Civilization: o início do clássico que transformou história em estratégia no SNES

Entre avanços tecnológicos, guerras e decisões, o clássico de Sid Meier transformou o Super Nintendo em palco para uma divertida aula de história.

em 25/08/2026

Se existe uma coisa capaz de transformar uma simples partida de videogame em uma madrugada inteira acordada, ela se chama Sid Meier's Civilization. Em uma época na qual o gênero estratégia ainda era algo muito recente, Sid Meier e sua equipe já haviam encontrado uma fórmula capaz de misturar exploração, diplomacia, guerra, economia, ciência e administração em uma experiência extremamente prazerosa.

Lançado originalmente para computadores em 1991, Sid Meier's Civilization chegou ao Super Nintendo alguns anos depois. No Japão, a versão para o console foi lançada em 1994, enquanto a edição norte-americana chegou em novembro de 1995, publicada pela Koei. A adaptação ficou a cargo da Asmik Ace Entertainment e, apesar das limitações naturais de levar um jogo tão complexo para um console, a experiência foi praticamente toda transportada para o cartucho.

Trata-se de um título que não precisava de gráficos mirabolantes, dezenas de personagens ou uma história cinematográfica para prender o jogador. Bastava uma pequena área de terra, um colono e a promessa de que, talvez, aquela civilização pudesse dominar o mundo e resistir ao teste do tempo.

O início de uma história que é sempre diferente

A partida começa em 4000 a.C. com uma unidade de colono e um guerreiro. Sim, parece pouco, muito pouco. Mas basta fundar a primeira cidade para percebermos que aqueles dois personagens iniciais, sem nomes ou poderes extraordinários, darão início a um império.
O início é voltado para exploração do mapa e expansão territorial

A partir daí, começa uma verdadeira aula de administração. É preciso expandir seu território, decidindo onde é estratégico construir cidades, quais tecnologias pesquisar, quais unidades produzir, como utilizar os terrenos próximos aos assentamentos e, principalmente, como lidar com as civilizações vizinhas.

O mais interessante é que Civilization nunca nos diz exatamente como jogar. Podemos investir em ciência, construir um poderoso exército, estabelecer relações diplomáticas ou simplesmente tentar expandir nosso território o máximo possível. A vitória pode vir de diferentes maneiras, incluindo a conquista dos adversários ou o desenvolvimento necessário para enviar uma nave até Alpha Centauri.

Essa liberdade era uma das grandes inovações do jogo. Em uma época na qual muitos títulos tinham objetivos bastante claros e lineares, o game apresentava um enorme sistema de possibilidades e deixava o jogador construir sua própria história. Por isso, não é exagerado dizer que cada partida é única e conta uma história diferente.

Você pode estar tranquilamente investindo em tecnologia, mas ser surpreendido por uma guerra inesperada, o que vai exigir a realocação de prioridades para se defender. Em outra partida, o jogador pode chegar ao espaço sem jamais ter cravado espadas em nenhum adversário. Não basta dominar um único tipo de jogabilidade, pois em algum momento seus planos vão por água abaixo.

Uma aula de história disfarçada de videogame

A característica que mais chama a atenção é a forma como Civilization transforma o desenvolvimento tecnológico em parte fundamental da diversão.

Começamos na Antiguidade e, aos poucos, novas descobertas permitem construir unidades, edifícios e maravilhas cada vez mais avançados. O jogador acompanha a evolução de sua sociedade enquanto percebe como uma decisão tomada dezenas de turnos antes pode produzir consequências muito mais adiante.
Você pode ver as cidades crescendo e evoluindo conforme as eras

Essa estrutura ajudou a estabelecer uma das características mais marcantes da série: a sensação de progresso constante. Sempre existe alguma coisa nova para pesquisar, construir ou conquistar. Quando finalmente pensamos que nossa civilização está estabilizada, surge uma nova tecnologia ou uma edificação importante para seu território.

Eventualmente, vai se pegar pesquisando sobre uma ou outra maravilha mundial ou querendo saber por que descobrir a roda levou à construção de bigas na antiguidade. A evolução humana é contada de maneira muito fluida, sem uma imposição chata e de modo integrado à jogabilidade.

Estratégia acima dos gráficos

Os líderes mundiais tem estilos e prioridades distintas

Se existe um aspecto no qual Civilization não impressiona é justamente aquele que menos importa para sua proposta: os gráficos. Nunca foi parte da proposta do game trazer um visual realista, até porque a complexidade das mecânicas já eram excessivamente pesadas.

