Com uma sequência de lançamentos de títulos impressionantes, a Capcom tem mostrado o motivo de ainda ser um dos principais nomes da indústria dos games. A nova IP, Pragmata, é um lançamento que confirma a tendência de grandes jogos desenvolvidos e publicados pela empresa. Pragmata é um título de excelência, entregando jogabilidade engajante e sofisticada e um desenvolvimento de personagens rico em uma poderosa ficção científica que conversa com o nosso momento, assim como grandes obras devem ser.
Uma IA no controle? Má ideia.
A premissa parte de um conceito clássico da ficção científica. O que acontece quando uma inteligência artificial recebe autonomia total sobre um sistema altamente complexo? Em Pragmata, a resposta é direta: caos.
Após a interrupção inexplicável das comunicações com a estação lunar de pesquisas conhecida como Berço, a corporação Delphi envia uma equipe para investigar o ocorrido. O que deveria ser uma missão técnica rapidamente se transforma em uma situação de sobrevivência. Ao chegar ao local, a equipe encontra a estação sem sinais de vida. Antes que possam avançar na investigação, um lunamoto (terremoto lunar) elimina quase todos os integrantes, restando apenas Hugh, o protagonista, que sobrevive graças ao fator DI-0336-7.
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| Hugh e Diana se tornam uma dupla imbativel. |
Seu traje é restaurado por uma unidade identificada como Pragmata DI-0336-7, um androide com aparência e comportamento infantil. Posteriormente nomeada Diana, a personagem passa a dividir o protagonismo da narrativa. Hugh, inicialmente caracterizado como alguém distante e avesso à ideia de paternidade, desenvolve gradualmente um vínculo afetivo com Diana, assumindo uma postura protetora ao longo da jornada.
Hugh e Diana partem em busca de escapar de IDUS, a IA do Berço que assumiu o controle da estação e passou a eliminar todos que vê como intrusos, além de tentar fugir de volta para a Terra.
Longa jornada, entrega refinada
Embora tenha se tornado quase um padrão jogos demorarem anos e mais anos para serem desenvolvidos, para quem cresceu vendo títulos tão esperados caírem no chamado “inferno de desenvolvimento”, ver um jogo ser anunciado e passar anos com poucas atualizações sempre causa calafrios — e com Pragmata não foi diferente.
O trailer de anúncio de Pragmata surgiu em meados de 2020, já com cara de ser, no mínimo, uma interessante peça de sci-fi. E, para nossa sorte, não só escapou de um possível inferno de desenvolvimento como teve sua estreia final adiantada e entregou tudo o que prometeu, provando que todo o tempo foi bem utilizado para entregar algo completo e refinado.
Entre todos os aspectos técnicos, o que mais se destaca é a jogabilidade e a mecânica de combate. A fusão de uma mecânica tradicional de tiro em terceira pessoa com Hugh e o hackeamento de Diana tornam tanto a exploração quanto os combates uma experiência única e deliciosamente dinâmica.
Essa dinâmica se renova com o tempo, conforme aprimoramos as habilidades dos personagens, adicionando mais elementos e funções aos hacks da Pragmata, bem como diversos melhoramentos de armas e perks de combate de Hugh. Uma jogabilidade tão boa e funcional só poderia ser fruto de anos de experiência e testes.
Explorando o Berço
Outro fator que mostra como o tempo de desenvolvimento valeu a pena é a forma como combate, exploração e progressão estão equilibrados.
Os inimigos são incríveis, com designs únicos e diversos, mesmo quando apresentam variações mais fortes. O ponto alto são os chefes, com visuais imponentes e assustadores e padrões de ataque variados e implacáveis. Graças à mecânica dupla de tiro/hack, as batalhas ficam mais estratégicas — não basta apenas segurar o botão de tiro e esperar o adversário cair.
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| No Abrigo podemos subir o nível tanto dos protagonistas, como adicionar equipaveis, selecionar armas e interagir com Diana, e muito mais. |
A exploração e a progressão também são ricas. O jogo não esconde que há segredos a serem descobertos e itens a serem obtidos posteriormente, enquanto elementos da história, como a remoção de obstáculos, incentivam revisitar áreas anteriores. Em suma, há um fator de backtracking que funciona de forma orgânica com a estrutura da aventura.
No entanto, é também na progressão que mora um dos escorregões do título. Em vários momentos, avançar para a próxima área exige repetir um padrão: encontrar e ativar determinados elementos para abrir portões. Embora não seja frequente o suficiente para incomodar, é algo perceptível.
Pragmata, no geral, parece ter sido concluído na medida certa. A campanha segue uma duração média no padrão recente da Capcom para títulos como os Resident Evil, em torno de 9 horas. Embora o conceito e a história tenham potencial para se expandir muito mais, a campanha não se estende demais: conclui a jornada proposta, deixando apenas um gostinho de “quero mais”. Em suma, é uma entrega honesta e equilibrada, com jogabilidade marcante e uma bela jornada de conexão e crescimento entre Hugh e Diana.
