Análise: Lies of P: Edição Completa distorce a fábula de Pinóquio para entregar um sombrio e competente soulslike

O título da NEOWIZ chega ao Switch 2 em um port indicado tanto para os fãs quanto para os novatos no gênero.

em 03/08/2026
Anunciado durante o Nintendo Direct de junho, Lies of P: Edição Completa finalmente traz a elogiada obra da desenvolvedora NEOWIZ para o Switch 2. Reunindo todo o conteúdo adicional lançado para o título, além das várias melhorias implementadas anteriormente (como as opções adicionais de dificuldade), esta é uma versão indicada tanto para quem já aprecia o gênero soulslike quanto para quem gostaria de dar os primeiros passos nesse universo, no console da Nintendo.

A revolução das máquinas

Lies of P se passa na cidade fictícia de Krat, que, ao longo dos anos, ficou conhecida como a “Cidade do Futuro”, por conta de seus avançados autômatos, capazes de se comportar e trabalhar como seres humanos. Criações do brilhante técnico Geppetto, em parceria com as indústrias Venigni, esses dispositivos passaram a atuar em diferentes segmentos da sociedade, servindo setores que iam do transporte ao entretenimento.

No entanto, um misterioso acontecimento fez com que todos os autômatos perdessem o controle e passassem a atacar os humanos. Chamado de “Frenesi dos Títeres”, o evento resultou em centenas de mortes, fazendo com que as outrora belas e pacíficas ruas de Krat se transformassem em um verdadeiro cenário de guerra.

Com as causas da rebelião ainda longe de serem identificadas e centenas de autômatos perigosíssimos à solta, o jogador desperta no papel do protagonista P, títere reconhecido como uma das obras-primas de Geppetto. Imbuído da força necessária para se movimentar livremente, ele ouve uma misteriosa voz que pede que P chegue ao Hotel Krat, um dos pontos mais famosos da cidade, para receber mais orientações. Assim tem início a jornada por esse universo violento, mas fantástico.

Um soulslike que faz jus à mítica do gênero…

Lies of P é um jogo de aventura em terceira pessoa que segue fielmente a cartilha do gênero soulslike, popularizado pela desenvolvedora FromSoftware com a trilogia Dark Souls e obras posteriores, como ELDEN RING. Na prática, isso significa que os jogadores podem esperar aqui um sistema de combate bastante metódico, confrontos épicos contra chefes agressivos e um alto nível de desafio geral, com pouquíssimo espaço para erros, mas muita margem de evolução.

Como vimos em nossa matéria prévia, a chegada da obra da NEOWIZ ao Switch 2 é importante principalmente porque ajuda a preencher a lacuna do gênero nas plataformas da Nintendo nas duas últimas décadas. Mesmo com os ocasionais lançamentos ao longo dos anos — Dark Souls Remastered e Mortal Shell chegaram ao primeiro Switch, afinal —, até hoje, era relativamente difícil montar uma lista dos melhores soulslikes nos consoles da Big N.

Felizmente, esse cenário está mudando para melhor nesta geração, com a adaptação de Lies of P precedendo as chegadas de ELDEN RING, Wo Long e, claro, do exclusivo The Duskbloods. Porém, mesmo diante desses outros lançamentos, vale a pena olhar para esta aventura com atenção, ainda que você não tenha muita experiência com o gênero.

O primeiro motivo para isso é a sua ambientação: inspirada no clássico conto de Pinóquio, a NEOWIZ criou um universo tão perturbador quanto fascinante. E, se a fábula original de Carlo Collodi levava à reflexão sobre os males e as consequências das mentiras, esta releitura convida o jogador a pensar sobre temas igualmente importantes, como a ambição desenfreada e a desigualdade social.

Não é à toa, por exemplo, que a maioria dos autômatos, proibidos de desobedecer seus donos, tenha assumido posições pouco prestigiadas na sociedade antes de sua rebelião. Junte isso aos cenários inspirados na Belle Époque, símbolo do progresso romantizado, e temos um interessante contraste que eleva a qualidade da apresentação e da narrativa.

Enquanto descobre os segredos mais profundos de Krat e das figuras centrais da história (como o próprio Geppetto), P pode inclusive optar por mentir ou falar a verdade, em uma interessante referência à obra original. Aqui, tais ações interferem nos resultados dos diálogos e também no desfecho da campanha (há três finais possíveis). Ou seja, em um gênero que não necessariamente é reconhecido por suas histórias, Lies of P consegue se sobressair visual e narrativamente, fazendo jus ao legado de sua maior inspiração.

…mas que não está isento de críticas

Dito isso, a aventura de P não está livre de problemas. Por mais que a jogabilidade, como um todo, seja prazerosa e entregue o esperado para o gênero, um problema que enxerguei foi a ênfase excessiva no “bloqueio perfeito” (defender um golpe inimigo no tempo certo impede o dano, interrompe os adversários e abre uma janela de contra-ataque). Na teoria, essa mecânica visa recompensar os jogadores que identificam padrões e agem de acordo; na prática, ela não funciona tão bem assim, com alguns ataques e movimentos tornando difícil distinguir o momento exato em que o bloqueio deve ser realizado.

