Ys Memoire: Revelations in Celceta começa com um gancho clássico e eficaz: Adol Christin surge cambaleando pela cidade fronteiriça de Casnan, sem qualquer memória de quem é ou do que fazia ali. A premissa do herói amnésico não é nova, mas funciona bem aqui, especialmente ao conectar diretamente o mistério pessoal do protagonista com a exploração da temida Grande Floresta de Celceta, um lugar de onde, segundo as histórias, ninguém retorna.
Esse ponto de partida cria uma motivação dupla interessante: ao mesmo tempo em que o jogador busca mapear a floresta em troca da recompensa oferecida pelo governador, também reconstrói fragmentos da identidade de Adol. Assim, essa estrutura narrativa dá propósito à exploração e transforma o progresso no mapa em algo mais significativo do que apenas completar áreas.
A nova versão do jogo reforça essa jornada com uma trilha sonora regravada e reinterpretada, que dá nova vida às composições já marcantes da série. O resultado é uma ambientação ainda mais envolvente, que combina perfeitamente com o senso de aventura constante que define a franquia Ys.
Combate rápido e satisfatório
Um dos maiores destaques de Memories of Celceta é seu combate ágil e extremamente satisfatório, especialmente considerando sua origem no PS Vita. As batalhas acontecem em tempo real e utilizam um sistema simples à primeira vista: um botão de ataque básico e atalhos para habilidades especiais, criando uma base acessível para qualquer jogador.
Apesar dessa simplicidade, o sistema possui profundidade suficiente para recompensar quem presta atenção. Habilidades consomem pontos que são recarregados por ataques carregados ou derrotando inimigos, enquanto seu uso preenche uma barra adicional que libera um poderoso ataque extra. Esse golpe especial pausa a ação e causa dano massivo, criando momentos estratégicos importantes durante o combate.
A dificuldade dos chefes é, no geral, um dos pontos mais bem equilibrados do jogo. Isso acontece porque ela exige mais leitura de padrões e domínio das mecânicas do que números altos ou grinding excessivo. Os sistemas de Flash Guard e Flash Move são, sem exagero, o coração dessa sensação de habilidade no combate. Ambos são ativados ao defender ou desviar no exato momento em que um ataque vai te atingir, exigindo um timing preciso quase no último segundo. É justamente essa exigência que os torna tão recompensadores.
Isso se reflete diretamente nas batalhas. Cada confronto funciona quase como um pequeno “quebra-cabeça de ação”, onde entender quando atacar, quando recuar e como gerenciar recursos faz toda a diferença. O resultado é um ritmo de tentativa, aprendizado e execução muito satisfatório. Ainda assim, em alguns momentos essa curva oscila, com encontros surpreendentemente mais fáceis entre picos mais exigentes. Isso pode afetar a consistência do desafio, mas não chega a comprometer o conjunto. No fim, o jogo acerta ao valorizar habilidade e timing acima de força bruta, recompensando jogadores atentos e tornando cada vitória mais merecida do que simplesmente inevitável.
Estratégia e variedade de personagens
Outro elemento interessante é a divisão dos personagens em três tipos de dano: corte, perfuração e impacto. Como inimigos possuem fraquezas específicas, o jogo incentiva o uso de todo o grupo em vez de focar apenas em um personagem mais forte. Isso adiciona uma camada estratégica importante sem complicar demais a experiência.
Além disso, mesmo personagens dentro da mesma categoria possuem estilos de combate distintos, o que contribui para a variedade e mantém o gameplay dinâmico. Alternar entre os membros do grupo em tempo real se torna natural, especialmente em confrontos mais desafiadores.
O sistema de habilidades acerta ao equilibrar variedade e acessibilidade, oferecendo um conjunto amplo de técnicas para cada personagem sem nunca tornar o combate excessivamente complexo ou travado por menus, onde cada membro do grupo possui habilidades que refletem bem seu estilo: Adol com ataques rápidos e versáteis, Duren mais agressivo e arriscado, Karna focada em alcance e controle, Ozma trazendo utilidade e defesa, Calilica com dano em área pesado e Frieda combinando suporte e controle em área.
