A premissa de A Investigação Póstuma é um tanto quanto curiosa. O protagonista passa a história inteira tentando descobrir como uma pessoa morreu, enquanto nós, do outro lado da tela, fazemos algo parecido: tentamos entender por que um jogo brasileiro tão peculiar consegue funcionar tão bem.
Como o próprio nome da obra sugere, a história começa após uma morte. No jogo, o protagonista é um detetive contratado pelo próprio Brás Cubas para investigar seu assassinato. Sim, o seu cliente já morreu, mas deixou você incumbido da missão que guia a jornada.
Desenvolvido pela Mother Gaia Studio, o título mistura point-and-click e investigação em uma versão noir do Rio de Janeiro de 1937. A inspiração vem diretamente do Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que narra a trajetória irônica, fútil e egoísta de um homem rico do século XIX que escreve suas memórias após já estar morto. Mas, para nossa diversão, o game não tenta simplesmente transpor o livro para o videogame.
O cliente está morto
Preso em um loop temporal, o jogador precisa investigar o mesmo dia repetidamente, acompanhando os horários de 14 suspeitos, descobrindo seus relacionamentos, localizando evidências e interferindo em suas rotinas. O conhecimento adquirido permanece entre os ciclos, permitindo acessar novas conversas e desbloquear possibilidades a cada tentativa.
É uma estrutura que poderia facilmente se tornar cansativa se não houvesse uma narrativa sólida por trás. Felizmente, A Investigação Póstuma entende que a graça está justamente em fazer cada repetição significar alguma coisa.
Ao descobrir que determinado personagem estará em um lugar específico naquele horário, o jogador pode planejar a próxima rodada para interceptá-lo. Assim, uma informação aparentemente inútil pode se transformar em uma peça importante várias horas depois.
Jogo não pega na sua mão
Não espere um tutorial longo ou uma curva de aprendizado cuidadosamente preparada. O game coloca o detetive no olho do furacão, em meio ao tumulto causado pela morte de Brás Cubas, e deixa que o jogador descubra o que aconteceu por meio das interações com o cenário e com os personagens.
É preciso conversar, observar, testar possibilidades e conectar informações. O Quadro de Investigação ajuda a organizar evidências e estabelecer relações, mas a lógica por trás das conclusões continua sendo responsabilidade do jogador — com uma ajudinha do espírito falecido de Brás Cubas, diga-se de passagem.
| Diálogos liberam novas interações e personagens |
A estrutura também permite experimentar na base da tentativa e erro. Uma escolha aparentemente errada pode revelar informações úteis em outro ciclo. Se você decidir não abrir mão do éclair de chocolate que pegou na cafeteria nesta rodada, provavelmente vai querer fazer isso na próxima.
Essa sensação de liberdade, que não é tão livre assim devido à necessidade de progressão da investigação, traz um toque extra ao fator replay. Você fica com vontade de jogar o próximo ciclo apenas para fazer algo que não fez e descobrir o que vai mudar na história.
Repetição tem seu preço
O que é um trunfo também acaba sendo um problema para o game. Repetir determinadas ações torna a experiência cansativa do meio para o final, quando boa parte das pistas e dos suspeitos já foi coletada. Prepare-se para rever diálogos várias vezes e correr contra o relógio enquanto tenta descobrir como progredir.
| Além de coletar pistas, o jogador deve presenciar certos acontecimentos |
Essa necessidade imprime um ritmo mais lento à experiência, algo que pode afastar jogadores menos familiarizados com o gênero investigativo. Há também um grande volume de informações obtidas ao longo dos ciclos, nem sempre relevantes para a progressão, o que pode gerar a sensação de que algumas delas estão ali apenas para prolongar a experiência.
É possível encontrar atalhos e acelerar determinadas situações conforme se aprende mais sobre a rotina dos personagens, mas isso não elimina completamente a sensação de repetição.
Um Rio de Janeiro bonito e saudosista
Se a mecânica é o cérebro da aventura, a direção de arte é sua alma. O Rio de Janeiro de 1937 aparece em preto e branco, com uma estética de cartoon inspirada no cinema noir que combina muito bem com a proposta. Personagens estilizados, iluminação e cenários ajudam a criar uma identidade visual que transporta o jogador para uma cidade familiar, mas completamente diferente daquela que conhecemos hoje.