A beleza e eficiência da RE Engine
Vamos falar a verdade: que jogo bonito. Pragmata foi feito com a RE Engine, a mesma usada nos últimos Resident Evil, e, como sabemos, são jogos com uma beleza artística única.
O motor gráfico da Capcom entrega um design poderoso em todos os aspectos: personagens, ambientes, objetos e efeitos. Isso contribui para a estética futurista e asséptica, dando consistência e credibilidade ao mundo do game.
O Berço mistura elementos industriais, cyberpunk e laboratoriais, enquanto as anomalias causadas pelos terremotos criam um contraste interessante com a temática de controle e opressão artificial.
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| O visual dos chefes é assustador e as batalhas de tirar o fôlego. |
No Switch 2, a Capcom fez um ótimo trabalho: o jogo roda muito bem, tanto no modo dock quanto no portátil. Há diferença de resolução, claro, mas o desempenho permanece sólido, especialmente nos combates intensos. Quedas de desempenho são raras e não ocorrem em momentos críticos.
Pragmata tem muitos elementos marcantes, porém a trilha sonora não é um deles. Apesar da ótima engenharia de som e da excelente dublagem com localização em português de alta qualidade, as músicas são esquecíveis. Fora do jogo, é difícil lembrar de qualquer faixa específica. Felizmente, a narrativa e os personagens compensam essa ausência de trilhas memoráveis.
O piloto e a Pragmata DI-0336-7
Um dos pontos altos narrativos é, sem dúvida, o relacionamento entre Hugh e Diana, especialmente o desenvolvimento pessoal do protagonista. Durante o jogo, ele afirma diversas vezes não ter interesse em ter filhos ou lidar com crianças.
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| Hugh basicamente adota Diana como sua filha. |
No entanto, ao se deparar com Diana, uma “criança” indefesa em um ambiente hostil, ele naturalmente assume uma postura protetora. A personalidade curiosa e inocente da androide vai quebrando suas barreiras, revelando um afeto crescente.
O Abrigo, que funciona como hub, reforça essa conexão. Objetos coletados ao longo da jornada, como brinquedos e giz de cera, são entregues a Diana, que interage com eles. Seus desenhos, em especial, têm grande valor emocional.
A relação evolui gradualmente, sem saltos bruscos. Aos poucos, Hugh passa a enxergar Diana como uma filha, chegando a afirmar que a levaria para a Terra e cuidaria dela. Em suma, durante a jornada, temos Diana se tornando basicamente uma criança humana, ao aprender os valores e sentimentos humanos ensinados pelo piloto, e Hugh descobrindo que ser pai está além de querer, ele simplesmente se torna e aceita isso de bom grado, assim virando uma família de modo natural.
O risco das IAs
A relação entre os dois não é o único tema importante. O jogo também discute os riscos de conceder autonomia excessiva às IAs e os impactos dessa tecnologia nos indivíduos.
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| IDUS entra para o clube de IAs bitoladas junto de Hal 9000 e cia. |
Notas espalhadas pelo cenário revelam tanto a violência causada por IDUS quanto o vazio existencial de trabalhadores que sentem que podem ser substituídos por máquinas — tornando-se obsoletos e descartáveis. Esses aspectos ajudam a justificar a própria lógica da IA antagonista.
Esses registros funcionam como uma reflexão clara sobre um futuro possível — e inquietante.
Mais Pragmata, por favor
Para quem deseja prolongar a experiência, há desafios no Abrigo, backtracking e modos adicionais, como o New Game Plus.
Pragmata é videogame em sua melhor forma. Mesmo sendo uma experiência relativamente curta, entrega emoção, jogabilidade única e um universo com grande potencial de expansão. Pode funcionar como uma obra fechada, mas também abre caminho para continuações ou até uma nova grande franquia de ficção científica.
Com o sucesso de público e vendas, é provável que vejamos Hugh e Diana novamente. E, considerando a qualidade entregue, esperar mais alguns anos por uma sequência não parece um problema.
Prós:
- É facilmente um dos jogos mais bonitos da geração e dos mais belos do Switch 2;
- Jogabilidade é única, divertida e muito rica, que vai se expandindo até o final;
- Alto fator de rejogabilidade com minigames, treinos e modos de jogo após a campanha principal;
- Entrega uma ficção científica muito inteligente e que conversa com nosso tempo, além de ter um dos desenvolvimentos de personagens mais emocionais e divertidos de acompanhar.
Contras:
- Para uma aventura tão emocional e com combates tão emocionantes, a trilha sonora não acompanha, sendo bem esquecível;
- Alguns elementos de progressão podem parecer bem repetitivos às vezes.
Pragmata — Switch 2/ PS5/ XSX/ PC — nota 9.5
Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capcom.