A versão de SNES utiliza uma apresentação bastante simples, baseada em pequenos sprites e mapas compostos por diferentes tipos de terreno. As unidades são pequenas e, muitas vezes, é necessário prestar atenção para identificar exatamente o que está acontecendo.

Também existem telas específicas para administrar cidades e acompanhar construções, além das apresentações de determinados acontecimentos. A parte que mais chama a atenção no quesito gráficos são as pequenas animações que apareciam ao fundar cidades, construir maravilhas ou dialogar com líderes de outras civilizações.

Mesmo com uma aparência simplista, havia um toque de mudança visual a cada estrada aberta, melhoria construída, cidade fundada ou território devastado, que modificava o mapa. Aos poucos, aquele mundo inicialmente vazio passava a carregar as marcas da civilização.

Uma trilha sonora para acompanhar séculos

A trilha sonora segue uma proposta semelhante aos gráficos. Não espere uma coleção de músicas memoráveis, porque aqui a parte audível é muito mais discreta, funcionando como pano de fundo para a experiência. Como o jogador passa boa parte do tempo lendo menus e analisando números para tomar decisões, os sons precisam colaborar para a concentração.

Ainda assim, há charme nas composições e nos temas utilizados durante a evolução das eras. A música ajuda a criar uma identidade sem tentar disputar a atenção com aquilo que realmente importa: a estratégia.

Os efeitos sonoros também são bastante simples, algo compreensível considerando as limitações da época. Não espere grandes explosões ou efeitos elaborados, porque aqui é muito mais importante ver as defesas das cidades sucumbindo do que uma espada cravada no inimigo.

Jogar no controle é outra história

Talvez o maior problema da versão de Super Nintendo esteja justamente na tentativa de adaptar uma experiência originalmente pensada para computadores. São muitos menus, comandos e informações para administrar — e o mouse faz muita falta nisso.
Os menus são a parte mais complicada de lidar com o controle do SNES

O primeiro Civilization é considerado uma experiência bastante lenta. Para mover uma unidade, por exemplo, é preciso levar o cursor até o local, selecionar com o botão, apontar a seta na direção desejada do movimento e confirmar a escolha pressionando novamente o botão. Se cansa só de ler, imagine ao jogar.

Apesar disso, não é algo que estrague a experiência de quem deseja retornar às origens de um best-seller mundial. Como no game original as partidas não eram tão demoradas como na atualidade, comandar seu império no controle do SNES é algo aceitável.

Só mais um turno...

Poucos jogos antigos representam tão bem o conceito de fator replay quanto Civilization. Isso acontece porque, como já mencionado, praticamente tudo pode mudar de uma partida para outra. O mapa pode ser diferente, a posição das cidades muda, os adversários assumem comportamentos distintos e nossas próprias decisões criam consequências inesperadas.
Resistir ao "teste do tempo" significava dominar o mundo

Além disso, é possível personalizar características do mundo, escolher o tamanho do território e definir diferentes condições para começar uma nova campanha. O resultado é uma experiência que parece ter sido construída especificamente para aquela clássica frase da franquia: "só mais um turno".

O problema é que um turno vira cinco, que viram vinte, que viram uma nova partida. E justamente essa característica, iniciada no primeiro game, jamais se perdeu ao longo dos anos.

Um clássico que merece ser lembrado

É curioso revisitar Civilization depois de tantos anos. Hoje temos versões muito mais complexas, bonitas e confortáveis da série, com sistemas altamente elaborados, adversários inteligentes, mapas enormes e possibilidades que fazem o original parecer quase rudimentar.
Embora rudimentar, o sistema de rankings ajudava a saber como o jogador estava se saindo

Mas é preciso lembrar que Sid Meier's Civilization foi o responsável por estabelecer essa linguagem. Seu maior mérito está na ideia de permitir que o jogador construa uma civilização do zero da maneira que quiser. Por isso, existe algo especial em colocar o cartucho no console e perceber que, depois de mais de três décadas, a fórmula continua funcionando.

Nem todas as histórias começam com batalhas ou revoltas: algumas simplesmente se iniciam com um colono parado no meio do nada esperando a ordem do seu líder supremo.

Revisão: Vitor Tibério
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Alveni Lisboa
Jornalista com passagens pela Revista Nintendo World e site Canaltech. Atua com jornalismo de games desde 2009, época em que escrever sobre videogame ainda era uma ótima desculpa para passar horas jogando e chamar isso de trabalho. Fã de carteirinha desde o SNES, passei por todos os videogames da gigante nipônica até os dias atuais. Como grande conquista da vida, posso dizer que já fui ao prédio da Big N em Osaka, no Japão. Adoro a franquia The Legend of Zelda, todos os games do Mario e cozy games em geral.
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