Prepare seus artefatos de viagem do tempo, coloque seus óculos e venha comigo, vamos dar uma volta nessa aventura doida.
O Caçador de Velhinhas
23 de maio de 1993. Em um belo dia, uma velha abandonada em um asilo, a Lady from the Past, saiu para fazer duas coisas: lavar suas ceroulas e dominar o mundo. Usando meios paranóicos, ela realiza lavagem cerebral no mundo todo, criando uma distopia com seu culto, Present. Porém, nem tudo está perdido: Professor Nakamrua, um cientista genial, conseguiu sobreviver em seu bunker e decide fazer alguma coisa, mesmo que isso leve 30 anos.Usando seu conhecimento, ele constrói um robô consciente, modelado a partir do herói super popular Future Knight (de quem a Lady from the Last era uma grande fã e sempre assistia no mesmo canal, mesmo quando a TV quebrou). Remodelando o tumor benigno que crescia em sua barriga, ele extirpa a massa de carne, dá vida e consciência à criatura, chamando-a de Two More. Trabalhando e vivendo juntos, a dupla consegue viajar no tempo até o dia do Apocalipse, precisamente oito horas antes de a Senhora do Passado lobotomizar a humanidade, precisando agora enfrentar as hordas de Present, chegar à torre da velha e salvar o mundo.
Fuga do Século 23 (digo, 20)
Em suma, a história de Future Knight é absurda, dadaísta e absolutamente doida, criando um charme único para o jogo — digno daqueles jogos japoneses antigos, como Mr. Mosquito e Muscle March. O universo é simples e direto ao ponto, com a loucura suficiente para criar um objetivo envolvente: impedir a força geriátrica maligna. Tudo isso é potencializado pela fenomenal apresentação que emula o cristal líquido, criando um mundo rústico e extremamente expressivo, com inimigos malucos, animações fluidas nos impactos e travadas para emular o estilo retrô, o melhor suco absurdista que vi em um jogo indie desde Arzette.O time de desenvolvimento se baseou na obra Satoshi Kon, criador de filmes como Paprika, Paranoia Agent e Perfect Blue. Também é possível perceber uma grande influência do icônico Akira, tanto pela natureza retrô cyberpunk quanto pelos golpes asquerosamente bem animados dos inimigos e do próprio Future Knight. Essa estranheza toda respinga na trilha sonora, praticamente feita inteiramente no estilo a capella e de alta qualidade, sob a batuta do compositor Salvinsky.
O jogo peca, no entanto, na localização. Existe a opção em português, o que é sempre bem-vindo, mas a tradução está bastante amadora, com erros de português e uma mistura de dialetos: português brasileiro e lusitano (verbalização em certas palavras em brasileiro e certas localizações no lusitano, escancarado com “A Carregar”). Além disso, não há consistência sobre quando traduzir ou não (não foi erro quando chamei a velha anteriormente por dois nomes; isso acontece no jogo).
O Exterminador do Futuro do Pretérito
Funcionando como uma mistura peculiar de run ‘n gun e plataforma, Future Knight opera de forma simples: controlando o protagonista homônimo, podemos correr, pular, agachar, rolar para esquivar e se pendurar em grades. No controle de Two More, a pequena criatura consegue correr mais rápido, se esgueirar por espaços menores e se grudar nas paredes.Equipado com uma pistola que pode ser mirada em seis direções diferentes, o robô é capaz de destruir inimigos com poucos tiros, aplicar uma coronhada se estiver perto o bastante e ainda atacar com um limitado, mas poderoso, ataque corpo a corpo, aumentando sua cabeça e dando uma grande mordida. Enquanto isso, o tumor possui um tiro mais veloz e forte, além de uma poderosa investida que, ao conectar-se com o Future Knight, cria uma enorme massa de poder capaz de erradicar inimigos rapidamente. Os ataques de Two More, no entanto, são limitados e não se regeneram com o tempo, diferentemente do robô, precisando retornar ao corpo principal para fazê-lo.
