É hora do show (e do mullet)!
Em um futuro distante, a humanidade e a internet se fundiram em uma nova forma de existência. Como resultado, os humanos agora precisam de dopamina a cada dez segundos; caso contrário, morrem.
Para piorar a situação, o planeta está sendo controlado por “robilionários”, robôs extremamente ricos. No entanto, nem tudo está perdido: mesmo nesse universo distópico, ainda existem aqueles que ousam se opor ao sistema, usando seus ínfimos dez segundos de vida para destruir tais robôs. Esses são os valentes “moderadores”.
É o seu caso: no papel do moderador Jack, sua missão é resgatar a princesa influencer das garras das máquinas maléficas. Como a jovem tem dois bilhões de seguidores, o primeiro a resgatá-la em livestream ficará com um grande prêmio (um par de tênis novinho em folha).
Pronto para a tarefa? Então acesse o aplicativo de justiceiros da Peace Corp. (o app de moderadores número um do mundo), entre ao vivo e comece a trucidar os robôs pelo caminho. Você só tem dez segundos, então é melhor agir rápido.
Atirar primeiro, perguntar depois
Mullet MadJack é um jogo de tiro em primeira pessoa bastante ágil, ao estilo dos boomer shooters clássicos, como DOOM e Quake. Além do caráter satírico e das críticas à nossa sociedade cada vez mais consumista e hedonista, seu maior diferencial está justamente no fato do protagonista contar com somente dez segundos de vida. Isso obriga o jogador a se mover rapidamente pelos cenários eliminando robôs no processo — afinal, cada novo inimigo morto libera dopamina e, portanto, alguns segundos a mais no contador.
A obra do estúdio HAMMER95 oferece vários modos de jogo. No modo principal (arcade/campanha), vamos atrás da princesa influenciadora, mantida refém no topo do prédio Nakamura. Para chegar lá, é preciso subir dez andares repletos de perigos sem que o contador de vida chegue a zero; caso isso não aconteça, você voltará para o primeiro andar — e não adianta reclamar, pois o app da Peace Corp. não oferece direitos trabalhistas aos moderadores. Que vergonha!
Com isso, a cada novo andar e edifício visitado pelo herói (você não achou que a princesa estaria realmente no primeiro castelo prédio da aventura, não é?), começa uma violenta e frenética corrida contra o tempo. O objetivo é sempre o mesmo: chegar à saída das fases cada vez mais labirínticas e complexas antes que seu tempo de vida se esgote, estourando ou empalando crânios robóticos pelo caminho quando precisar de alguns segundos a mais no cronômetro.
O legal é que, além de estar integrada à narrativa, essa dinâmica funciona muito bem na prática, tudo graças a um level design inteligente e bem construído. Em vez de simplesmente seguir os caminhos e corredores apresentados, por exemplo, o protagonista pode usar tubos de ventilação como atalhos, escorregar por rampas psicodélicas e até correr por algumas paredes — tudo em nome da velocidade (e do espetáculo, claro).
É possível completar grande parte das fases (geradas aleatoriamente de acordo com o capítulo da campanha) em menos de um minuto (às vezes, em menos de 50 ou até 40 segundos). Mas, em vez de ser um ponto negativo, isso significa que esse pequeno recorte de tempo terá sido repleto de ação do início ao fim. Com frequência, eu me vi respirando fundo ao chegar à saída dos estágios justamente pelo caráter frenético da jogabilidade, que constantemente se prova um dos maiores acertos do título.
Os únicos momentos em que não há restrições de tempo são em algumas sequências especiais e nos confrontos com os chefes (nesse caso, é preciso reduzir a barra de vida deles a zero para prosseguir). Sem entrar no campo dos spoilers, tais combates certamente valem o ingresso, visto que os robilionários são sempre inimigos criativos que rapidamente roubam a cena quando aparecem, inclusive com referências a outros jogos e gêneros.
Upgrades para dar e vender
Como nem só de um mullet impecavelmente cortado vive um bom protagonista, Jack pode escolher entre uma série de upgrades possíveis toda vez que chega à saída de um andar. Há armas novas e mais poderosas (como espadas de gelo e escopetas de cano duplo), porém também melhorias pontuais e até mesmo cômicas, como imunidade ao ácido e fogo ou um aumento no número de piadas proferidas por partida (Duke Nukem ficaria orgulhoso).
A maioria desses bônus é válida por apenas um dos nove capítulos da campanha. No entanto, é possível desbloquear algumas melhorias permanentes para o herói, como a possibilidade de sortear novamente os upgrades disponíveis na loja ou manter um item equipado entre partidas mesmo em caso de game over.
