Fórmula desgastada ou tradição? O dilema das franquias clássicas da Nintendo

A repetição de fórmulas clássicas ainda funciona ou a indústria moderna exige mudanças mais profundas?

em 07/06/2026

Poucas empresas da indústria conseguem carregar tantas franquias históricas quanto a Nintendo. De geração em geração, séries como Super Mario Bros., The Legend of Zelda e Donkey Kong atravessaram décadas mantendo enorme relevância. 

Porém, junto do sucesso contínuo, também surge uma discussão inevitável: a Nintendo preserva tradições importantes ou apenas recicla fórmulas desgastadas? A resposta talvez não esteja em apenas um dos lados, uma vez que a própria identidade dessas franquias nasceu da repetição de conceitos que funcionaram ao longo dos últimos 40 anos.

Ao mesmo tempo, o mercado moderno exige inovação constante, especialmente em uma indústria que evoluiu rapidamente nas últimas duas décadas. Hoje, dificilmente um jogo é totalmente inovador ou contém elementos inéditos. O fator surpresa dos anos 90 deu lugar à previsibilidade e uma espécie de “copia, mas não faz igual”.

Pensando nisso, falaremos sobre como esse dilema se apresenta aos jogos da Big N e como isso pode determinar o sucesso ou fracasso de um jogo. Boa leitura!

Tradição ou Identidade?

Existe um motivo para tantas séries clássicas manterem estruturas parecidas por décadas: reconhecimento imediato. Quando um jogador inicia um novo Mario 2D, uma carga histórica é ativada, apresentando conceitos como progressão, o funcionamento das fases e até o comportamento dos inimigos. Essa familiaridade cria conforto e reforça a identidade da franquia.

A série Mario talvez seja o maior exemplo disso. Desde os tempos de Super Mario Bros. no NES, a estrutura principal pouco mudou: percorrer fases, coletar moedas, usar potencializadores, enfrentar Bowser ao final da jornada e resgatar a princesa.


A temática “donzela em perigo” era a base para as grandes histórias na década de 1980, pois oferecia um objetivo simples e imediato para o jogador: avançar até salvar. Além disso, as limitações técnicas da época favoreciam histórias diretas e fáceis de entender. 

Mesmo com novas mecânicas e visuais modernos de Super Mario Wonder, a essência continua intacta. Pulando para os jogos tridimensionais, Super Mario 64 definiu um padrão de exploração em ambientes 3D que influenciaram a franquia até Mario Odyssey, título mais recente nesse padrão.

Nos jogos de aventura da série, existe outro padrão recorrente — Mario recebe uma habilidade central que transforma a experiência e também participa da narrativa:
  • Em Super Mario Sunshine, o jato d’água F.L.U.D.D. redefine movimentação e combate, permitindo que Mario explore o mapa de maneira fluida, perdão pelo trocadilho;
  • Já em Super Mario Odyssey, Cappy controla os inimigos e objetos do cenário com muita criatividade e bom humor. A fórmula muda superficialmente, mas a estrutura principal é a mesma.

Com Donkey Kong Country acontece algo similar: a franquia consolidou sua identidade em plataformas desafiadoras, ritmo acelerado e fases extremamente elaboradas, especialmente em Country Returns e Tropical Freeze. Isso não necessariamente representa falta de criatividade; em muitos casos, demonstra confiança em uma base sólida, além de ativar a memória afetiva do jogador que experienciou a franquia no passado.

Adicionalmente, a tradição também ajuda a preservar o legado histórico dessas séries. Muitos jogadores procuram justamente aquilo que tornou essas franquias famosas originalmente. Alterar radicalmente suas estruturas pode gerar estranhamento e até afastar parte do público.


Em outras palavras, repetir certos elementos não significa automaticamente uma acomodação das empresas, e sim respeito à identidade construída ao longo de décadas.

A repetição limita a evolução

Por outro lado, também existe um limite para o quanto uma fórmula consegue se sustentar apenas pela nostalgia ou familiaridade. Em alguns momentos, repetir estruturas conhecidas passa a transmitir a sensação de previsibilidade.

Os jogos 2D de Mario ilustram bem essa situação. Embora extremamente competentes tecnicamente, muitos títulos recentes seguem um molde tão parecido que se tornam menos impactantes. O jogador já sabe exatamente o que esperar: mundos temáticos, power-ups específicos, castelo no final e progressão linear.


Pequenas mudanças visuais ou mecânicas deixam de causar surpresa porque a base permanece praticamente idêntica há décadas. Esse sentimento se intensifica porque a indústria mudou bastante. Nos anos 1990 e início dos anos 2000, a evolução tecnológica era tão rápida que praticamente cada geração apresentava novidades revolucionárias. 

Hoje, os avanços são graduais e menos impactantes para o jogador. Como consequência, tornou-se mais difícil provocar aquele impacto de descoberta constante que muitos jogadores sentiam antigamente. Quem não se lembra da descoberta da primeira fase secreta de Super Mario World?

Isso ajuda a explicar por que franquias que arriscam mudanças mais profundas costumam gerar discussões tão intensas. Donkey Kong exemplifica esse dilema, pois durante muito tempo a série permaneceu presa quase exclusivamente ao formato de plataforma.


