Análise: Grim Trials aposta na foice, no metal e em um pós-vida que cobra caro

Combate frenético, trilha de arrepiar e uma vontade genuína de se aproximar do deus do submundo grego.

em 24/08/2026

Todo mundo que já flertou com roguelike de ação sabe onde essa estrada começa: Hades plantou uma bandeira tão alta que virou régua para o gênero inteiro. Grim Trials chega sem esconder sua herança.

Desenvolvido pela Rolling Glory Jam, estúdio indie indonésio, e publicado pela Soft Source, o jogo me pôs na pele de uma aprendiz de ceifadora disposta a atravessar o pós-vida por amor. Este foi um dos meus primeiros mergulhos de verdade nesse estilo, e saí de lá entendendo uma coisa sobre mim mesmo: eu gosto disso aqui. Boa leitura!

Uma casulo em busca de quem ficou para trás

A história é simples, mas tem aquele fiapo de mistério que puxa a gente adiante. Você controla Avelin, uma aprendiz de ceifadora com o título de "casulo", como o jogo chama quem ainda está em treinamento. O objetivo dela é atravessar os desafios do pós-vida para voltar até alguém de quem gosta muito, citado na biografia apenas como "ele". É pouco, mas é o suficiente para dar peso a cada tentativa.

No caminho estão as sete almas pecadoras, e não é preciso muito esforço para ligar os pontos: os pecados capitais são um tema recorrente quando um jogo mexe com vida, morte, anjos e demônios, e, aqui, eles servem bem de espinha dorsal. Nada novo ou bem elaborado, mas cumpre o papel de manter o jogador curioso até a próxima sala.


O texto está em português do Brasil, com trocadilhos localizados e bem escrito, o que facilita a compreensão da história e dos pedidos de missões secundárias. Pensei que o jogo todo seria com diálogos falados por conta da cena de abertura e, ainda que as cenas dubladas venham em inglês, isso nunca atrapalhou.

Entre foices e martelos

O combate é onde a inspiração fica escancarada. Avelin ataca de foice, com um golpe frontal que cobre uma área um pouco além do alcance, e tem uma besta para o trabalho à distância. Mas o legal é que as armas não são trocas cosméticas: o martelo, por exemplo, tem alcance bem menor e compensa com um dano brutal na área de contato.

Não existe defesa direta. A esquiva é um avanço rápido numa direção, e ponto. A única exceção vem dos poderes que o jogo oferece ao fim de cada sala, quando um deles reflete ou destrói golpes inimigos. É agressivo, seco e faz sentido: aqui, cada segundo conta, tanto que dá para cancelar animações mais longas encaixando movimentos e ataques na ordem certa.


Os inimigos ajudam a manter o desafio vivo. Há uma divisão em classes: animal, planta… e cada uma tem seu padrão: os arranhadores brigam de perto, enquanto os atiradores incomodam de longe. Como a composição muda de sala para sala, nenhum confronto se parece exatamente com o anterior.

Forjar, vestir e virar obra de arte

A progressão vive do que cai dos inimigos a cada sala vencida, e é aqui que Grim Trials pede paciência. Dá para forjar equipamentos e roupas com atributos específicos, montando builds que puxam para o corpo a corpo ou para a distância.

Cada peça do conjunto reflete diretamente no visual da Avelin, ou seja, não é algo genérico. As roupas de um mesmo conjunto rendem bônus, o que estimula fechar os sets e testar composições variadas.


Além disso, o sistema de construção tem seus mimos. Existe um minigame de forja em que acertar todos os pontos garante o status de "obra de arte", com atributos bônus no equipamento. Consegui a proeza na capa e me senti um artesão de verdade; já na besta nova, escorreguei e fiquei sem o bônus. Dá para reforjar e tentar de novo, mas aí mora o problema.

O preço do grinding

Foi na segunda alma pecadora que o jogo mostrou os dentes. O salto de dificuldade em relação à primeira é considerável, ao ponto de me obrigar a melhorar os equipamentos antes de seguir. E melhorar equipamento aqui significa grinding (bastante) e, sinceramente, chato. O material de que você precisa é aleatório: uma run pode render tudo ou absolutamente nada do que faltava.

Aqui vale uma comparação honesta. Em Hades, a progressão é mais previsível, com fontes estáveis de recurso e a sensação de que toda run rende algum avanço. Grim Trials, por outro lado, é dependente do RNG para materiais essenciais, e isso multiplica a sensação de run desperdiçada. Não é uma regra do gênero, mas poderia ser melhor trabalhada.


A build também depende de sorte. Como cada peça tem seus atributos, dá para casá-los com os poderes de sala e favorecer um estilo ou uma arma específica. O detalhe é que esses bônus de sala são aleatórios, então não dá para estruturar tudo em cima deles.

Uma árvore que cresce com almas

A árvore de habilidades é vasta, com ramificações e presença de técnicas especiais, e os pontos vêm de um jeito engenhoso: você coleta almas de monstros pelas salas e, ao fim de cada capítulo ou depois de uma falha, essas almas enchem uma barra que libera um ponto. As side quests também rendem pontos e, ainda que não inovem, guiam bem o jogador, com recompensa proporcional ao esforço.


O elenco de apoio dá cara ao lugar: John, o ex-ceifador que faz as vezes de mentor; Pytra, uma chaminha azul carismática que cuida da forja; Milyun, um híbrido de aranha e homem no comando da alfaiataria; e Ivanya, a bruxa das poções. Todos parecem ter algum laço com Avelin, e fechar side quests aumenta a afinidade com eles. 

