disso, o design dos personagens é bem trabalhado, honrando a direção artística da série. É muito legal ver Raziel em seu ápice, seja como cavaleiro ou tenente vampiro.
O mesmo não se pode dizer da jogabilidade, tão simples e frustrante ao mesmo tempo. O jogo é dividido em 12 capítulos e pode ser concluído em menos de cinco horas, mas tudo é tão entediante e repetitivo, parecendo que as coisas se estendem bem mais. Como vampiro, temos uma leve capacidade de voo e precisamos matar (com um único ataque mixuruca para a frente, sem poder atacar para outras direções além de um mergulho no ar) e beber sangue, além de ter nossa vida lentamente sendo reduzida, como nas sequências de Kain, em Blood Omen.
Isso seria legal, mas a repetição entediante de atacar, esquivar/defender e finalizar começa a ficar irritante. Fica mais chato ainda com o level design medíocre, com plataformas voadoras e níveis em que faltam personalidade, fazendo parecer uma cópia mal feita de Castlevania do que algo vindo de Legacy of Kain. Pelo menos a performance do jogo é muito boa, carregando rapidamente para começar e beirando o instantâneo ao inevitavelmente morremos por algum erro bobo.
Como Raziel humano, por outro lado, temos que queimar as criaturas da noite ou elas vão sempre voltar, sendo também repetitivo e pouco empolgante. Fica ainda mais chato com a limitação de gameplay: esquivar e voar (tá mais para planar) precisam de stamina, tirando uma grande oportunidade de mostrar Raziel em seu ápice.
Os vampiros que se mordam
Em questão de direção sonora, a situação é um tanto paradoxal. A trilha sonora é excelente, bombástica e emana uma aura épica pelas noites e pelos abismos que cruzamos… mas, às vezes, pode ser épica até demais. Por exemplo, a música pode estar bombando com ecos e cânticos no cenário, mas simplesmente nada está acontecendo ou a exploração não passa toda a grandiosidade que tenta demonstrar através da melodia.
A dublagem é de ponta e presta respeito ao legado, trazendo de volta os nomes fortes de Michael Bell (Raziel), Simon Templeman (Kain) e Richard Doyle (Moebius) em seus personagens icônicos. Eu sou a última pessoa a reclamar por trazerem um ator legado para um papel amado, mas é inegável que é um tanto estranho o jovem Raziel ter a voz cansada e idosa de um homem de 80 anos como Michael Bell. Um infortúnio do tempo e da longa demora para trazer um novo título à epopéia vampiresca.
Trono das trevas
Tendo me tornado fã da série faz pouco tempo, posso dizer que Legacy of Kain: Ascendance me decepcionou. Admito que ele é ousado ao expandir os horizontes da franquia para novos gêneros e também explorar mais seu universo. A trilha sonora é muito boa, imponente e cativante, a atuação de voz é respeitosa e é bom ver Raziel mais uma vez.
No entanto, o jogo não tem força para atrair novos jogadores somente pelo nome e pode afastar fãs com sua história mal trabalhada, jogabilidade amadora e, francamente, o vazio de sua existência. É efetivamente um título inútil para a série e só os fãs mais famintos por sangue novo podem se interessar. Talvez a glória dos vampiros possa aparecer de novo em algum título com mais esforço.
Prós
- Direção sonora de alta qualidade, especialmente com as músicas em par com a série;
- Design de personagens caprichado e em sintonia com a franquia;
- Dublagem de ponta, com nomes antigos de volta em seus papéis icônicos;
- Muito bem traduzido para o português brasileiro.
Contras
- Baixa duração e com pouquíssimos atrativos interessantes;
- História insossa que se equilibra em uma história em quadrinhos ruim;
- Combate entediante e extremamente repetitivo;
- Level design medíocre e artificial.
Legacy of Kain: Ascendance — PC/PS5/XSX/Switch/Switch 2 — Nota: 5.5Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Cristiane Amarante
Análise produzida com cópia digital cedida pela Crystal Dynamics




