Análise: Pragmata é a Capcom entregando videogame no seu melhor

Em Pragmata, Capcom alia direção técnica sólida a uma história intimista em meio a uma ficção científica muito relevante.

em 22/04/2026

Com uma sequência de lançamentos de títulos impressionantes, a Capcom tem mostrado o motivo de ainda ser um dos principais nomes da indústria dos games. A nova IP, Pragmata, é um lançamento que confirma a tendência de grandes jogos desenvolvidos e publicados pela empresa. Pragmata é um título de excelência, entregando jogabilidade engajante e sofisticada e um desenvolvimento de personagens rico em uma poderosa ficção científica que conversa com o nosso momento, assim como grandes obras devem ser.

Uma IA no controle? Má ideia.

A premissa parte de um conceito clássico da ficção científica. O que acontece quando uma inteligência artificial recebe autonomia total sobre um sistema altamente complexo? Em Pragmata, a resposta é direta: caos.

Após a interrupção inexplicável das comunicações com a estação lunar de pesquisas conhecida como Berço, a corporação Delphi envia uma equipe para investigar o ocorrido. O que deveria ser uma missão técnica rapidamente se transforma em uma situação de sobrevivência. Ao chegar ao local, a equipe encontra a estação sem sinais de vida. Antes que possam avançar na investigação, um lunamoto (terremoto lunar) elimina quase todos os integrantes, restando apenas Hugh, o protagonista, que sobrevive graças ao fator DI-0336-7.

Hugh e Diana se tornam uma dupla imbativel.

Seu traje é restaurado por uma unidade identificada como Pragmata DI-0336-7, um androide com aparência e comportamento infantil. Posteriormente nomeada Diana, a personagem passa a dividir o protagonismo da narrativa. Hugh, inicialmente caracterizado como alguém distante e avesso à ideia de paternidade, desenvolve gradualmente um vínculo afetivo com Diana, assumindo uma postura protetora ao longo da jornada.

Hugh e Diana partem em busca de escapar de IDUS, a IA do Berço que assumiu o controle da estação e passou a eliminar todos que vê como intrusos, além de tentar fugir de volta para a Terra.

Longa jornada, entrega refinada

Embora tenha se tornado quase um padrão jogos demorarem anos e mais anos para serem desenvolvidos, para quem cresceu vendo títulos tão esperados caírem no chamado “inferno de desenvolvimento”, ver um jogo ser anunciado e passar anos com poucas atualizações sempre causa calafrios — e com Pragmata não foi diferente.

O trailer de anúncio de Pragmata surgiu em meados de 2020, já com cara de ser, no mínimo, uma interessante peça de sci-fi. E, para nossa sorte, não só escapou de um possível inferno de desenvolvimento como teve sua estreia final adiantada e entregou tudo o que prometeu, provando que todo o tempo foi bem utilizado para entregar algo completo e refinado.

Hackeando: Ao mirar nos inimigos o painel de heckamento se abre. Por quantos mais nódulos marcados você passar, mais efeitos e dano será causado. Só é causar dano relevante com Hugh após o hackeamento com Diana.

Entre todos os aspectos técnicos, o que mais se destaca é a jogabilidade e a mecânica de combate. A fusão de uma mecânica tradicional de tiro em terceira pessoa com Hugh e o hackeamento de Diana tornam tanto a exploração quanto os combates uma experiência única e deliciosamente dinâmica.

Essa dinâmica se renova com o tempo, conforme aprimoramos as habilidades dos personagens, adicionando mais elementos e funções aos hacks da Pragmata, bem como diversos melhoramentos de armas e perks de combate de Hugh. Uma jogabilidade tão boa e funcional só poderia ser fruto de anos de experiência e testes.

Explorando o Berço

Outro fator que mostra como o tempo de desenvolvimento valeu a pena é a forma como combate, exploração e progressão estão equilibrados.

Os inimigos são incríveis, com designs únicos e diversos, mesmo quando apresentam variações mais fortes. O ponto alto são os chefes, com visuais imponentes e assustadores e padrões de ataque variados e implacáveis. Graças à mecânica dupla de tiro/hack, as batalhas ficam mais estratégicas — não basta apenas segurar o botão de tiro e esperar o adversário cair.

No Abrigo podemos subir o nível tanto dos protagonistas, como adicionar equipaveis, selecionar armas e interagir com Diana, e muito mais.

A exploração e a progressão também são ricas. O jogo não esconde que há segredos a serem descobertos e itens a serem obtidos posteriormente, enquanto elementos da história, como a remoção de obstáculos, incentivam revisitar áreas anteriores. Em suma, há um fator de backtracking que funciona de forma orgânica com a estrutura da aventura.

No entanto, é também na progressão que mora um dos escorregões do título. Em vários momentos, avançar para a próxima área exige repetir um padrão: encontrar e ativar determinados elementos para abrir portões. Embora não seja frequente o suficiente para incomodar, é algo perceptível.