Metal puro nos ouvidos

Se há um ponto em que Grim Trials não faz por menos, é a trilha sonora. É heavy metal de verdade, encorpado e bem produzido, do tipo que respeita quem cresceu ouvindo o gênero. Não se trata de um fundo musical genérico só para preencher o silêncio: cada faixa tem peso, intenção e uma pegada que combina com a brutalidade do jogo.

O cuidado com a produção fica evidente na forma como a música dialoga com a ação. Os riffs acompanham o ritmo dos combates, os solos ganham espaço nos momentos certos e a bateria dita a intensidade de cada enfrentamento. 

É um trabalho que mostra intenção artística clara, e não apenas competência técnica. A trilha não está ali para servir de pano de fundo: ela participa, provoca e eleva a experiência, dando personalidade ao jogo de um jeito que poucos títulos conseguem alcançar.


Confesso que falhei várias vezes porque estava mais preso ao solo de guitarra do que à ação na tela. Poucos jogos conseguem me tirar do foco desse jeito, e isso é um elogio dos grandes. Como toco contrabaixo, ter uma trilha tão pesada e com impacto contribui demais para a atmosfera pretendida pelos desenvolvedores.
 
Quando a trilha sonora se torna motivo de distração pela própria qualidade, fica claro que os responsáveis acertaram em cheio. Grim Trials entrega uma experiência sonora que sozinha já justificaria a atenção de qualquer amante de heavy metal.

O indie de um indie

É impossível encarar Grim Trials sem que Hades venha à mente quase de imediato. A semelhança começa pelos olhos: a estética 2D, a paleta de cores, o desenho das salas e até o jeito como os inimigos ocupam a tela conversam diretamente com sua inspiração. Grim Trials não faz o menor esforço para disfarçar de onde tirou a receita e, para ser justo, essa honestidade tem certo charme. 

O problema é que ficar tão perto de um dos maiores nomes do gênero é uma faca de dois gumes: a comparação é inevitável, e o acabamento não sustenta o mesmo nível. Faltam o polimento nas animações, a densidade artística e aquele capricho obsessivo em cada detalhe que fazem Hades parecer uma obra muito acima da média para um indie.


Daí a piada que carrego na cabeça o tempo todo: se Hades já é um indie, Grim Trials é o "indie do indie". Não digo isso com desdém, e sim como uma leitura de contexto. Dá para sentir, em vários cantos, que a produção trabalhou com um orçamento bem mais enxuto, e boa parte das limitações técnicas e visuais provavelmente nasce daí, não de falta de vontade. 

Uma vez que você ajusta a régua para o tamanho real do projeto, fica mais fácil apreciar o que está na tela pelo que ele é: uma homenagem a uma fórmula consagrada, feita por um time claramente menor, e não uma tentativa fracassada de bater de frente com o mestre.

A alma que emperra na travessia

Aqui mora o senão mais sério, e ele bateu no lugar onde dói: o desempenho. Em um jogo em que a precisão é importantíssima, não podemos ter esse tipo de cenário, ainda mais rodando no Switch 2.

O primeiro contato também assusta à toa. A tela de carregamento inicial não mostra nenhuma informação, e a impressão é de travamento puro. Cheguei a reiniciar o aparelho achando que tinha bugado; na segunda vez, esperei mais um pouco, e os logos finalmente apareceram.


Já que falamos em espera, as telas de entrada e saída da arena de prática e desafios são um tanto lentas. Se você sai por engano, é chatinho voltar pelo loop de carregamentos.

Vale o mergulho no pós-vida?

Grim Trials é um roguelike que sabe o que quer ser, mesmo escancarando de quem puxou a inspiração. A jogabilidade frenética, a variedade de inimigos e armas e, principalmente, uma trilha de metal eletrizante seguram a experiência para cima. Do outro lado da balança estão o grinding refém do RNG, os travamentos de frame que aparecem até no hardware mais forte e as pequenas frustrações de navegação.


Entrei com quase nenhuma bagagem no gênero e saí querendo mais: foi Grim Trials que me mostrou que eu curto esse estilo de jogabilidade acelerada e dificuldade média-alta. Não é um jogo redondo: os tropeços técnicos e de progressão evitam que ele voe mais alto, mas foi uma jornada que me prendeu de verdade.

Prós

  • Combate frenético e agressivo, com armas que mudam de fato o estilo de jogo; 
  • Trilha sonora de heavy metal excelente, capaz de roubar sua atenção da tela; 
  • Variedade de inimigos e salas que mantém cada run diferente; 
  • Personalização visual e builds com o minigame de forja e os bônus de conjunto; 
  • Árvore de habilidades enorme, alimentada de forma criativa pelas almas.

Contras

  • Grinding cansativo, refém de materiais aleatórios (RNG) para evoluir equipamentos; 
  • Quedas e travamentos de frame in-game, mesmo no Switch 2; 
  • Tela de carregamento inicial sem qualquer informação, passando ideia de travamento; 
  • Carregamentos lentos ao entrar e sair de telas específicas, como a de desafios; 
  • Fica no rastro de Hades sem alcançar o mesmo acabamento.
Grim Trials — PC/XBOX/PS5/Switch — Nota: 7.5 
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Soft Source
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Victor Hugo Carreta
Fã de carteirinha da franquia Pokémon desde os oito anos de idade, teve seu primeiro contato com os monstrinhos de bolso no Game Boy Color e de lá para cá, são mais de 25 anos de alegria. Fanático por vídeo-games, gostaria de poder jogar mais tempo do que trabalha.
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