A resposta, com toda sinceridade, sempre será Rhythm Heaven Fever, lançado no Wii em 2011, com lançamento na América do Norte em 2012. A existência de Fever, e a franquia ao todo, sempre foi um fenômeno quase exótico para mim. Não só esse é o único jogo de ritmo que faz parte da “família” de franquias da Nintendo, ele também mal se encaixa nos padrões do gênero. Estranhamente, essa singularidade me encanta, seja pelos seus aspectos surreais, ou pela genuína qualidade dessa experiência, e permita-me contextualizar isso.
O fundamento rítmico
Quando, no contexto da comunidade maior de jogos, pensamos em um “jogo de ritmo”, pensamos nos clássicos como Vocaloid, da famosa Hatsune Miku, ou Osu!, um jogo de computador conhecido pela sua curva de expressão de habilidade colossalmente alta. O éthos que une esses jogos é um conjunto de músicas cantadas (e populares) e um desafio que requer que o jogador entre no ritmo com inputs precisos que são feitos em sucessão rápida, normalmente indicados por círculos ou os formatos dos botões no controle do jogador (normalmente acompanhado por um vídeo ou imagem no fundo, mas que pouco importa à essência da jogabilidade).
Rhythm Heaven, de outro modo, faz algo completamente diferente. Uma vez que, em outros jogos, o uso de vídeos não é o foco, aqui é o aspecto que motiva o jogador a entrar no ritmo. O jogo é dividido em colunas de cinco, quatro minigames separados e um “Remix” que usa os cenários de todos os jogos da coluna.
Cada minigame segue um formato bem específico: você, o jogador, será marcado pelo personagem que tem “You” escrito abaixo dele. Os personagens presentes estarão fazendo alguma atividade, como no primeiro nível, Hole in One, em que temos um humano e dois macacos jogando golfe. Desse modo, os personagens farão algo para que o jogador precise seguir o ritmo da música (em Hole in One, os macacos jogam bolas, cada um em um ritmo diferente, e o jogador precisa acertar cada uma perfeitamente para que a bola caia no buraco).
Em sua essência, isso é Rhythm Heaven. Cada minigame tem sua premissa um tanto absurda e cômica, cada um tem seu estilo diferente, e algo que torna essa franquia única é como cada cenário dialoga com o gênero de ritmo, e como cada música, em sua maioria sendo instrumental, é amada pela comunidade.
O paraíso sinfônico
O aspecto mais importante de um jogo de ritmo é, claramente, sua trilha sonora. Um jogo pode ter mecânicas incríveis, mas ninguém jogaria tal jogo se as músicas fossem chatas, amadoras ou torturantes aos ouvidos. Assim entra o realizador principal da franquia Rhythm Heaven: Mitsuo Terada, conhecido popularmente como Tsunku.
Terada é um produtor de música e cantor japonês que decidiu trabalhar para a Nintendo nos anos 2000 para lançar Rhythm Tengoku no Game Boy Advanced e Rhythm Heaven no Nintendo DS, agindo como produtor e compositor de todas as trilhas. Tsunku teve que enfrentar o desafio de criar uma trilha memorável para a franquia apenas com músicas instrumentais e poucas vocais nos remixes (algo que ainda assim era bem raro na franquia antes de Rhythm Heaven Groove), especialmente quando os outros desenvolvedores do gênero não tinham essa interpretação. Mesmo Tsunku não sendo o único compositor da franquia, sua visão definitivamente deu forma ao que Rhythm Heaven é.
Rhythm Tengoku e Rhythm Heaven já tinham seus destaques, mas creio que Tsunku brilha como nunca antes em Fever. Músicas instrumentais como Monkey Watch, Remix 4, Air Rally e mais são amadas pelos fãs, e músicas vocais como Tonight, Dreams of Our Generation e I Love You My One And Only são reconhecidas até fora da comunidade.
Como muitos dizem que a qualidade da trilha sonora caiu no jogo seguinte da franquia, Rhythm Heaven Megamix (algo que pode ser atribuído à luta contra o câncer por que Tsunku passou na época), a trilha sonora de Fever é amada como nenhuma outra. Ademais, em minha honesta opinião, trata-se de uma das melhores trilhas sonoras em qualquer jogo da Nintendo.
Como um pequeno adendo, recentemente a cantora britânica PinkPantheress lançou a música Girl Like Me, e ela citou Rhythm Heaven como uma inspiração fundamental (algo perceptível ao ver o clipe oficial da música citada).
Enfim… o formato sustenta a experiência?
Rhythm Heaven Fever é, por natureza, uma experiência plural e cheia de diferentes facetas. Como cada minigame tem seu próprio estilo e valor, sinto quase como se cada um precisasse ser avaliado e apreciado individualmente.
No entanto, obviamente não temos tempo o suficiente para que eu fosse capaz de avaliar cada jogo com o carinho que merece (mas não duvide que eu teria vontade). Então, em um nível generalizado… sim. A maioria segue as filosofias gerais da franquia de um jeito que eu diria serem experiências de alta qualidade, pondo de uma forma bem simples. Afinal, um jogo medíocre não teria uma comunidade tão dedicada, mesmo nichada, nem seria inspiração para músicos famosos (e, novamente, é só olhar para Megamix e ver o que realmente é uma experiência medíocre na franquia).
Mesmo assim, ainda tem alguns minigames que não particularmente atiçaram o meu espírito. Bem, em um jogo com uma coletânea tão gigante, é quase impossível que cada parte seja uma obra de arte da era contemporânea. Como dizem, algumas maçãs estragadas não estragam o cesto todo, então alguns minigames que são de qualidade menor com certeza não metamorfoseiam minha opinião no resto do jogo.
Para aqueles que jogaram Rhythm Heaven Groove recentemente e estão famintos por mais jogos nesta fórmula única, a melhor opção é, com absoluta certeza, Rhythm Heaven Fever. Como um adendo, após Fever eu também recomendaria os outros jogos da franquia, como Rhythm Heaven no DS e até mesmo Rhythm Tengoku no Game Boy Advance (por mais que, para esse, seja necessário um GBA e cópia do jogo japoneses).
Enfim, eu espero genuinamente que possamos ver da Nintendo no futuro mais obras tão originais e malucas quanto Rhythm Heaven Fever. Ademais, que seja possível ver esses momentos de expressão criativa que saem das convenções normais, seja em jogos de ritmo ou no panteão maior da indústria de jogos.
Revisão: Vitor Tibério