Super Mario Galaxy: O Filme: carisma e espetáculo se chocam com alterações de lore, adaptação fraca e furos de roteiro

Divertido e cheio de referências, trama se perde com escolhas questionáveis.

Há três anos, a Nintendo e a Illumination tiveram uma tarefa hercúlea para cumprir: fazer um filme do Mario que fosse, ao menos, decente. E, no final, eles conseguiram. Na minha opinião, o primeiro filme comete erros bobos na narrativa (como deixar o Luigi para escanteio) mas cumpre bem sua premissa e traz um filme que é digno da franquia, ao contrário do sonho febril com o Bob Hoskins lá da década de 1980.


Agora chegamos nos dias atuais, com a franquia Super Mario tendo completado 40 anos e, nas próprias palavras da Nintendo, o lançamento de um novo filme como coroa da celebração, este que será debatido neste artigo. Sem mais delongas, venha comigo para atravessar novos mundos e conhecer novos amigos.
! ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS ! 

Do Reino do Cogumelo para além do horizonte

Em um canto isolado do espaço, em um Observatório suntuoso que navega pelo vazio infinito, está a Princesa Rosalina, a poderosa mãe das Lumas e guardiã dos cosmos. Em uma noite que começou como qualquer outra, sua paz é interrompida quando Bowser Jr., o herdeiro peralta dos Koopas, sequestra a regente e some em seu disco voador. 

No meio tempo, Mario e Luigi conhecem o simpático dinossaurinho Yoshi e passam o dia curtindo suas novas vidas como encanadores e heróis. Na festa de aniversário de Peach, uma Luma cai no Reino dos Cogumelos e implora pela ajuda da Princesa, assim começando a jornada pelos cosmos em busca de Rosalina.

Publicidade falsa descarada

Tal como seu antecessor, este filme não segue uma história fiel do jogo original, reciclando elementos da franquia para criar algo novo. Notem, inclusive, que até agora eu não nomeei o filme. Porque este não é o Super Mario Galaxy: O Filme. Este filme está mais próximo do que deveria ser um Super Mario Bros. 2: O Filme: The Lost Levels, expandindo os elementos do jogo/filme anterior mas sem alterar a estrutura original.

Não assista a este filme esperando a ambientação solene, a trilha sonora orquestrada ou a belíssima história da Rosalina (que eu vou entrar em detalhes mais tarde). Existem elementos de Mario Galaxy jogados aqui e ali como Megaleg, certas galáxias aqui e ali, alguns power ups, uma rápida sequência que brinca com gravidade e a presença de Rosalina, mas não se iluda: Galaxy só está no nome deste filme.

Temos a introdução de Yoshi para ser Mario World (a cena pós-créditos do filme original dava a entender que o filme seria baseado nesse jogo, sendo uma evolução mais natural, mas aqui estamos), poderes de Wonder, localidades de Odyssey, cinco minutos de Baby Mario e Baby Luigi em referência a Yoshi's Island e uma sequência inteira baseada em 2. 

São elementos divertidos que funcionam isoladamente, mas que vendem uma adaptação fraca do que deveria ser, na hipótese, um filme baseado em Super Mario Galaxy: o Festival das Estrelas, que foi usado nos materiais promocionais para mostrar a animação belíssima do filme, é nada mais que a festa de aniversário da Peach e totalmente alheia ao seu contexto original. Honeyhive Galaxy tem, de forma bastante insultante, menos tempo de tela do que Fossil Falls, especialmente com a suposta presença marcante da Honey Queen, que foi apresentada na última Direct do filme.

Gateway Galaxy deixou de ser só uma casinha no meio do vazio escuro para virar um espaçoporto bem charmoso e recheado de referências. Space Junk Galaxy só aparece rapidamente para ser literalmente reciclada e dar foco para o Planeta Bowser, uma amálgama visualmente legal do Castle Bowser de Mario Bros. Wonder e World Bowser de 3D Land mas, de novo, tirando foco de algo que supostamente deveria ser uma adaptação de Mario Galaxy.