Essa variedade reforça a identidade de cada um dentro das batalhas. Ao mesmo tempo, o custo de skill points relativamente baixo para várias habilidades incentiva o uso constante dessas técnicas, mantendo o combate dinâmico e visualmente interessante, enquanto habilidades mais caras funcionam como picos de dano estratégicos.
Sistema eficiente, mas conservador
O jogo tem um sistema de criação e melhoria de itens que segue uma estrutura clássica baseada em etapas como troca, refinamento e síntese, funcionando bem dentro da proposta do jogo, mas sem se destacar muito por inovação; a ideia de converter grandes quantidades de materiais simples em versões mais valiosas cria uma sensação consistente de progressão e recompensa a exploração, alinhando-se ao loop central de aventura.
Porém, essa mesma lógica pode se tornar repetitiva com o tempo, já que exige acúmulo constante de recursos básicos para avanços relativamente pequenos, tornando o processo um pouco mecânico e previsível. Ainda assim, por estar diretamente ligado ao fortalecimento de armas e equipamentos, o sistema se mantém relevante e útil, cumprindo seu papel de sustentar o crescimento do jogador sem comprometer o ritmo ágil que define a experiência geral.
Já o sistema de equipamentos segue uma filosofia bastante direta, ao focar principalmente no aumento de atributos como força e defesa, com ocasionais efeitos de status como veneno, paralisia ou queimadura, o que funciona bem dentro do ritmo acelerado do jogo, mas também limita um pouco a profundidade das decisões do jogador. Na prática, a progressão das armas muitas vezes se resume a escolher aquela com o maior número bruto de ataque, já que os efeitos adicionais, embora interessantes, raramente são complexos o suficiente para mudar drasticamente a forma como você joga. Eles servem mais como bônus situacionais do que como elementos que definem builds ou estilos únicos, enquanto armaduras e acessórios seguem uma linha semelhante, oferecendo variações pequenas e previsíveis.
Ainda assim, há mérito na clareza desse design, já que ele evita sobrecarregar o jogador com sistemas excessivamente complicados e mantém o foco no combate fluido, mas fica a sensação de que o sistema poderia explorar melhor essas mecânicas de status para criar escolhas mais significativas e personalização mais marcante ao longo da jornada.
Pequenas falhas na narrativa
Apesar de seus acertos, o jogo tropeça em alguns elementos narrativos, especialmente nas escolhas de diálogo. Em vários momentos, o jogador pode selecionar respostas diferentes que, na prática, levam exatamente à mesma conversa ou resultado.
Essa abordagem parece tentar criar uma identificação maior com o protagonista, mas acaba soando deslocada. Adol não é um personagem criado pelo jogador; ele já possui identidade própria dentro da série. Essas escolhas acabam criando um meio-termo estranho entre um RPG tradicional e uma narrativa mais definida.
No fim das contas, Ys Memoire: Revelations Celceta é uma experiência sólida e envolvente, que brilha principalmente em seu combate rápido e bem estruturado. Mesmo com pequenas inconsistências narrativas, o jogo consegue capturar perfeitamente o espírito de aventura da série, tornando-se uma excelente forma de revisitar, ou conhecer, essa jornada clássica.
Prós
- Combate ágil e extremamente satisfatório;
- Lutas contra chefes táticas e envolventes;
- Trilha sonora regravada e imersiva;
- Variedade de habilidades dos personagens.
Contras
- Tentativa de dar agência ao jogador entra em conflito com o protagonista já definido;
- Sistemas de itens e equipamentos pouco ousados.
Ys Memoire: Revelations in Celceta —Switch — Nota: 8.0
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Marvelous (XSEED)