Pragmata, no geral, parece ter sido concluído na medida certa. A campanha segue uma duração média no padrão recente da Capcom para títulos como os Resident Evil, em torno de 9 horas. Embora o conceito e a história tenham potencial para se expandir muito mais, a campanha não se estende demais: conclui a jornada proposta, deixando apenas um gostinho de “quero mais”. Em suma, é uma entrega honesta e equilibrada, com jogabilidade marcante e uma bela jornada de conexão e crescimento entre Hugh e Diana.

A beleza e eficiência da RE Engine

A estação lunar Berço.

Vamos falar a verdade: que jogo bonito. Pragmata foi feito com a RE Engine, a mesma usada nos últimos Resident Evil, e, como sabemos, são jogos com uma beleza artística única.

O motor gráfico da Capcom entrega um design poderoso em todos os aspectos: personagens, ambientes, objetos e efeitos. Isso contribui para a estética futurista e asséptica, dando consistência e credibilidade ao mundo do game.

O Berço mistura elementos industriais, cyberpunk e laboratoriais, enquanto as anomalias causadas pelos terremotos criam um contraste interessante com a temática de controle e opressão artificial.

O visual dos chefes é assustador e as batalhas de tirar o fôlego. 

No Switch 2, a Capcom fez um ótimo trabalho: o jogo roda muito bem, tanto no modo dock quanto no portátil. Há diferença de resolução, claro, mas o desempenho permanece sólido, especialmente nos combates intensos. Quedas de desempenho são raras e não ocorrem em momentos críticos.

Pragmata tem muitos elementos marcantes, porém a trilha sonora não é um deles. Apesar da ótima engenharia de som e da excelente dublagem com localização em português de alta qualidade, as músicas são esquecíveis. Fora do jogo, é difícil lembrar de qualquer faixa específica. Felizmente, a narrativa e os personagens compensam essa ausência de trilhas memoráveis.

O piloto e a Pragmata DI-0336-7

Um dos pontos altos narrativos é, sem dúvida, o relacionamento entre Hugh e Diana, especialmente o desenvolvimento pessoal do protagonista. Durante o jogo, ele afirma diversas vezes não ter interesse em ter filhos ou lidar com crianças.

Hugh basicamente adota Diana como sua filha.

No entanto, ao se deparar com Diana, uma “criança” indefesa em um ambiente hostil, ele naturalmente assume uma postura protetora. A personalidade curiosa e inocente da androide vai quebrando suas barreiras, revelando um afeto crescente.

O Abrigo, que funciona como hub, reforça essa conexão. Objetos coletados ao longo da jornada, como brinquedos e giz de cera,  são entregues a Diana, que interage com eles. Seus desenhos, em especial, têm grande valor emocional.

A relação evolui gradualmente, sem saltos bruscos. Aos poucos, Hugh passa a enxergar Diana como uma filha, chegando a afirmar que a levaria para a Terra e cuidaria dela. Em suma, durante a jornada, temos Diana se tornando basicamente uma criança humana, ao aprender os valores e sentimentos humanos ensinados pelo piloto, e Hugh descobrindo que ser pai está além de querer, ele simplesmente se torna e aceita isso de bom grado, assim virando uma família de modo natural.

O risco das IAs

A relação entre os dois não é o único tema importante. O jogo também discute os riscos de conceder autonomia excessiva às IAs e os impactos dessa tecnologia nos indivíduos.

IDUS entra para o clube de IAs bitoladas junto de Hal 9000 e cia.

Notas espalhadas pelo cenário revelam tanto a violência causada por IDUS quanto o vazio existencial de trabalhadores que sentem que podem ser substituídos por máquinas — tornando-se obsoletos e descartáveis. Esses aspectos ajudam a justificar a própria lógica da IA antagonista.

Esses registros funcionam como uma reflexão clara sobre um futuro possível — e inquietante.

Mais Pragmata, por favor


Para quem deseja prolongar a experiência, há desafios no Abrigo, backtracking e modos adicionais, como o New Game Plus.

Pragmata é videogame em sua melhor forma. Mesmo sendo uma experiência relativamente curta, entrega emoção, jogabilidade única e um universo com grande potencial de expansão. Pode funcionar como uma obra fechada, mas também abre caminho para continuações ou até uma nova grande franquia de ficção científica.

Com o sucesso de público e vendas, é provável que vejamos Hugh e Diana novamente. E, considerando a qualidade entregue, esperar mais alguns anos por uma sequência não parece um problema.

Prós:

  • É facilmente um dos jogos mais bonitos da geração e dos mais belos do Switch 2;
  • Jogabilidade é única, divertida e muito rica, que vai se expandindo até o final;
  • Alto fator de rejogabilidade com minigames, treinos e modos de jogo após a campanha principal;
  • Entrega uma ficção científica muito inteligente e que conversa com nosso tempo, além de ter um dos desenvolvimentos de personagens mais emocionais e divertidos de acompanhar.

Contras:

  • Para uma aventura tão emocional e com combates tão emocionantes, a trilha sonora não acompanha, sendo bem esquecível;
  • Alguns elementos de progressão podem parecer bem repetitivos às vezes.

Pragmata — Switch 2/ PS5/ XSX/ PC — nota 9.5

Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capcom.
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Fernando Lorde
Escritor e gamer, pode ser encontrado em: Instagram (@lordegamingblog) e Twitch (@lorde10hz).
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