Some-se a isso a pouca variedade entre os estilos de jogo oferecidos (nada de classes especializadas em magia aqui, por exemplo), e a jogabilidade me pareceu mais restritiva do que o esperado. Ao contrário dos jogos da FromSoftware, que dão liberdade ao jogador para testar diferentes abordagens contra os chefes, dependendo da classe escolhida, Lies of P parece forçar o jogador a seguir o roteiro específico de bloqueio e contra-ataque — tanto que a arma mais pesada é muito mais eficiente nas primeiras horas de jogo do que as outras duas alternativas, voltadas à esquiva e aos golpes rápidos.

Por fim, falar do desafio oferecido é sempre algo espinhoso quando tratamos de um soulslike, mas fiquei com a impressão de que Lies of P é levemente desbalanceado nesse sentido (na dificuldade normal). Os inimigos comuns são muito fáceis de derrotar para os padrões do gênero, enquanto alguns chefes apresentam saltos de dificuldade notáveis, frequentemente ostentando mais de uma barra de vida e golpes difíceis de antecipar. 

Considerando a linearidade da experiência, o foco na defesa perfeita e a ausência de um modo multiplayer (nada de convocar outros jogadores para ajudar), não foi incomum ficar preso em alguns segmentos da campanha. Pelo menos, a inclusão das opções adicionais de dificuldade ajuda a garantir que todos os jogadores consigam chegar ao final da história, mesmo aqueles que não têm muita familiaridade com o gênero.

Um espetáculo que foi preservado no Switch 2

Voltando aos pontos positivos, Lies of P preserva seu espetáculo audiovisual no Switch 2, com três opções de renderização quando o console está conectado à TV e duas quando está fora da dock.

Na televisão, é possível priorizar o desempenho, atingindo 60 quadros por segundo, ou os visuais, limitando a experiência a 30 fps (o modo balanceado é o meio-termo entre os dois). Após testar as três opções, acabei preferindo jogar na TV no modo focado na qualidade — apesar dos 30 quadros por segundo, os belos visuais me cativaram; posso afirmar, sem exagero, que Lies of P, nesse modo, é um dos jogos mais belos do Switch 2.

Já no modo portátil, achei que a opção focada no desempenho se saiu melhor. De toda forma, a qualidade da experiência se manteve em todas as modalidades, e há aqui mais uma prova de que o novo console da Nintendo é capaz de receber experiências multiplataforma de grande porte sem compromissos notáveis de qualidade. 

O port para o Switch 2 também inclui todo o conteúdo adicional lançado anteriormente para o título. Na prática, portanto, os fãs nintendistas ganham acesso ao elogiado DLC Overture sem precisar adquiri-lo separadamente, além do sistema de revanche contra chefes e das já citadas opções adicionais de dificuldade. Como o título conta com legendas e menus em PT-BR, temos, portanto, uma ótima forma de conhecer a obra da NEOWIZ e também de se familiarizar com os soulslikes.

Uma fábula sombria que se adapta bem ao console da Nintendo

Lies of P: Edição Completa chega ao Switch 2 com um port competente, indicado tanto para os veteranos quanto para quem deseja conhecer o gênero soulslike mais a fundo. O fato de nem mesmo pequenos deslizes em aspectos como o balanceamento impedirem uma recomendação é um testemunho da qualidade dessa distorcida fábula moderna. Então, levante-se, Pinóquio: é tempo de descobrir o seu papel na revolução das máquinas que tomou conta de Krat e, agora, também do console da Nintendo.

Prós

  • Fazendo jus à obra de Carlo Collodi, entrega uma narrativa interessante, que se molda às escolhas do jogador entre falar a verdade ou mentir;
  • Os visuais inspirados na Belle Époque são um grande diferencial, entregando um verdadeiro espetáculo cinematográfico no Switch 2;
  • A inclusão de diferentes níveis de dificuldade torna esta uma boa porta de entrada para quem quer conhecer melhor o gênero soulslike sem ficar frustrado no processo;
  • Com várias opções gráficas e a inclusão do DLC Overture, consagra-se como um dos bons ports recentes para a plataforma da Nintendo;
  • Localizado em PT-BR.

Contras

  • A mecânica de bloqueio perfeito não funciona tão bem na prática, levando a situações de tentativa e erro com mais frequência do que o necessário;
  • O contraste entre a dificuldade dos inimigos comuns e alguns chefes levanta dúvidas sobre o equilíbrio da dificuldade no modo padrão;
  • Poderia contar com multiplayer cooperativo, assim como outros jogos do gênero.
Lies of P: Edição Completa — PC/Switch 2/PS5/XSX — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela NEOWIZ
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Alan Murilo
é publicitário e copywriter que aprecia um bom jogo tanto quanto um bom café. Gamer desde que segurou um controle de Super Nintendo pela primeira vez, tem um apreço especial pelos títulos independentes e pelas diversas franquias da Big N.
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