Análise: Mina the Hollower entrega alto desafio em um mundo gótico contagiante

Após anos de desenvolvimento, o novo título dos criadores de Shovel Knight entrega tudo que prometeu.

em 27/05/2026


Mina the Hollower chama a atenção inicialmente como um novo título que tenta evocar a sensação dos jogos de Zelda da época do Game Boy Color, seja em sua direção de arte ou na forma como estrutura sua jogabilidade. Ao começarmos a jogá-lo, entretanto, entendemos que as inspirações não param por aí, vagando por outros títulos como Dark Souls, e que, unidas a decisões próprias, constroem uma aventura cativante, porém desafiadora. A questão que se coloca é se todo este pacote é o suficiente para elevar o jogo ao patamar de novo clássico da Yacht Club Games, os criadores do icônico Shovel Knight, e podemos afirmar que a resposta é positiva.

Redescobrindo Tenebrosa



Na trama, acompanhamos as aventuras de Mina, uma ratinha da guilda dos Escavadores. Os desdobramentos se iniciam após um naufrágio do barco que ela navegava, fazendo com que ela retorne à Ilha Tenebrosa. Anos antes, sua contribuição para a ilha havia sido fundamental na criação dos Geradores, torres enormes capazes de auxiliar os habitantes no desenvolvimento industrial da região.

A situação em Tenebrosa não estava nada agradável, entretanto. Mina se depara com um incêndio imediatamente ao chegar na Enseada do Recluso, e nota que um caos está instaurado próximo à região de Ossex, a cidade capital da ilha. Ao encontrar Lionel, uma figura imponente e líder da cidade, entende que o problema está relacionado com o desligamento dos seis geradores da ilha.

Com o incêndio apagado e a situação temporariamente controlada, Mina recebe sua missão principal: navegar pelas seis regiões de Tenebrosa e restaurar todos os geradores. Pelo caminho, ela terá que lidar com rivais inesperados e uma população tão caricata quanto macabra.



A ratinha deverá navegar por áreas que aproveitam-se muito da estética gótica vitoriana, com muitas construções com telhados pontiagudos, torres, pináculos, tudo sob uma paleta de cores mais sóbria, principalmente em Ossex. Isso não significa que todos os locais possuem visuais homogêneos, já que as regiões ainda conseguem se distinguir unicamente uma das outras, seja com um distrito em que o outono perdura para sempre, até mesmo a uma praia tomada pelo esqueleto de uma criatura gigantesca já morta.

Cavar e lutar

Falando da jogabilidade, Mina the Hollower abraça a câmera com vista de cima, com uma divisão de salas com desafios remetente a jogos de Game Boy e uma variedade de movimentos únicos à protagonista. Fazendo jus ao seu rótulo como escavadora, seu principal mote é justamente o de cavar, algo que utiliza durante toda a campanha. É imprescindível dominar esta técnica, pois ela é fundamental para a movimentação, permitindo que a ratinha atravesse vias ou pequenos buracos, e que até mesmo utilize do pulo ao sair da terra como impulso para cruzar abismos.



Mina também pode cavar como ajuda em combate. Ao entrar na terra, ela torna-se invulnerável a dano por contato, uma ferramenta muito útil para reposicionamento. Tal ajuda é crucial em várias das inúmeras batalhas calorosas que a ratinha enfrenta em sua aventura, afinal, embora o jogo tenha sido muito comparado a The Legend of Zelda em suas divulgações iniciais, há uma forte inspiração de títulos da série Souls, já que conta com com embates que punem aqueles mal posicionados e que não entendam os padrões de luta dos inimigos.

Tenebrosa é um lugar inóspito, então há vários monstros que causam muito dano, e isso soma-se a outros fatores de risco. Há, por exemplo, um sistema de cura limitada por meio de poções que são alimentadas ao causar dano em adversários, além da possibilidade de perda de seus ossos, a moeda da região, caso morra para um inimigo e não consiga recuperá-los em seguida.

Estes aspectos podem assustar os menos entusiasmados com jogos de dificuldade mais elevada, mas Mina the Hollower se mantém justo. Para toda dificuldade apresentada, o jogador é favorecido com várias opções de como encarar o desafio.

Inúmeros modos de jogar



Logo de início, somos apresentados a alguns tipos de arma inicial, que alteram drasticamente como interagimos com inimigos durante o combate. A Estrela da Noite, por exemplo, é uma espécie de chicote que ataca os inimigos à distância, enquanto a Soturna e Nortuna são adagas leves que permitem vários golpes consecutivos, mas exigem um contato mais próximo de início para atingi-los.

Escolher qual arma é a mais adequada varia entre cada jogador e seu estilo de jogatina. Durante minha aventura, afeiçoei-me logo de cara pela Estrela da Noite e, embora tenha testado outras armas, mantive-me com ela pois tendo a preferir ataques mais à distância, especialmente considerando que inimigos podem lhe empurrar durante o contato.