Não existe maior vítima dessa adaptação, porém, que Rosalina. A misteriosa, mas bondosa e sábia guardiã do cosmos simplesmente não existe no filme, meramente servindo de objetivo principal para ser salva em mudanças absurdas de roteiro e lore que só causam confusão e furos de roteiros, além de minimizar absurdamente a riqueza de uma das personagens mais complexas da franquia. Se ela tem conexão com a Peach, por que ela não foi atrás dela depois? Como ela sabe de todas essas histórias? Como ela se tornou mãe das Lumas? Ela enfrentou a ameaça sozinha, e depois?

Estas perguntas não seriam problemas se o filme tivesse feito o mínimo de esforço em criar, no mínimo, uma conexão entre a personagem e a audiência, mas falhou miseravelmente porque só nos importamos com Rosalina porque é a Rosalina em aparência. O que é bem chato, considerando o enorme entusiasmo de Brie Larson com a franquia e como foi um dos grandes fatores na publicidade do filme, agora parecendo algo completamente artificial e manipulativo, além de, mais uma vez, menosprezando o nome forte que Mario Galaxy tem para vender algo que obviamente não está interessado em ser Mario Galaxy.

Velhos amigos, novos jogadores

Agora com o fator Mario Galaxy fora da discussão deste filme, como ele funciona por si só? Honestamente, até que bem. O filme expande bem a vida biológica de forma bastante criativa e interessante. Podemos ver Koopas, Pookies e outros membros da Tropa vivendo suas vidas, criando uma sensação de um universo mais vivo que estava faltando no filme anterior. O momento que essa expansão mais brilha é em Gateway Galaxy, onde podemos ver os mais variados NPCs interagindo entre si e transitando pelo espaçoporto, com a fenomenal sequência do cassino, efetivamente sendo uma grande homenagem ao Super Mario Bros. 2, com direito à gangue 8-bits e à hipnotizante aparição de Wart com seu enorme carisma e pompa.

O elenco de personagens principais também está bem mais robusto e construído. Mario está solidificado como respeitável herói e querendo dar um próximo passo em sua relação com Peach (“só amigos”, né, Nintendo? Sei…). Luigi agora é um personagem ativo no filme e conta com alguns dos momentos mais engraçados, em par com sua maior expressividade corporal e personalidade cativante. Yoshi entra para o time logo nos 10 primeiros minutos do filme e já interage de forma extremamente orgânica, sendo uma mistura de seu papel como bichinho e amigo leal muito bem equilibrados e adorável de assistir. Apesar da mudança extremamente infeliz e inútil de sua história, Peach continua cativante e divide momentos muito divertidos e charmosos tanto com Mario quanto com Toad.

Mas quem realmente brilha são os vilões, mais uma vez. A divisão de Bowser entre suas novas conexões com sua família é efêmera e abrupta, mas indicativo da sua capacidade de poder colaborar com os heróis, em referência às alianças nos RPGs e nos spin-offs. Seu carisma natural é ainda mais evidenciado com suas interações com Bowser Jr., este que equilibra muito bem sua personalidade infantil com golpes viscerais e maestria de combate. Kamek, infelizmente, foi relegado a saco de pancadas e o posto de ajudante irritante (mesmo ele tendo piadas muito boas), o que deve ser a segunda caracterização mais insultante do filme (atrás de Rosalina, obviamente).

Além da galera de Mario, temos também algumas aparições especiais. R.O.B. protagoniza uma cena bem engraçada e com uma referência bem criativa com seu mecanismo naturalmente lento. Enquanto isso, Fox McCloud tem pouco mais de cinco minutos de tela mas absolutamente domina com sua presença carismática e excelente animação. A surpresa de sua aparição foi um pouco estragada com o pôster revelado na semana anterior à estreia do filme, mas sua presença é ainda muito bem-vinda, em par com o personagem e ainda acompanhado de algumas músicas de sua série.

