Apesar de sua distância geográfica, a Nintendo e a LEGO possuem muitas semelhanças: ambas são empresas tradicionais, famosas por seu perfeccionismo, com produtos direcionados a crianças e adultos e, historicamente, conservadoras com licenciamento.
Por décadas, a LEGO evitou licenciar propriedade intelectual de terceiros. Sua primeira grande coleção licenciada foi Star Wars, no final dos anos 90, e em seguida Harry Potter, no começo dos anos 2000. A mudança de postura foi providencial, ajudando a resgatar a gigante de uma quase falência no início dos anos 2000.
A parceria decisiva entre Star Wars e LEGO
Nas palavras de Peter Eio, ex-presidente da divisão americana da LEGO, licenciamento era uma palavra estrangeira para a empresa autodescrita como “purista” antes de Star Wars. Havia resistência interna por parte da direção, que temia uma reação negativa dos consumidores, e uma dificuldade operacional gigantesca de lidar com um processo de produção e revisão inédito, envolvendo um licenciante. Fuso horário, necessidade de revisão com terceiros e comunicação eram apenas algumas das dificuldades do processo.
Depois de seis semanas de negociação, a parceria foi finalmente oficializada em abril de 1998. A LEGO então trabalhou intensamente para lançar a primeira coleção de brinquedos junto com o lançamento de Star Wars: Episódio I, desenvolvendo a primeira leva de produtos em aproximadamente um ano, metade do tempo de desenvolvimento usual da empresa. O esforço rendeu frutos: o lançamento foi um sucesso, com as vendas do primeiro ano superando em 500% as metas internas.
Com o sucesso de Star Wars, a resistência interna derreteu. Abriram-se as portas para negociações paralelas com outros grandes estúdios, como Disney e Warner. Harry Potter chegou dois anos depois, em 2001, repetindo com Harry Potter e a Pedra Filosofal a mesma estratégia de lançamento sincronizado com o filme adotada em Star Wars.
Por que, então, mesmo com esses sucessos, os primeiros LEGO da Nintendo viriam apenas em 2020? Tal qual a LEGO, a Nintendo possui um histórico conservador quanto a parcerias, mantendo sempre uma postura extremamente cautelosa quanto ao licenciamento de seus personagens, especialmente quando envolve produtos físicos de terceiros. Havia mais um complicador: as empresas já haviam competido diretamente e até discutido no âmbito judicial.
Nintendo e LEGO: de rivais a parceiros
Em 1968, a Nintendo lançou uma linha de blocos de encaixe chamada N&B Block, ou Nintendo Block. A linha de brinquedos foi idealizada como concorrente direta da LEGO, que já vendia seus sets no Japão desde 1962.
Na tentativa de fugir das patentes da LEGO, a Nintendo tomou algumas decisões estratégicas. Projetou seus blocos com uma série de meios tubos conectados na parte inferior dos blocos, e incorporou formas mais arredondadas dos presentes nos blocos LEGO da época. Optou, também, por utilizar um plástico de qualidade inferior e comercializar seus brinquedos por preços mais baixos.
Como esperado, a LEGO processou a Nintendo, alegando violação de patente. A aposta da Nintendo vingou, com os tribunais entendendo que os meios tubos inferiores dos Nintendo Blocks eram suficientemente distintos das patentes da LEGO. Mesmo assim, a linha de brinquedos teve vida curta, encerrando sua produção em 1972 sem motivo declarado.
Em 2020, as duas gigantes arquitetaram um produto-teste: uma coleção temática do Super Mario, composta por uma figura interativa do Mario, completa com tela e alto-falante, e uma série de níveis físicos, simulando os games clássicos, composta por Legos. De acordo com a própria LEGO, "nem videogame, nem set tradicional de blocos lego". A ideia era realmente lançar um produto teste, atípico, para sentir o mercado.
As primeiras conversas formais entre Nintendo e a LEGO começaram em 2015, quando a própria cúpula da Nintendo procurou a LEGO para propor uma colaboração. Foram necessários anos de prototipagem e testes conjuntos entre as equipes até o primeiro produto chegar às prateleiras.
Super Mario abre as portas
Em 2020, as duas gigantes arquitetaram um teste: uma coleção temática do Super Mario, composta por uma figura interativa do Mario, completa, com tela e alto-falante, e uma série de níveis físicos, simulando os games clássicos, composta por LEGO. De acordo com a própria LEGO, “nem videogame, nem set tradicional de blocos lego”. A ideia era realmente lançar um produto teste, atípico, para sentir o mercado.
Não foi fácil. De acordo com Jonathan Bennink, líder de design digital do projeto, o desenvolvimento durou aproximadamente quatro anos e envolveu múltiplas reuniões entre as empresas, famosas pelo seu perfeccionismo, o que deve ter contribuído para uma excelente, e talvez demorada, relação de trabalho.
O projeto foi um sucesso, resultando em parcerias contínuas desde então. Um set 1:1 do NES (Nintendo Entertainment System) no mesmo ano, Animal Crossing e The Legend of Zelda em 2024 e, finalmente, Pokémon em 2026.
A demora extra de Pokémon
Este último teve dois complicadores adicionais. Juridicamente falando, Pokémon não é uma propriedade exclusiva da Nintendo. A marca é administrada pela The Pokémon Company, joint venture entre Nintendo, Creatures Inc., e Game Freak. Ou seja, a decisão não cabia apenas à Nintendo.
A Pokémon Company, por sua vez, já havia realizado dois testes na categoria de blocos de montar: um no início dos anos 2000, com apenas três sets, produzido pela Mega Bloks, e outro entre 2017 e 2025, com a Mattel, que se expandiu para mais de 130 Pokémon diferentes ao longo de quase nove anos.
Ou seja, já havia um contrato existente regulando a produção blocos de montar e, por motivos não divulgados, a Pokémon Company preferiu não romper o contrato com a Mattel mesmo após estar em tratativas para produzir a linha Pokémon.
Ou seja, já havia um contrato existente regulando a produção blocos de montar e, por motivos não divulgados, a Pokémon Company preferiu não romper o contrato com a Mattel mesmo após estar em tratativas para produzir a linha Pokémon.
A parceria LEGO-Pokémon foi anunciada oficialmente em 18 de março de 2025, nove meses antes do vencimento formal do contrato da Mattel, em dezembro de 2025, com o primeiro lançamento de produto ocorrendo somente em 27 de fevereiro de 2026.
Cultura interna, atenção com licenciamento e contratos anteriores, portanto, contribuíram com pesos variados para a demora de produção de personagens icônicos da Nintendo.
De acordo com relatos de indústria e declarações dadas pelas empresas, a parceria vem prosperando e possui um planejamento de múltiplos anos. Demorou para chegar, mas parece que os LEGO da Nintendo não vão mais parar.
Revisão: Cristiane Amarante
Referências: LEGO.com, The Brothers Brick (1),The Brothers Brick (2), Brick Fanatics, Bulbapedia, Brickzfanzs, Design Rush, DFC Dossier, Jay´s Brick Blog, Brick Fanz, Eurogamer, Hobbydb, Brick Nerd, Mario Wiki, Nintendo Fandom








