Mario Kart World: O mundo aberto é realmente vazio?

Recompensas pouco impactantes podem fazer o mundo parecer vazio, mas será que não estamos explorando o jogo da forma errada?

em 20/08/2026
Mario Kart World trouxe um mundo aberto que divide opiniões entre os jogadores. Mas será que a falta de recompensas mais significativas torna sua exploração realmente vazia ou estamos esperando do jogo algo que ele nunca se propôs a oferecer?

O peso de Mario Kart World

Eu adquiri o meu Nintendo Switch 2 no lançamento, mais precisamente na pré-venda, e assim que ele chegou fui logo testar o primeiro grande jogo dessa nova geração da Nintendo: Mario Kart World.

Por aí já dá para notar o peso que o jogo carrega. Ele não é apenas o título de estreia do sucessor do estrondoso Nintendo Switch, mas também o responsável por dar continuidade a uma das franquias de maior sucesso da empresa.

Mario Kart 8, lançado em 2014 para o Wii U e posteriormente relançado em sua versão Deluxe para o Nintendo Switch em 2017, foi um verdadeiro fenômeno de vendas, tornando-se o jogo mais vendido de toda a franquia. O sucesso foi tamanho que, mesmo carregando o nome "Deluxe", o título ainda recebeu o Booster Course Pass, uma expansão que dobrou a quantidade de pistas disponíveis.

Até o dia em que joguei Mario Kart World pela primeira vez, Mario Kart 8 Deluxe ainda marcava presença semanalmente no meu Switch, seja em partidas com meus irmãos e amigos ou no modo online, que continua surpreendentemente ativo até hoje.

Visto o sucesso do seu antecessor, não é difícil entender por que a Nintendo escolheu Mario Kart para inaugurar o Switch 2. Mas expectativas muito altas costumam ser uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que ajudam a construir o hype, também aumentam as chances de frustração, principalmente quando o público cria uma ideia diferente daquela que os desenvolvedores pretendiam entregar.

E acredito que foi exatamente isso que aconteceu com Mario Kart World. Desde o lançamento, uma das críticas mais recorrentes ao jogo é que seu mundo aberto parece vazio e oferece poucas recompensas para quem decide explorá-lo. Mas será que esse é realmente um problema de design? Ou será que estamos olhando para Mario Kart World esperando encontrar um Breath of the Wild sobre quatro rodas?

Um mundo construído para conectar as pistas

O "World" presente no título parece justamente reforçar a principal proposta do jogo: criar um mundo em que todas as pistas estejam conectadas. Essa decisão não influencia apenas a exploração livre, mas toda a estrutura das corridas.

Tanto que o modo principal já começa com uma mudança significativa. Agora, as copas não são mais divididas em quatro corridas independentes de três voltas cada. Você disputa a primeira pista da forma tradicional, mas as três seguintes acontecem de forma contínua, sem telas de carregamento separando uma da outra. Em vez disso, você percorre as estradas que ligam cada circuito, reforçando a sensação de que todas aquelas pistas fazem parte de um único mundo.

Dá para sentir que um dos objetivos da Nintendo aqui também era mostrar a potência do novo console. Este é o primeiro jogo da franquia a reunir 24 pilotos simultaneamente, mantendo um desempenho bastante consistente e um salto visual perceptível em relação ao antecessor, mesmo adotando uma direção de arte mais cartunesca.

Tudo isso acontece sem interrupções entre uma pista e outra, algo que dificilmente seria possível no hardware do Switch original. Essa integração entre todas as áreas do mapa é justamente uma das características que mais ajudam a justificar sua exclusividade no Switch 2.

Mas o “World" não se limita aos modos tradicionais de corrida. Pela primeira vez na franquia existe um modo dedicado à exploração livre desse mundo, sem a correria e o caos das competições. Aqui é possível dirigir sem pressa, observar os detalhes dos cenários e cumprir pequenos desafios espalhados pelo mapa, seja coletando moedas douradas da Princesa Peach, fazendo uma caça aos totens com o símbolo de caixa de interrogação, que muitas vezes ficam bem escondidos nos cenários, ou completando as chamadas Missões P-Switch.

Embora existam centenas delas, 394, para ser mais específico, elas seguem algumas ideias principais. Há desafios focados em velocidade, que exigem atravessar portais antes que o tempo acabe ou desviar de obstáculos em alta velocidade; desafios de plataforma, com saltos de longa distância, uso do paraquedas e escaladas utilizando cogumelos turbo; desafios de exploração e coleta de moedas; além de desafios de sobrevivência, colocando o jogador para desviar de hordas de inimigos do universo Mario.

Quando explorar não significa ganhar algo

O grande problema, talvez, esteja na recompensa desses desafios. Vários jogadores reclamam que esse modo de exploração do mundo não traz atualizações significativas para os outros modos do jogo, principalmente para as corridas. Embora completar alguns desses desafios seja requisito para liberar o saudoso Mirror Mode, a maioria das recompensas se resume a adesivos que podem ser usados para customizar os carros, mas até mesmo essa customização pode passar despercebida. Na atualização mais recente do jogo, a 1.7.0, a Nintendo até trouxe mais uma utilidade para eles, permitindo que os adesivos fossem utilizados também na personalização do modo foto. Fora isso, de fato, as recompensas pouco impactam diretamente a jogabilidade.