Quando Donkey Kong 64 tentou expandir a franquia para uma aventura tridimensional, houve uma clara divisão entre os fãs, mas também uma tentativa clara de evolução em meio às franquias de aventura em alta da época como Banjo e Kazooie e o próprio Mario 64.

Nos dias atuais, Donkey Kong Bananza segue um caminho semelhante, aproximando-se bastante do estilo de exploração visto em Mario Odyssey. Esse cenário ativa outro debate importante: até que ponto a evolução é de fato genuína quando muitas franquias recuperam conceitos internos da própria Nintendo?

Quebra da fórmula

Se Mario e Donkey Kong representam continuidade, Zelda simboliza a ruptura do padrão. Por diversas décadas, a franquia estabeleceu um padrão bastante claro: exploração relativamente linear, aquisição gradual de equipamentos e progressão baseada em calabouços.

Vale lembrar que, em sua origem, a série apostou em uma livre exploração. Em A Link to The Past, ainda que haja uma ordem certa de atividades, o jogador pode explorar o mapa de Hyrule em busca de recursos antes mesmo de a aventura de fato começar.


De Ocarina of Time em 1998 até Skyward Sword em 2011, a estrutura principal mudou: Link começava limitado e expandia suas possibilidades conforme encontrava novos itens. Cada ferramenta desbloqueava áreas inéditas e também funcionava como solução para puzzles específicos.

Esse modelo foi extremamente influente durante anos, mas começou a gerar um certo desconforto quanto à linearidade excessiva. As duras críticas da progressão “engessada” de Skyward Sword foram o estopim para uma mudança completa.


Em resposta, Breath of the Wild reformulou completamente a estrutura da série. Em vez de conduzir o jogador por um caminho específico e bloqueando avanços fora de hora, o jogo priorizou a liberdade quase que total desde os primeiros minutos.

O Great Plateau serve como um tutorial disfarçado, e embora não seja extenso em termos de território, percorrê-lo pode demorar mais tempo do que muitos templos combinados de jogos anteriores, ou seja, as dimensões também são parte dessa evolução.


A mudança seguiu em Tears of the Kingdom, ampliando ainda mais as possibilidades de exploração e criatividade com as ilhas flutuantes e o subsolo extenso. Diferente de muitos mundos abertos modernos, Zelda evitou depender excessivamente de marcadores (?) e objetivos espalhados artificialmente pelo mapa. 

A descoberta passou a surgir naturalmente através da curiosidade do jogador, tornando a experiência mais orgânica. Essa transformação também mudou a percepção da própria Nintendo sobre a franquia. Eiji Aonuma já comentou publicamente o estranhamento em retornar à fórmula antiga após experimentar tamanha liberdade.


O questionamento, no entanto, faz sentido: depois de mostrar um mundo aberto tão amplo e dinâmico, voltar para uma progressão mais controlada poderia parecer um retrocesso para parte do público.

Afinal, onde está o desgaste?

Em meio a tudo isso, ainda temos um ponto importante nessa discussão: talvez o problema não seja exclusivamente a repetição das franquias clássicas, mas sim a transformação da própria indústria dos games. Graças aos avanços tecnológicos da última década, as informações circulam rapidamente, seja pelos canais oficiais ou pelos famosos vazamentos, que por vezes não são bem vazamentos, se é que me entende.


As mecânicas são compartilhadas entre diferentes estúdios, ajudando a moldar as tendências que se espalham em pouco tempo. Após um breve período, praticamente todos os gêneros possuem estruturas consolidadas, e consequentemente, surpreender o jogador se tornou muito mais difícil.

Nos anos 1990, um jogo em 3D era revolucionário. Nos anos 2000, mundos “abertos” causavam impacto constante. Atualmente, grande parte das mecânicas modernas já foi explorada inúmeras vezes. Isso cria a sensação de que “tudo parece igual”, mesmo com diferenças importantes entre os jogos.


Talvez, por isso a Nintendo continue apostando tanto em refinamento em vez de uma revolução completa. A empresa prefere aperfeiçoar ideias conhecidas e não simplesmente abandonar totalmente suas identidades históricas. Em alguns casos, isso funciona perfeitamente. Em outros, reforça a percepção de desgaste.

No fim, o dilema entre tradição e repetição dificilmente terá uma resposta definitiva. Afinal, aquilo que para alguns representa conforto e identidade, para outros pode soar como estagnação criativa ou preguiça da indústria.

As franquias clássicas da Nintendo vivem um equilíbrio delicado entre preservar suas raízes e acompanhar a evolução da indústria. Repetir fórmulas pode fortalecer identidade, mas também aumenta o risco de previsibilidade.

Ao mesmo tempo, mudanças radicais como as vistas em Zelda mostram que inovação também possui consequências e divide opiniões. Talvez o verdadeiro desafio não seja abandonar tradições, mas encontrar novas formas de surpreender sem perder aquilo que tornou essas séries tão marcantes.
Revisão: Beatriz Castro
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Victor Hugo Carreta
Fã de carteirinha da franquia Pokémon desde os oito anos de idade, teve seu primeiro contato com os monstrinhos de bolso no Game Boy Color e de lá para cá, são mais de 25 anos de alegria. Fanático por vídeo-games, gostaria de poder jogar mais tempo do que trabalha.
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