É difícil olhar para Final Fantasy XIV Online hoje e imaginar que, em 2010, seu lançamento foi praticamente um desastre. Problemas técnicos, decisões de design equivocadas e uma recepção muito negativa fizeram daquele primeiro MMORPG algo que parecia condenado a desaparecer. A Square Enix, porém, decidiu não simplesmente abandoná-lo. O jogo foi reconstruído, renasceu como A Realm Reborn em 2013 e, ao longo de mais de uma década, transformou-se em um dos MMORPGs mais respeitados e ambiciosos do mercado.
É justamente essa história de reconstrução que torna a chegada ao Nintendo Switch 2 tão curiosa. Não estamos diante de uma versão experimental ou de um jogo tentando descobrir o que quer ser. O que chega ao console da Nintendo é um Final Fantasy XIV maduro, seguro de sua identidade e carregando uma quantidade quase absurda de conteúdo acumulado ao longo dos anos.
E a impressão mais marcante nas primeiras horas é justamente essa solidez: parece que tudo já estava pronto para caber aqui. O mundo é enorme, a aventura é generosa e, apesar de toda a complexidade que existe por trás dela, jogar no Switch 2 transmite a impressão de que estamos diante de uma adaptação feita conhecendo muito bem o hardware e o utilizando à exatidão.
Aventuras por Eorzea
Final Fantasy XIV coloca o jogador no papel de um personagem criado por ele mesmo, um aventureiro que chega a Eorzea em um momento de tensão crescente. A região ainda carrega as cicatrizes de uma grande guerra contra o Império Garleano, enquanto as diferentes nações tentam lidar com as ameaças que surgem ao seu redor. Paralelamente, uma misteriosa entidade conhecida como Hydaelyn estabelece uma conexão com o protagonista e o coloca no centro de acontecimentos muito maiores do que ele poderia imaginar.
As primeiras horas não são necessariamente uma sucessão de acontecimentos espetaculares, mas não deixam de entregar momentos emocionantes e de crescimento de personagens no padrão que os fãs de Final Fantasy tanto gostam. Existe bastante espaço para conhecer lugares, pessoas e conflitos que, naquele momento, podem parecer pequenos demais.
Mas é justamente essa construção que cria uma sensação interessante de pertencimento. Aos poucos, Eorzea deixa de parecer apenas o cenário de uma aventura de fantasia tradicional e começa a transmitir a impressão de ser um lugar que continua existindo mesmo quando você não está olhando para ele.
Também é uma história que pede paciência. Há momentos em que o ritmo diminui consideravelmente, e a grande quantidade de diálogos e informações pode quebrar o envolvimento. Por outro lado, quando a narrativa finalmente encontra seu ritmo e começa a transformar personagens, acontecimentos e conflitos apresentados anteriormente em algo palpável para o jogador, a sensação de recompensa é muito forte.
Várias classes, um personagem
O combate de Final Fantasy XIV tem uma cadência muito própria. Não existe aquela sensação de estar constantemente pressionando botões em uma velocidade frenética; há, em vez disso, um ritmo construído em torno da espera, da leitura da situação e da escolha do próximo movimento. As habilidades vão se sobrepondo e, conforme a classe cresce, a sensação de simplesmente apertar comandos dá lugar à de entender uma pequena dança de ações, tempos e posicionamento.
Uma boa comparação que me permito fazer aqui não é com World of Warcraft, mas com Xenoblade Chronicles. Há algo nessa maneira de combinar movimentação, habilidades e uma estrutura de combate mais de posicionamento, inclusive para ajudar seus aliados e flanquear inimigos que faz a experiência parecer muito mais próxima do RPG da Nintendo do que da imagem tradicional que muita gente tem de um MMORPG ocidental. Não é um sistema puramente de ação, mas também não parece que estamos apenas observando números e barras se resolverem sozinhos. Quando uma sequência de habilidades se encaixa e um inimigo finalmente cai, há uma satisfação bastante concreta em perceber que você entendeu o ritmo daquela luta. O combate é fluído e muito viciante, sendo de longe minha parte favorita durante as horas e horas que tenho jogado.
Mas é no sistema de classes que Final Fantasy XIV realmente ganha uma das suas características mais especiais. Em vez de criar um personagem novo toda vez que quiser experimentar outro papel, o mesmo herói pode aprender praticamente todas as classes disponíveis e alternar entre elas à vontade. Seu personagem deixa de ser apenas um guerreiro especializado e passa a ser uma espécie de projeto de longo prazo, alguém que pode assumir diferentes papeis sem que todo o progresso anterior seja jogado fora.
O sistema de alternância de classes é simples e ligado às armas. Cada classe possui um tipo de arma de assinatura: o dragoon/lanceiro usa lanças, o guerreiro usa machados e assim por diante. Então, a dinâmica fica bem clara: quando você aprende uma nova classe/profissão, aprende a manejar aquela arma e seus tipos de habilidade. Assim, ao alternar entre armas, alterna também as classes.