Até mesmo o desbloqueio das skins dos personagens, que poderia servir como incentivo para explorar o mundo, também pode ser realizado durante as corridas do modo principal. A diferença é que, enquanto nas corridas você depende da ordem em que visita cada pista e do item de comida disponível em cada uma delas, no mundo aberto existe a liberdade de ir diretamente até a região desejada e repetir o processo quantas vezes quiser, sem a pressão da corrida ou do cronômetro.

Talvez seja justamente aí que esteja a origem de toda essa discussão. Nos últimos anos, os jogos de mundo aberto passaram a ensinar os jogadores que explorar quase sempre precisa resultar em algum tipo de recompensa concreta. Encontrar um equipamento raro, desbloquear uma habilidade, descobrir um colecionável ou iniciar uma missão inesperada tornou-se parte da própria linguagem do gênero. Não existe nada de errado nisso. Pelo contrário: alguns dos melhores jogos da última década foram construídos exatamente sobre essa filosofia.

The Legend of Zelda: Breath of the Wild provavelmente é o maior exemplo dessa ideia. A Nintendo conseguiu transformar a curiosidade do jogador em um dos pilares da experiência. Ao avistar uma montanha no horizonte, é natural sentir vontade de escalá-la, porque o jogo constantemente recompensa esse comportamento. No topo pode existir um santuário, um Korok escondido, um equipamento raro ou até o início de uma nova aventura. Depois de algumas horas, o próprio jogador aprende que quase toda exploração será recompensada de alguma forma.

Mario Kart World, por outro lado, parece seguir um caminho diferente. Existem desafios espalhados pelo mapa, moedas para coletar, totens escondidos, skins para desbloquear e as Missões P-Switch. Mas a sensação é de que nenhuma dessas atividades representa o verdadeiro motivo para explorar aquele mundo.

Você sobe uma montanha e encontra uma bela vista. Talvez uma moeda. Talvez uma Missão P-Switch. Talvez absolutamente nada. E isso pode soar frustrante para quem espera que toda exploração resulte em uma recompensa tangível. Mas talvez a proposta nunca tenha sido essa. Aqui, a diversão parece estar justamente no percurso, em dirigir sem pressa, experimentar caminhos diferentes e observar um mundo que foi construído para conectar as corridas, não necessariamente para premiar cada passo do jogador.

Essa filosofia aparece até mesmo nos pequenos detalhes. Em alguns desafios espalhados pelo mapa, por exemplo, os trajetos recriam versões ampliadas de circuitos clássicos do primeiro Super Mario Kart, lançado para o SNES em 1992. Ghost Valley, Choco Island e outras pistas deixam de existir apenas como fases isoladas e passam a fazer parte do próprio mundo de Mario Kart World. Não há um aviso na tela dizendo que você acabou de encontrar uma referência histórica, nem um item especial por isso. A recompensa está justamente em reconhecer esses lugares e perceber como a Nintendo incorporou parte da história da franquia à exploração do mapa.

E se a viagem for a recompensa?

De fato, concordo que o mundo aberto de Mario Kart World poderia oferecer mais. Novas atividades, recompensas com impacto mais direto na jogabilidade e uma integração maior entre a exploração e os demais modos seriam adições muito bem-vindas. A própria Nintendo parece reconhecer que ainda há espaço para expandir essa experiência. A atualização 1.7.0, por exemplo, trouxe uma nova copa formada por combinações inéditas de pistas, reforçando justamente uma das maiores qualidades do jogo: a possibilidade de transformar um mapa interligado em novas formas de jogar.

É bem provável que esse mundo continue crescendo nos próximos meses e anos, seja com novos desafios, roupas, áreas ou outras atividades que deem ainda mais sentido à exploração. Mas, independentemente do que vier no futuro, talvez a principal discussão em torno de Mario Kart World já revele algo interessante sobre nós, jogadores.

Nós nos acostumamos tanto a associar exploração a recompensas constantes que, às vezes, esquecemos que explorar também pode ser um fim em si mesmo. Em Mario Kart World, dirigir sem destino, descobrir um atalho, reconhecer uma referência de alguma pista antiga ou simplesmente atravessar as estradas que unem décadas de história da franquia também fazem parte da experiência. Nem toda recompensa precisa aparecer na tela em forma de item, habilidade ou colecionável.

Isso não significa que Mario Kart World seja um mundo “aberto” perfeito. Ainda existe espaço para evoluir, e acredito que a Nintendo fará isso ao longo do ciclo de vida do jogo. Mas talvez o maior erro seja classificá-lo como um mundo vazio apenas porque ele se recusa a seguir a mesma cartilha que outros mundos abertos popularizaram.

No fim das contas, a pergunta talvez nunca tenha sido se Mario Kart World é um mundo “aberto” vazio. A pergunta certa é se estamos dispostos a explorar um mundo cuja maior recompensa, muitas vezes, é a própria viagem.

Revisão: Vitor Tibério
Siga o Blast nas Redes Sociais
Arthur Pains
Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 4.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.
Este texto não representa a opinião do Nintendo Blast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).