Com isso e as várias opções de dificuldade presentes — há desde um modo sem o contador de tempo até uma experiência 100% roguelike, com apenas uma vida disponível e morte permanente —, é seguro afirmar que Mullet MadJack consegue entregar uma obra que atende tanto quem só quer conferir a história, quanto os jogadores que querem testar ao máximo suas habilidades de tiro.
E por mais que o impacto positivo das piadas e das execuções violentas se perca um pouco com a repetição, os vários modos de jogo incluídos adicionam certa longevidade à experiência. Há o modo infinito (em que as sequências de fases são geradas aleatoriamente), o boss rush (no qual revivemos os conflitos contra os chefes do jogo em sequência) e até um modo só com uma sniper. Todos possuem suporte a placares de líderes online para quem quer comparar os tempos obtidos com os amigos ou globalmente (e se gabar por isso).
E no console da Nintendo, como ficou?
Mas, claro, de nada adiantaria acertar em todos esses pontos se a performance do jogo no Switch não estivesse à altura das versões anteriores de PC e Xbox. Felizmente, joguei Mullet MadJack no Switch 2 usando o Modo Portátil Aprimorado e fiquei muito satisfeito com o trabalho de adaptação para a plataforma da Nintendo, que entregou 60 quadros por segundo sem quedas perceptíveis e com total fidelidade gráfica.
Por tocar no assunto, a apresentação e as cutscenes do game — que simulam um anime OVA — merecem ser elogiadas. Para quem sente falta da época em que os videocassetes reinavam (como este redator que vos escreve), Mullet MadJack é uma verdadeira viagem no tempo, com referências que vão desde o ocasional som de conexão da internet discada até um carismático Tamagotchi, que o protagonista saca do bolso entre um estágio e outro.
Há até a possibilidade de fazer um unboxing virtual do jogo, completo com os comentários da streamer/comunicadora da Peace Corp. Falando na personagem, vale destacar também a dublagem impecável da Isabel de Sá (a eterna “Jessie”, de Pokémon) e de todo o elenco. Nomes de peso do cenário nacional, como Guilherme Briggs, Luiz Feier Motta, Hermes Baroli e Letícia Quinto, estão presentes e ajudam a dar vida ao game — uma grata surpresa que reforça a veia brasileira do título e a qualidade ímpar dos nossos talentos.
No mais, tenho pouquíssimas críticas de fato à obra do estúdio HAMMER95. Além da ocasional e momentânea confusão visual (algo que mais ou menos todos os jogos de tiro rápidos estão sujeitos a enfrentar), só senti falta de mais suporte às funcionalidades específicas do Switch, como o giroscópio, e ao Modo Mouse no Switch 2.
Da mesma forma, visto que o jogo funciona muito bem no novo console da Nintendo, também não seria ruim ter um modo que mirasse nos 120 quadros por segundo, aproveitando essa funcionalidade da nova tela. Quem sabe em uma atualização futura?
Pura dopamina em forma de shooter
Mullet MadJack é um título bastante fácil de recomendar para fãs de jogos de tiro. Sua jogabilidade rápida é envolvente e viciante, e a estética de anime OVA — completa com a dublagem brasileira de alto nível — o torna uma verdadeira viagem no tempo para os saudosistas das décadas de 1980 e 1990. Logo, se ainda havia alguma dúvida, agora ela não existe mais: salvar a princesa influenciadora controlando Jack e seu inconfundível mullet é algo imperdível também no Nintendo Switch.
Prós
- A mecânica de apenas 10 segundos de vida torna a jogabilidade ágil e envolvente, além de representar uma inovação para o gênero boomer shooter;
- As várias opções de dificuldade incluídas garantem diversão tanto para quem só quer conferir a história quanto para quem deseja testar ao máximo suas habilidades;
- A variedade de modos de jogo (como infinito e corrida de chefes) adiciona longevidade à experiência, uma vez que a campanha tenha sido concluída;
- Apresenta uma destacada direção de arte, simulando um anime antigo com rara perfeição;
- Dublagem impecável que reúne nomes consagrados do cenário nacional;
- Ótima performance técnica no Switch.
Contras
- O constante foco na agilidade e a crescente complexidade das fases pode, ocasionalmente, resultar em momentos de confusão visual;
- Ausência de suporte ao giroscópio;
- No Switch 2, também poderia haver suporte ao Modo Mouse do Joy-Con 2 e aos 120 quadros por segundo no modo portátil.
Mullet MadJack — PC/XBO/XSX/Switch — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Epopeia Games