A trilha sonora segue o mesmo caminho, misturando jazz e elementos brasileiros para reforçar a ambientação. A voz de Rodrigo Lombardi como Brás Cubas também contribui para dar personalidade ao protagonista morto. É uma pena que o game não seja completamente dublado, porque isso poderia deixar a experiência um pouco menos monótona, especialmente considerando a quantidade de diálogos exibidos na tela.
| Os cenários são cuidadosamente desenhados e possuem muita personalidade |
Ainda assim, gráficos e músicas vão além de cumprir uma função estética. Eles são parte fundamental da identidade de A Investigação Póstuma — e é especialmente interessante ver uma história tão brasileira ganhando espaço em um lançamento internacional.
O maior mérito talvez esteja na maneira como a inspiração literária foi incorporada. O jogo não depende apenas do nome de Machado de Assis para parecer brasileiro. Personagens, situações e referências dialogam com a obra do escritor, criando uma espécie de universo compartilhado que recompensa quem conhece sua literatura, mas não exclui quem nunca leu Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Essa brasilidade pode ser ainda mais perceptível para quem nasceu por aqui, mas a ambientação e a proposta têm força suficiente para funcionar além das nossas fronteiras. A escolha de Machado como ponto de partida foi, sem dúvida, um dos grandes acertos da Mother Gaia Studio.
Novidades para Switch
A versão para Nintendo Switch chega em 17 de setembro de 2026 e é compatível com o Nintendo Switch 2. A página oficial da Nintendo informa que o jogo ocupa 426 MB em ambos os consoles e oferece suporte aos modos TV, semiportátil e portátil, além da tela sensível ao toque, que ajuda bastante na seleção de itens e pistas.
| Você verá essa cena algumas vezes durante o jogo |
Não há, porém, melhorias exclusivas de resolução ou desempenho nem conteúdo adicional. Quem já jogou o game para PC dificilmente terá motivos para desbravar novamente a história no Switch. Algo notado na versão para o console portátil da Big N é uma pequena travada em alguns momentos nos quais o protagonista sai da tela de interrogatório, o que não ocorria na versão para computador.
Apesar disso, a própria estrutura do jogo combina muito bem com a proposta híbrida do Switch, pois é uma experiência baseada em leitura, observação e raciocínio, sem exigir reflexos rápidos ou longas sessões contínuas. Dá para investigar o Rio de Janeiro de 1937, com calma no sofá de casa ou durante aquela viagem de ônibus para o trabalho.
Vale a investigação?
A Investigação Póstuma não é um jogo para quem procura ação constante ou grandes desafios de habilidade. Seu prazer está em perceber conexões, conhecer melhor os personagens e descobrir que aquela informação aparentemente insignificante era justamente a peça que faltava. É literalmente um árduo trabalho de detetive: coletar fragmentos, cruzar informações e juntar tudo em uma grande colcha de retalhos.
Com narrativa bem construída, direção de arte marcante, trilha sonora competente e uma mecânica de loop temporal que funciona melhor do que poderia parecer no papel, o game se destaca pela personalidade. Os principais problemas ficam por conta do ritmo mais lento e da repetição em determinados momentos.
Brás Cubas está morto, mas o mistério continua vivo. E talvez essa seja a melhor parte: ao contrário do pobre defunto, você ainda tem algumas tentativas para descobrir quem foi o responsável.
Prós
- Narrativa envolvente e bem construída;
- Excelente ambientação noir;
- Direção de arte com muita personalidade;
- Loop temporal criativo;
- Trilha sonora marcante;
- Forte identidade brasileira e boa utilização da obra de Machado de Assis;
- Localização em português brasileiro.
Contras
- Repetição excessiva em alguns momentos;
- Ritmo lento pode afastar parte dos jogadores;
- Grande volume de informações pode ser difícil de administrar;
- Pouca dublagem durante os diálogos.
A Investigação Póstuma — Switch/Switch 2 — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Dinho Paixão
Análise produzida com cópia digital cedida pela CriticalLeap