No começo, todos esses movimentos podem parecer complicados e difíceis de executar, mas a sinergia natural dos protagonistas ao longo do jogo faz tudo parecer natural com o tempo, criando uma satisfação prazerosa ao destruir os inimigos de forma rápida e eficaz entre tiros e investidas. A sinergia é crucial para a sobrevivência no jogo, uma vez que Future Knight possui apenas três barras de vida e Two More, apenas uma. Future Knight se regenera quando o tumor for ejetado e, se a situação se tornar crítica para o pequeno ser, é possível invocar o robô instantaneamente. Quase todos os comandos respondem muito bem, com exceção do rolamento (que às vezes a invencibilidade não funciona propriamente) e da mira quando se está pendurado (admito que cai em buracos diversas vezes ao tentar mirar para baixo enquanto estava em uma grade).
No Mundo de 1993
O jogo é dividido em oito áreas, cada uma com três atos, sendo o terceiro que contém um chefão a ser vencido. As fases são curtas e diferentes o bastante para criar uma variedade legal e não repetitiva de desafios. Para prosseguir, é preciso destruir as hordas de inimigos doidos que povoam as áreas e se encaixam em sua premissa: no jardim de infância da juventude da Present, há crianças grotescas e explosivas com professoras malucas; no pátio de construção, trabalhadores marrentos se pendurando nos andaimes; no escritório, office boys ansiosos e funcionários irritados, e por aí vai.O jogo funciona muito bem, na maior parte do tempo, ao entregar a promessa da mistura dos gêneros, com poucos momentos frustrantes de plataforma para conseguir pegar os coletáveis (três triângulos por nível, cruciais para prosseguir). O problema jaz em partes pontuais do progresso, nas quais fiquei travado em certos lugares por ter dado uma investida errada ou não conseguir invocar o Future Knight, gerando softlock irritantes que eu precisei fechar e reabrir o jogo para continuar jogando. Pelo menos o tempo de carregamento é relativamente rápido para reiniciar, e não houve engasgos na performance.
Outro fator meio decepcionante jaz na sensação de progresso, onde moedas só servem para comprar carcaças diferentes para as bordas da tela do jogo. Muito legais e bem decoradas, mas é desapontador perceber que não é possível melhorar nossos personagens. Somos forçados a manter medidores de vida e poder ridiculamente baixos pelo jogo todo, o que se torna frustrante, especialmente em algumas partes intermediárias, nas quais é necessário realizar um salto perfeito para seguir adiante. Essa falta de progresso pode tornar o jogo repetitivo e o fluxo de gameplay bem vazio, pela ausência de um propósito maior além de derrotar a velha, sem a menor expectativa de progresso dos nossos heróis.
THX 1138
Future Knight é um jogo ousado e divertido, simples e criativo. Sua apresentação é impecável, e a proposta mista de jogabilidade funciona muito bem, mas sua simplicidade tem espaço para aprimoramento, seja em questões técnicas específicas (como a tradução malfeita e os momentos frustrantes na jogabilidade) ou no aprimoramento dos protagonistas.É uma aventura que se solidifica por sua bela aparência, com potencial para salvar o mundo de uma velha e suas ceroulas limpinhas, mas que também precisa de alguns reparos urgentes em seu hardware.
Prós
- Proposta criativa e muito bem executada ao capturar o charme dos jogos em tela de cristal líquido;
- Universo maluco e charmoso;
- Boa variedade de níveis, diferentes e com duração curta, mas efetiva;
- Excelente trilha sonora em a capella;
- Comandos funcionam bem e apresentam performance de alta qualidade.
Contras
- Tradução mal feita para o português brasileiro;
- Certos momentos de plataforma podem ser mais frustrantes do que desafiadores;
- Ausência de aprimoramentos deixa sensação de progresso nula.
Future Knight — PC/PS5/XSX/Switch — Nota: 7.5Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Marcela Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Aeternum Game Studios