Como suporte, há também apetrechos e subarmas disponíveis. Subarmas são essencialmente armas de apoio que o jogador pode equipar ao encontrá-las pelo mundo, oferecendo os mais variados efeitos, como machados que podem ser arremessados ou a invocação de inimigos de ajuda. Entretanto, diferentemente das armas principais, seu uso é limitado ao consumir um coletável, e quebram ao morrer. A quebra, em especial, pode ser frustrante, pois impede que os jogadores continuem experimentando o uso da subarma caso tenham falhado inicialmente, mas, por sorte, é um problema que há solução com certos upgrades.



Os apetrechos, por sua vez, são equipáveis que melhoram atributos ou dão alguma habilidade especial ao jogador, com a limitação de que cada um ocupa um espaço disponível de equipamento. Vários apetrechos melhoram a capacidade de movimento do jogador, como, por exemplo, auxílio ao cair de abismos, e também auxiliam no combate, dando uma vida extra, causando uma explosão em área ao sair da terra, entre outros.

Vale também destacar que os combates aqui presentes não apenas exigem atenção, como esbanjam criatividade, afinal Tenebrosa dá vida a seres dos mais variados tipos. Entre as batalhas que mais me marcaram, estão uma luta contra uma casa amaldiçoada e um combate em formato de dança como entretenimento de show ao vivo em um barzinho de Ossex.



A dificuldade apresentada unida ao arsenal de possibilidades modifica a forma como cada jogador encara a aventura. Além disso, também funciona como uma forma de incentivo à expressão individual, permitindo que cada jogatina seja única.

Um mundo interconectado

Em termos de acessibilidade, Mina the Hollower dá ao jogador infinitas opções de ajuste aos que queiram uma aventura mais tranquila. Os modificadores disponíveis podem aumentar a velocidade de Mina, deixá-la completamente invencível, aumentar seu dano, e muito mais.

Quanto à exploração do mundo, o jogo não se utiliza de guias óbvios para ditar onde o jogador deve prosseguir, tanto é que não há a presença de um mapa detalhado. Porém, todas as áreas se interconectam com Ossex, que serve como um hub, e há dicas da progressão intencionada com NPCs e placas, mesmo que seja possível reconstruir os geradores em qualquer ordem, o que torna o mundo mais coeso e a exploração, mais interessante.

Cada área de Tenebrosa, além de única, cativa os jogadores graças ao visual em 8-bit bem polido, os temas em chiptune tão bons quanto os ouvidos em Shovel Knight e os pontos de referência que auxiliam a exploração sem a necessidade de um mapa. Ao atravessá-las, além dos ocasionais combates, há também a presença de desafios de movimentação, que exigem posicionamento e bom uso da escavada para prosseguir, sem cair em abismos, espinhos e outros obstáculos.



Ainda falando de exploração, fica o sentimento que o mundo de Mina poderia ter aproveitado um pouco mais da implementação de puzzles. Dificilmente a resposta entre uma sala e outra na progressão principal exige uma interação mais fora da caixinha, com exceção de certos momentos e algumas salas opcionais, o que pode tornar a experiência um pouco mais linear mesmo em um título pouco linear.

Além disso, durante combates, por vezes é possível que algum erro seja cometido por conta da percepção de espaço. Embora toda a aventura seja com a vista da câmera de cima, há um toque de tridimensionalidade quando Mina realiza seu pulo, e que é necessário dominar para conseguir atingir inimigos que ficam sobrevoando na altura acima. Porém, nem sempre o posicionamento nestas situações é muito claro ou óbvio como se espera, possivelmente por causa da natureza 2D do título, o que pode ocasionar em danos levados de maneira mais injusta.

Escavando ouro



Mina the Hollower
é fascinante em muitos níveis. Seu mundo é contagiante, com detalhes a todos os lados, e desafios que florescem tanto na movimentação quanto no combate corpo a corpo. Dado o arsenal de armas e apetrechos, que podem alterar drasticamente como o jogador controla a protagonista, e a não linearidade da progressão, o fator replay é imenso e certamente deve transformar este título em mais uma joia da Yacht Club Games.

Prós

  • Combate engajante;
  • Desafios de plataforma e movimentação interessantes;
  • Um mundo interconectado, com guias orgânicos para navegação;
  • Apresentação sonora e gráfica polidas ao extremo;
  • Inúmeras formas de ajuste de jogatina, permitindo um alto fator replay.

Contras

  • Alguns momentos de percepção de espaço estranha;
  • Gostinho de quero mais com os puzzles na progressão principal.
Mina the Hollower — PS4/PS5/XBO/XSX/Switch/Switch 2/PC — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 2

Revisor: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Yacht Club Games
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Guilherme Lima
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