Essa liberdade também diminui uma das maiores barreiras dos MMORPGs: o medo de escolher errado. É possível passar um tempo como tanque, experimentar uma classe de dano, mudar para uma função de suporte ou simplesmente abandonar o combate por algum tempo e se dedicar a atividades de coleta e criação. Tudo continua pertencendo ao mesmo personagem. Há uma sensação muito boa de continuidade nisso, como se o seu herói estivesse realmente aprendendo diferentes ofícios ao longo da própria jornada.
Sentiu vontade de alternar entre as classes aprendidas durante a jornada? Fácil: basta trocar de arma, e pronto.
Uma infinidade de coisas para fazer
A primeira coisa que impressiona em Final Fantasy XIV é a sensação de escala. Depois de mais de dez anos de atualizações e expansões, o jogo não parece simplesmente grande: ele parece difícil de conceber por inteiro. Há sempre alguma região ainda não visitada, alguma missão que ficou para trás, uma dungeon diferente para experimentar ou uma atividade que você sequer sabia que existia. É o tipo de RPG em que olhar para a quantidade de coisas disponíveis pode ser tão empolgante quanto intimidante.
Essa variedade ajuda bastante a evitar aquela sensação de repetição que poderia surgir em um jogo tão extenso. Nem toda missão principal ou secundária é memorável, e algumas seguem estruturas bastante tradicionais, mas o conjunto consegue dar textura ao mundo.
O jogo é imenso, mas a jornada principal, seguindo suas quests primárias, nos levam a percorrer as mais diversas regiões do mapa, exibindo sua diversidade e grandeza, também diminuindo a sensação de perder algo que o jogo pode oferecer. Afinal, quando iniciamos o jogo, escolhemos entre uma das regiões principais. Então, não se preocupe: vocês irão andar pelo mundo inteiro do jogo.
As dungeons também mudam de ritmo e apresentação, enquanto diferentes atividades permitem que o jogador alterne entre momentos de combate, exploração, coleta, criação e simplesmente estar naquele universo. Quando começa a cansar de uma coisa, há outra logo adiante.
Os eventos temporários que aparecem a todo momento e em todas as regiões reforçam ainda mais essa sensação de mundo vivo. Há uma impressão de que Eorzea continua se movimentando, recebendo novidades e criando motivos para voltar mesmo depois de muitas horas. Somada à quantidade de histórias acumuladas, essa dinâmica faz com que Final Fantasy XIV seja menos parecido com um RPG que você simplesmente termina e mais com um lugar ao qual você retorna. É uma diferença importante, porque a imersão aqui não vem apenas da qualidade visual ou da ambientação, mas da sensação de permanência.
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| Não se enganem: as quests tradicionais são apenas a ponta do iceberg. |
Há, porém, uma barreira que pode interromper tudo isso de maneira bastante brusca: a ausência de português. Para quem não domina inglês ou os outros idiomas disponíveis, uma parte importante dessa experiência fica naturalmente mais distante. Em um jogo tão dependente de diálogos, personagens e contexto, não entender plenamente o que está acontecendo pode fazer Eorzea voltar a parecer apenas um cenário bonito. É uma limitação particularmente sentida porque, quando a história funciona, ela é uma das maiores forças de Final Fantasy XIV.
Uma versão muito bem planejada
O que mais surpreendeu no Switch 2 foi perceber como Final Fantasy XIV simplesmente se encaixa no console. O controle não dá a impressão de estar substituindo ou apenas adaptando uma interface que não é dele.
A experiência fica ainda mais interessante porque é possível alternar entre diferentes formas de interação sem que nenhuma pareça completamente deslocada. O controle tradicional funciona muito bem para percorrer o mundo e combater, muito provável pelo fato de o jogo ter sido planejado, desde o ínicio, tanto para PC quanto console.Já teclado e mouse deixam a experiência mais próxima daquela de um PC; e, no modo portátil, a tela sensível ao toque transforma determinadas interações, já que a tela pequena limita o espaço e faz com que alteremos certas configurações da HUD para deixar a tela menos poluída. Há ainda o toque especial de poder salvar várias configurações de HUD, então, fique à vontade para ter HUDs específicas para jogar no modo portátil, na TV e por aí vai.
No modo dock, há uma sensação mais próxima de uma sessão tradicional de MMORPG. Sentar diante de uma tela, pegar teclado e mouse e mergulhar em uma dungeon ou em uma longa sequência narrativa faz o Switch 2 desaparecer um pouco enquanto aparelho. Já no portátil, a experiência ganha uma intimidade diferente. É muito fácil transformar Final Fantasy XIV naquele jogo que você abre para fazer algumas missões, coletar materiais ou simplesmente continuar a história antes de dormir.
A tela sensível ao toque acrescenta um pequeno toque de conforto que acaba se tornando difícil de abandonar. Em vez de transformar o portátil em uma experiência cheia de concessões, ela oferece uma camada adicional de interação. O resultado é um jogo que parece ter sido pensado para aceitar diferentes maneiras de jogar, inclusive misturando várias delas e não simplesmente adaptado para suportá-las.