O que faz levar a um dos melhores aspectos do filme: sua excelente trilha sonora. Enquanto no filme anterior havia alguns temas do jogo, a sonografia estava em detrimento com músicas licenciadas em momentos inoportunos que mais causavam embaraço que graça (Take on Me, por mais que seja uma música linda, não casa com os Kongs). Em Lost Levels, não existe uma única música licenciada à vista, com toda a trilha sonora contendo pelo menos alguma nota remetente à franquia Mario que não seja apenas World 1-1 (comece a anotar as dicas, filmes do Sonic).

A nova versão de Jump Up Superstar no cassino, a Medley na sequência de miniquests dos Mario Bros., as pequenas notas referentes ao livro da Rosalina… a trilha sonora casa muito bem com as cenas que a acompanha, sendo estas muito bem animadas e belíssimas de assistir, especialmente com as cenas de ação muito bem coreografadas e ricas de detalhes.

Um bom produto, uma péssima adaptação, um filme divertido.

Apesar de erros crassos, grotescos e vulgares na execução da história, a aguardada sequência ainda é um filme muito bom. Ele contém personagens carismáticos, excelentes visuais, uma trilha sonora muito bem feita e, em comparação com outros filmes da Illumination, esforço genuíno em sua concepção. Ainda vai ter um dia que poderemos assistir a um filme baseado em Mario Galaxy, mas, até lá, podemos contar com esse filme que tem seus elementos, mas não sabe usá-los muito bem.

Ser filme familiar, especialmente animado, não é desculpa para um roteiro fraco e que ignora o peso do nome que adapta. Crianças são mais espertas do que nós damos crédito e aceitar produtos aquém da qualidade ao invés de algo genuinamente respeitoso foi o que levou ao estado atual midiático, com a Disney regurgitando remakes medíocres, aberrações de I.A. e, no caso da Illumination, filmes que nunca tentam algo novo e apelando para humor ridículo, exceto com o punho vigilante da Nintendo que com certeza está evitando que humor escatológico e embaraçoso respingue em sua franquia.

Para encerrar esta resenha, eu gostaria de tomar um tempo e elogiar a excelente dublagem em português brasileiro. Enquanto o elenco original está entupido de vozes de celebridades que tiveram pouco trabalho em atuação de voz (com variados resultados de qualidade), nossa dublagem está de ponta.

Em especial, Charles Emmanuel esbanja toda a traquinagem e energia de Bowser Jr. (no meu casting dos sonhos, Angélica Santos faria a voz do herdeiro dos Koopas, mas estou muito satisfeito com a escala), Felipe Drummond (irmão de Eduardo Drummond, que dubla o Toad aliás) entrega um Fox estiloso e audacioso com maestria e Anderson Coutinho faz um trabalho deliciosamente vilanesco como Wart, enquanto Aline Ghezzi faz uma voz extremamente linda para Rosalina, mesmo com pouquíssimas falas.

Curiosamente, a única voz que não me apeteceu tanto foi Donald Glover como Yoshi. Não é uma voz ruim e fez um trabalho decente, mas está mais que óbvio que ele foi chamado para o papel só para atrair publicidade, enquanto Kazumi Totaka poderia ter colocado ainda mais energia e personalidade no dinossauro, da mesma forma que Charles Martinet poderia muito bem ter feito os irmãos.

Talvez, no futuro, a Illumination saiba o que é verdadeiramente fazer uma adaptação. Mais uma vez, é um filme muito bom, mas não vá esperando muitas galáxias nestes níveis perdidos. Se fosse para analisar como Galaxy, 3/10. Se fosse dar uma nota em geral, seria 7/10. Até o próximo nível, jogadores!

Revisão: Vitor Tibério
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Fábio Castanho Emídio (StarWritter)
Formado em Publicidade e Propaganda na USC e especializado em Marketing Digital, sou Editor de Vídeos também, meu TCC foi sobre a Guerra dos Consoles e evolução da publicidade nos games. Jogo um pouco de tudo e também escrevo. Me descrevo como um artista.
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