Quando vi esse jogo pela primeira vez, não o entendi muito bem. É um nome meio complexo: 1000xRESIST. Em inglês seria "1000 Times Resist", cuja tradução seria "1000 Vezes Resista" ou "Resista 1000 Vezes" — um nome bem interessante. Acho que a própria escolha do título reflete como ele busca ser uma experiência diferenciada. O jogo é muito intrigante e, quem gostou de Life is Strange, Matrix e Ruptura, com certeza vai curtir também.
O existencialismo e a busca pela essência da identidade humana
A história se passa em um futuro distante quando existem apenas mulheres, e todas são clones de uma mesma pessoa: a Grande Mãe. Ela é tratada como uma deusa dentro da trama, pois “salvou” a humanidade de uma raça alienígena que trouxe um vírus devastador. Nenhuma das clones possui um nome próprio; seus nomes são, na verdade, as funções que exercem dentro dessa sociedade.
A narrativa é o grande ponto alto do jogo, que está mais para uma visual novel do que para um jogo tradicional. Podemos controlar a nossa personagem e existem até trechos em que avançamos e voltamos no tempo. Há também uma mecânica de teleporte entre pontos: o tempo desacelera e precisamos localizar o próximo ponto de salto. Essa mecânica é simples, mas funcional, e em alguns momentos traz uma sensação de urgência bem interessante, mas a gameplay em si é simples e não busca ser o foco principal.
A trama é extremamente profunda e aborda o existencialismo — no sentido de questionar qual é a nossa função no mundo em que nos encontramos e quem realmente somos. Afinal, somos fruto do material genético dos nossos pais, mas também do ambiente em que vivemos, das pessoas com quem convivemos e do mundo que escutamos e observamos. Então, quem realmente somos? O título aborda essa questão de maneira brilhante, além de tratar de temas mais sensíveis e polêmicos com muito respeito.
Ele debate o preconceito contra estrangeiros, os traumas e as dificuldades pelas quais passamos na vida — incluindo a pandemia que vivenciamos em 2020 e cujas consequências sentimos até hoje. O jogo consegue abordar todos esses tópicos com uma delicadeza impressionante.
As ferramentas usadas para impacto emocional
A direção de arte também é excelente. Os inúmeros ângulos de câmera utilizados não são por acaso. Existem momentos da narrativa em primeira e em terceira pessoa — seja com a câmera sobre o ombro da personagem ou fixa em um ponto próximo ou distante. O jogo brinca com o posicionamento da câmera e utiliza a própria interface de usuário como ferramenta para contar a história e gerar impacto emocional no jogador.
Quanto à trilha sonora, também achei muito boa. Na maior parte do tempo, a música assume um tom mais sinistro nos momentos de tensão, o que reforça a atmosfera de mistério. Somada a isso, temos uma excelente dublagem em inglês, o que melhora ainda mais a imersão sonora.
E não temos apenas um ótimo trabalho de voz: o jogo está totalmente legendado em português. Isso é fundamental, pois, como a experiência é baseada em texto o tempo todo, a localização permite manter todo o impacto emocional da história para o público.
Uma jornada narrativa inesquecível
1000xRESIST prova que os jogos continuam sendo um dos meios para a construção de narrativas profundas e provocativas. Ao deixar de lado mecânicas complexas para focar em uma direção de arte excelente e uma ambientação sonora imersiva, a obra entrega uma jornada emocional inesquecível.
É uma recomendação para quem busca mais do que entretenimento simples: uma obra artística que questiona a própria essência da identidade humana, do trauma e do papel da memória. O título faz jus ao próprio nome ao resistir ao comum e se consolidar como uma das experiências narrativas mais intrigantes dos últimos tempos.
Prós
- A narrativa é brilhante e aborda temas sensíveis de forma extremamente respeitosa e delicada;
- A direção de arte faz um uso muito bem feito dos ângulos de câmera e da interface para amplificar a emoção e contar a história;
- As legendas totalmente em português são um acerto fundamental para garantir o impacto e a imersão;
- O trabalho de voz em inglês em conjunto da trilha sonora misteriosa e sinistra constrói uma atmosfera imersiva.
Contras
- A jogabilidade é extremamente simples e secundária, o que pode desapontar quem espera mecânicas tradicionais de ação;
- A profundidade dos temas abordados faz do título uma experiência densa, não sendo a melhor opção para quem busca apenas um entretenimento leve ou casual.
1000xRESIST — Switch/Switch 2/PS5/XSX/PC — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Fellow Traveller