Ainda assim, o jogo conta com uma pequena, mas clara variação de FPS em determinadas situações, como cidades cheias ou muitos efeitos na tela. Nada insuportável e grave, talvez para quem é mais exigente quanto a isso. Há, inclusive, a possibilidade de travar a taxa de quadros em 30 FPS.
Um porte surpreendente, com benefícios e ressalvas
A maior surpresa para quem chega agora talvez esteja no próprio teste gratuito. Embora tenha experienciado a versão completa para esta análise, atualmente é possível jogar sem pagar até o nível 80, com acesso a A Realm Reborn e às expansões Heavensward, Stormblood e Shadowbringers. Isso representa uma quantidade de conteúdo que, em muitos outros jogos, já seria vendida como uma experiência completa.
Curiosamente, essa versão gratuita pode fazer Final Fantasy XIV parecer quase um RPG offline. Não porque o mundo deixe de ser online, mas porque as restrições impostas ao teste reduzem justamente parte da dimensão social que define um MMORPG. Você pode mergulhar na história, explorar o mundo e experimentar uma enorme quantidade de conteúdo, mas, se seu interesse está na parte MMORPG, criar clãs, grupos, combater com os amigos, a coisa muda de figura.
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| Interface de controle x teclado/mouse. |
E aí acontece uma mudança interessante quando você decide pagar. De repente, aquela experiência gigantesca, que já funcionava quase como um RPG tradicional, se abre para o lado mais comunitário de Final Fantasy XIV, além de permitir avançar para o conteúdo mais recente, incluindo Dawntrail. Sem uma conta paga, você descobre que aquele mundo enorme que estava explorando era apenas uma parte da experiência completa. A partir daí, grupos, atividades e a continuidade da aventura passam a ter outro peso.
O problema está justamente no peso dessa decisão. Depois que a conta deixa o teste gratuito para receber uma licença do jogo completo, não existe simplesmente a possibilidade de voltar àquele estado anterior de limitações. Isso torna a escolha mais significativa, pois a assinatura da versão do Switch é mais cara do que algumas outras. Há a opção de quem já assina no PC, por exemplo, obter um desconto no Switch 2; ainda assim, pagar por duas assinaturas distintas é frustrante.
Felizmente, a quantidade de conteúdo oferecida antes desse momento é tão grande que não existe pressa real para decidir. Dá para jogar, conhecer Eorzea, descobrir se aquela jornada faz sentido para você e, só então, decidir se quer transformar esse RPG em um compromisso de longo prazo.
Eorzea no Switch 2 é uma experiência para todos os fãs de RPG
Final Fantasy XIV no Switch 2 produz uma sensação curiosa: apesar de carregar mais de uma década de história, ele não parece um jogo preso ao passado. Sua estrutura é robusta, como a dos grandes MMORPGs ocidentais, mas existe uma leveza na maneira como o mundo, as classes e a exploração se apresentam que me lembra RPGs como Xenoblade Chronicles X. É uma combinação pouco comum, que funciona especialmente bem no formato híbrido da Nintendo.
O mais impressionante, no fim, é que a versão não parece estar simplesmente tentando provar que um MMORPG pode rodar no Switch 2. Ela parece querer que você esqueça que está diante de um porte. O controle é confortável, teclado e mouse funcionam naturalmente, a tela sensível ao toque acrescenta praticidade e, no modo portátil, existe aquela sensação particularmente agradável de carregar um mundo gigantesco inteiro nas mãos, visto que não há perdas significativas de performance de jogo e conexão com a rede entre os modos dock e portátil. Além disso, o tamanho da tela faz deste um dos melhores portes que já presenciei nesse sentido.
Final Fantasy XIV continua sendo um compromisso enorme. A história demora para engrenar, a quantidade de conteúdo pode assustar e a ausência de português é uma barreira real para parte do público. Mas, quando essas questões não impedem a entrada, o que sobra é uma experiência surpreendentemente acolhedora e imersiva para um jogo desse tamanho. Depois de tantos anos, Eorzea não apenas sobreviveu ao desastre que quase encerrou sua história e ela chegou ao Switch 2 parecendo saber exatamente como receber novos jogadores.
Prós:
- Conteúdo gigantesco e ricamente imersivo;
- O port não perde muito em qualidade: tanto o modo dock quanto o portátil funcionam muito bem;
- Sistema de classes e combate das mais interessantes e divertidas entre os MMORPGs;
- A variedade de modos de controlar, que podem ser combinados e intercalados, incluindo com possibilidade de ativar ações ao tocar na tela, faz desta a versão mais completa em termos de jogabilidade.
Contras:
- A assinatura paga é mais cara no Switch 2; mesmo com a possibilidade de desconto já é assinante em outra plataforma, isso se torna frustrante:
- A falta de português pode dificultar a compreensão e a imersão, o que é uma perda significativa, já que o título tem uma narrativa e uma construção de mundo incríveis;
- As missões principais e o avanço da história ficam lentos em alguns momentos.
Final Fantasy XIV Online — Switch 2 — Nota 8.5
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Square Enix









